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Está no prontuário policial número 42.442 da Divisão de Polícia Política e Social (DPS) do antigo Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP), órgão do ministério que naquela feita chamava-se da Justiça e dos Negócios Interiores: o operário Lucidio de Castro e Souza, filho de pai homônimo e de Olivia Stutz de Souza, foi preso no dia 2 de maio de 1949, durante o governo Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), aos 34 anos de idade e por levar consigo material de propaganda do Partido Comunista Brasileiro (PCB), no qual militava.

Lucidio e seu concunhado Arecy Joaquim Vieira “foram alvo de desconfiança dos policiais que os detiveram” – datilografou assim, no prontuário, o “investigador cento e sessenta e três” – quando transitavam na rua Dr. Pio Borges, perto da travessa Rangel, onde Lucidio morava e morou o resto da vida, na cidade de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro.

Na época em que foi preso, Lucidio exercia o oficio de caldeireiro de ferro na ilha do Mocanguê, na vizinha Niterói (cidade onde foi fundado o PCB, em março de 1922), a serviço da Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, estatal desmanchada em 1997 no âmbito do Plano Nacional de Desestatização capitaneado por Fernando Henrique Cardoso, em etapa já vencida do plano sempiterno de desmonte do país.

Além de que portava, quando da revista na Pio Borges, propaganda de agitação das massas trabalhadoras, a DPS tinha conhecimento de que Lucidio tivera participação no diário Tribuna Popular, órgão de imprensa do PCB que já não circulava havia cerca de ano e meio, desde o fim de 1947, quando ao Partidão mais uma vez fechava-se o cerco para atirá-lo à ilegalidade, dessa vez por iniciativa do presidente Dutra.

Questionado sobre o Tribuna Popular, Lucidio disse à repressão – sua biografia indicando que com ironia, valendo-se de linguagem e congruência caras ao inimigo – que havia adquirido uma ação do jornal “com o fito exclusivo de auferir renda”, conforme consta em seu termo de declarações.

Questionado sobre para onde se dirigia quando uma viatura policial interrompeu-lhe o passo nas ruas de São Gonçalo, o caldeireiro, firme como o ferro, declarou que ele e Arecy estavam a caminho de onde residia o sogro que tinham em comum, Nilo Rangel, fazendo questão de informar aos seus interrogadores exatamente para quê:

“Para matar um porco”.

Talvez Lucidio tivesse mesmo naquele dia o propósito de tão somente passar o facão na carne do jantar, mas é provável que a menção, como foi feita, à alcunha com que nos meios operários referiam-se a quem fosse um fascista tenha exasperado o torturador Cecil Bohrer, notório simpatizante do nazismo, presente no interrogatório de Lucidio na qualidade de chefe da seção.

Quando soube da prisão de Lucidio e de Arecy, Margarida, esposa de Arecy, sentiu fortes contrações, sentiu depois a bolsa d’água estourar, e na noite do dia 2 para o dia 3 de maio de 1949 deu à luz seu filho Paulo. Athinilda, irmã de Margarida, esposa de Lucidio, foi quem ajudou a criança em seu primeiro choro, em sua primeira vez que aspirou o ar de maneira independente.

Naquela noite, a História anunciava literalmente aos berros o seu parto, simultaneamente numa casa do bairro do Pita, em São Gonçalo, e num qualquer oco, vazio de registros, do “superministério” da Justiça e dos Negócios Interiores.

Quando Athinilda Rangel de Souza foi buscar Lucidio, no dia 4 de maio, em uma delegacia do então Distrito Federal do Brasil, encontrou-o maltratado, ao lado de um balde, em vez d’água, de sangue.

Mais tarde, aterrorizada, Athinilda atearia fogo a documentos tornados perigosos demais, para ela insuportáveis, que seu marido guardava num baú malocado em algum oco da casa, no número 510 da travessa gonçalense que até hoje tem seu sobrenome e do seu pai, o sogro em comum de Lucidio e Arecy.

“Lembro do estado em que meu pai chegou em casa, após longo período de tortura, com o corpo todo coberto de hematomas, ainda vomitando sangue por causa das hemorragias internas. Seu crime foi ser trabalhador e lutar por melhores condições de trabalho. Não fosse o empenho do reverendo Aníbal Nora, pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, conceituado e respeitado educador, que conhecia a grandeza e integridade do meu pai, ele certamente não teria sido solto, mas sim assassinado”, conta a mais velha dos sete filhos de Lucidio, Solange Rangel de Souza, que na época tinha quatro anos de idade.

Anos depois, Lucidio seria desligado, ou melhor, renunciaria ao PCB. Caso raro de militante comunista como do protestantismo histórico, não pôde, quando lhe foi solicitado, depois do termo de declarações da DPS, assinar um termo de ateísmo, doutrina oficial do partido.

O tamanho de sua fé, mas muito mais que isso sobre o velho caldeireiro – velho de tantas e tantas guerras interiores e outras objetivas com que a gente esbarra na vida – pode ser medido na “Oração de um pai”, carta que datilografou à descendência no ano de 1981 e que é umas das coisas mais belas e sensíveis em que já pude pôr meus olhos:

“Quem serão eles? Que lhes reserva a vida?”.

