Nesta sexta-feira, 7, num quebra-queixo com jornalistas, o ministro da Saúde deste Estado dos suis do mundo classificou como “pandemia de narrativas que não se sustentam” a saraivada de críticas e o espraiamento de engulhos que sua atuação na pandemia de covid-19 vem provocando, especialmente após o boicote do ministério, a mando de Bolsonaro, à vacinação infantil contra a doença.

A cereja do boicote foi quando Marcelo Queiroga, um dia antes, anunciando a inclusão de crianças a partir de cinco anos no programa de vacinação contra a covid, por determinação do Supremo e no último dia do prazo, sugestionou aos pais e responsáveis, “para uma melhor tomada de decisão”, que o risco de “eventos adversos” da vacina, na verdade ínfimo, equipara-se aos benefícios da vacinação, que são amplos, vastamente conhecidos e profusamente comprovados.

O quebra-queixo de Queiroga nesta sexta lembrou vivamente um outro, internacionalmente famoso, cinematográfico.

Trata-se de uma cena do filme “Mississippi em chamas” em que um Grande Mago dos Cavaleiros Brancos da Ku Klux Klan, Clayton Townley, quando abordado por jornalistas na rua, reclama da, digamos, “narrativa” da imprensa americana sobre a segregação racial naquele estado do sul dos EUA:

“Estou cansado com a maneira como nós no Mississippi estamos tendo nossas ideias distorcidas por vocês da TV”.

“Então – emenda Townley – vamos esclarecer uma coisa: não aceitamos os judeus porque eles rejeitaram Cristo. O controle que eles têm do cartel dos bancos é a raiz do comunismo. Não aceitamos papistas porque reverenciam um ditador romano. Não aceitamos os turcos, os tártaros, os mongóis, os orientais ou os negros porque estamos aqui para proteger a democracia anglo-saxônica e o modo de vida americano”.

O filme de Alan Parker é de 1988, mas a trama, baseada em trágicos episódios reais, se passa em 1964 – ano agitado, não? – e retrata a investigação do assassinato de três ativistas dos direitos civis, um negro e dois brancos, num condado do “estado das magnólias”.

Em tempo

Em outra cena de “Mississippi em chamas”, dois agentes do FBI, interpretados por Gene Hackman e Willem Dafoe, acabam de sair da casa onde o delegado do condado vive com a esposa. Checagem de álibi. Na saída, os agentes têm o seguinte diálogo:

“Você viu a foto do casamento? Os três padrinhos deles tinham os polegares assim nos cintos, com três dedos apontando para baixo”.

“E o que isso quer dizer? Algum sinal maçônico?”.

“Não. KKK”.

A foto foi uma das pistas que levaram à comprovação de que o aparato policial do condado estava envolvido com a Klan e na morte dos jovens ativistas. O delegado foi condenado a 10 anos de prisão.

Em março do ano passado, um assessor especial da presidência da República, de Bolsonaro, Filipe Martins, fez um gesto semelhante durante uma audiência no Senado. A foto é esta:

O Ministério Público indiciou Filipe Martins por crime de racismo. A providência do Senado foi aprovar uma moção de censura ao assessor palaciano… Em outubro, um juiz federal de Brasília absolveu Martins da acusação feita pelo MP.

Ele estava só alisando o paletó.

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