A repressão do velho Estado brasileiro às lutas mais consequentes do povo brasileiro deu cabo de Lucidio de Castro em 1989, 40 anos depois de tê-lo ferido de morte. Tinha 74 anos de idade quando finalmente sucumbiu às complicações cardiopulmonares que trazia no peito, entre outros males de mais difícil diagnóstico, desde o dia em que abriu a boca, mas para falar de porcos, diante dos javalis de Eurico Gaspar Dutra.

Lucidio morreu a caminho do hospital, num banco de trás, nos braços do seu filho do meio, meu pai. Lucidio morreu em junho, sem tempo de votar na primeira eleição presidencial direta realizada no Brasil em 29 anos. A tempo, porém, de conhecer a neta caçula, minha irmã, em cujo berço de recém-nascida Lucidio passava boa parte das tardes babando orgulho, sujo da lida na horta. Contam-me que, anos antes, adormecíamos juntos, eu em seu colo, no sofá, e nenhum de nós se mexia até um de nós acordar. Adivinhe quem ficava sempre um longo tempo imóvel, de olhos abertos, cravados no teto.

Não foram os terreninhos no bairro proletário do Pita, um para cada um, o maior patrimônio que Lucidio deixou para os sete filhos que criou e educou com imensos sacrifícios, e a quem assombrava, mas instruía, contando seus testemunhos de companheiros mortos de maneira dramática durante a construção da ponte Rio-Niterói – trabalhadores soterrados pelo “progresso”, que o país e as betoneiras não podiam parar.

Sua herança maior para os sete filhos, 14 netos e bisnetos ainda contando é aquela alegoria sem valor venal atirada às fuças do delegado Bohrer.

O registros da prisão de Lucidio pela polícia política de Eurico Gaspar Dutra estão hoje sob os cuidados do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Foram guardados, inicialmente, “graças” ao decreto-lei 20.532 de 1946, que atribuiu à DPS a incumbência de “manter atualizado o fichário de pessoas que interessem ao DFSP. O fichário e a galeria fotográfica de indivíduos expulsos do território nacional e dos reconhecidos como nocivos à ordem pública e aos interesses do país”.

Menos como relíquia, mais como amuleto, a família de Lucidio preservou sua carteira de trabalho, onde constam as anotações dos nove empregos formais por ele ocupados ao longo da vida, nos ofícios de caldeireiro, servente, chapeador e montador de 3ª classe.

Emitida em janeiro de 1936, ela é de um tempo em que se chamava “Carteira Profissional” e não trazia anotado em suas folhas, por assim dizer “de fábrica”, nem um direitozinho sequer; trazia no máximo latente, talvez escondido, como as mensagens secretas escritas com suco de limão, que “toda a beleza da humanidade irradia desses homens endurecidos pelo trabalho”.

É também, portanto, espólio de Lucidio, de Arecy, dos operários em geral da ilha do Mocanguê, de quem mais disse “presente!” na história das lutas por direitos no Brasil, que mais tarde a Carteira de Trabalho e Previdência Social brasileira passasse a trazer impresso em suas primeiras folhas o inciso I do artigo XXIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego”.

No Brasil atual, de direitos civilizatórios cinicamente negados pela borda e de ataques sem precedentes contra o mundo do trabalho, a mínima tarefa a que podem se propor os legatários dos imensos sacrifícios das gerações passadas (“Quem serão eles? Que lhes reserva a vida?”) é impedir que suas conquistas acabem reduzidas a letra morta da luta de classes.

Ainda existe também o velho facão de Lucidio, por via das dúvidas, que a vara anda solta por aí. O velho facão com o cabo reforçado com pregos que foi Lucidio quem pregou e com voltas de fita preta que foi Lucidio quem deu.

Sobreviveu ainda de Seu Lucidio, ao incêndio de Dona Athinilda, e para contar a História, o baú da travessa Rangel, aquele dos escritos da subversão. Décadas depois do seu uso arquivístico, ainda guarda uma ideia sediciosa: a de que, à parte os autoenganos, as classes trabalhadoras aspiram ao livre esforço de pensamento como a vida aspira à luz.

Todos eles – carteira de trabalho, baú, facão – foram legados aos meus cuidados, e irão me acompanhar para sempre. Para sempre dizendo assim:

“Coragem”.

Neste domingo, vô, 2 de outubro de 2022, o seu facão vai ficar onde está: ali, na estante de ferro, junto com sua carteira de trabalho, ambos sempre à vista.

Vou sair cedo, vô, só com a roupa do corpo – e da cor das lutas sociais -, um adesivo de outro operário no peito, a carteira de identidade, o título de eleitor e uma fração da sua imensa coragem.

Vou ali, vô. Seu bisneto – quem será ele? Que lhe reserva a vida? – vai comigo.

Vou ali derrotar um porco.

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