Emanuel Catori, primeiro à esquerda, e Ricardo Barros, primeiro à direita, em reunião com Marcelo Queiroga.

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Um documento de alteração de contrato social mostra que a Interlogic Farmacêutica LTDA, empresa de Maringá que funcionava com este nome desde 2011, virou Belcher Farmacêutica no Brasil LTDA no dia 20 de março de 2020, data em que, coincidentemente, foram registrados o primeiro caso de transmissão comunitária do novo coronavírus no país e o primeiro caso de covid-19 no estado do Rio de Janeiro.

No início de junho de 2021, o Ministério da Saúde assinou com a Belcher uma intenção de compra de 60 milhões de doses de uma vacina contra a covid-19 chamada Convidecia, do laboratório chinês CanSino. A Belcher seria a intermediária do negócio. O preço era de US$ 17 por dose. Seria a vacina mais cara comprada pelo Brasil, mesmo sendo de dose única. A vacina Janssen, também de dose única, custa US$ 10.

Um dos dois sócios da Belcher, Emanuel Ramalho Catori, depõe nesta terça-feira, 24, à CPI da Covid-19. No último 26 de junho, este jornalista expôs em publicação numa rede social a conexão do líder do governo Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros, com o outro sócio da empresa, Daniel Moleirinho Feio Ribeiro.

Daniel Moleirinho é filho de Francisco Feio Ribeiro Filho. Chiquinho Ribeiro, como é conhecido, é um velho amigo do líder do governo, foi presidente da Urbamar, empresa de urbanização de Maringá, quando Ricardo Barros governou a cidade, na década de 90, e foi diretor da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) em 2018, no governo Cida Borghetti – esposa de Barros.

No dia anterior à denúncia da ligação de Barros com a Belcher, 25 de junho, o deputado Luis Miranda dizia à CPI que Bolsonaro havia classificado como “mais um rolo de Ricardo Barros” o negócio fraudulento do Ministério da Saúde com a Precisa para a compra da vacina indiana Covaxin.

Em 28 de junho, a Folha de S.Paulo mostrou que o advogado de Ricardo Barros, Flavio Pansieri, atuou pela CanSino na negociação para a compra da Convidecia pelo governo Bolsonaro.

Agendas

Em live feita no dia 18 de março com Carlos Wizard, com o chefe de importação da Havan, Alan Eccel, e com Emanuel Catori, Luciano Hang falou em quebrar o “monopólio” do Butantã e da Fiocruz na comercialização de vacinas contra a covid-19 no Brasil:

“Parece que se criou no Brasil o monopólio das vacinas, como nós temos o monopólio das cartas, como nós temos o monopólio do petróleo. É o Butantã e a Fiocruz. São duas empresas estatais. Parece que não querem soltar aí. Tem a Anvisa. Fica todo mundo sentado. Não liberam alvará, que eu já estou acostumado (…). Nós precisamos de liberdade. Soltem as empresas privadas!”.

Quando Hang grita: “é carimbo! carimbo! carimbo!”, reclamando dos trâmites do Ministério da Saúde, Alan Eccel se sacode em gargalhadas por trás do ombro do chefe, e diz em seguida: “imagina que a gente está tentando liberar uma autorização emergencial, mas é carimbo, carimbo, e a gente não consegue”.

Semanas depois, em 13 de abril, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Rodrigo Moreira da Cruz, reuniu-se a três com Alan Eccel e, segundo a agenda oficial, um “Manuel Cartori”.

Dois dias depois, 15 de abril, o próprio ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, reuniu-se com Catori e Ricardo Barros. Só o nome de Barros constava na agenda oficial de Queiroga, mas, pressionado pelo site Poder 360, Barros “declinou”, como diria Randolfe Rodrigues, que entre outros conduzidos por ele ao ministro naquele dia estava Emanuel Catori.

No dia 20 de maio, às 11:30h, Rodrigo Moreira da Cruz voltou a se reunir com Alan Eccel, desta vez sem a presença de “Manuel Cartori”, mas com a pauta “vacina da CanSino”. No mesmo dia, à tarde, Rodrigo Moreira da Cruz se reuniu com Ricardo Barros, sem divulgação de pauta. Dois dias antes, em 18 de maio, a Belcher havia entrado na Anvisa com pedido de uso emergencial da vacina da CanSino.

Em junho o Ministério da Saúde assina a intenção de compra de 60 milhões de doses da vacina, num negócio de mais de R$ 5 bilhões acertado na esteira das dificuldades mil criadas pelo governo Bolsonaro para aquisição pelo Brasil de vacinas da Pfizer, do Butantã e do consórcio Covax Facility. O negócio com a Belcher ficava, assim, na dependência da aprovação da Convidecia pela Anvisa.

Firmas

A cláusula terceira da alteração de contrato social que rebatizou a Interlogic como Belcher diz que a empresa teria por objeto “a exploração do ramo de distribuição, logística, armazenamento, representação comercial, importação de medicamentos, produtos e insumos químicos, farmacêuticos e equipamentos de proteção individual”, entre outros.

Em julho do ano passado, quatro meses depois de rebatizada, a Belcher foi alvo da Operação Falso Negativo, desencadeada pela Polícia Federal contra empresas que se lambuzaram em superfaturamentos aproveitando-se da dispensa de licitação para aquisição de testes rápidos de covid-19.

A alteração de contrato social não foi a única movimentação cadastral da Belcher, de Emanuel Catori e Daniel Moleirinho desde que a pandemia de covid-19 começou. A empresa já abriu outros três CNPJs ao longo da pandemia. A mais recente é a Belcher Participações Societárias LTDA, criada no último 5 de julho. A primeira foi a Rcy Brasil & Belcher Spe LTDA, aberta no dia 6 de janeiro de 2021.

No quadro de sócios e administradores da Rcy Brasil & Belcher consta a Ribetech Participacoes Sociais LTDA, pessoa jurídica representada pela pessoa física Francisco Feio Ribeiro Filho – Chiquinho Ribeiro, o velho conhecido de Ricardo Barros.

A Rcy Brasil & Belcher funciona no mesmo endereço da Belcher em Maringá, no número 21102 da rua Rodolfo Cremm, numa construção tipo galpão rodeada por terrenos baldios, segundo mostra o último registro feito pelo Google Street View, em 2020. A farmacêutica maringaense que assinou uma intenção de compra de vacinas da ordem de R$ 5 bilhões com o Ministério da Saúde tem o número de identificação do seu imóvel-sede apenas e tão somente escrito à mão no poste de ligação de energia.

Entre as aberturas da Rcy Brasil & Belcher e da Belcher Participações Societárias surgiu a Belcher & NHG Farma Spe LTDA, criada no dia 23 de junho deste ano, data que merece atenção.

Timings

Chamado de “Rolos” de Ricardo Barros, tanto o contrato da Precisa/Covaxin quanto o da Belcher/Convidecia com o Ministério da Saúde foram cancelados.

No caso da Belcher, a Anvisa extinguiu o processo de aprovação da Convidecia três dias após a vir à tona a conexão da farmacêutica de Maringá com Barros. O motivo oficial foi que a CanSino havia descredenciado a Belcher como sua representante no Brasil.

A Anvisa informou a posteriori que o processo de aprovação da Convidecia começou a desandar no dia 17 de junho, e o Ministério da Saúde foi avisado sobre isso no dia 18. Foi no dia 18 de junho que a Folha de S.Paulo publicou que o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, irmão do deputado Luis Miranda, vinha sofrendo “pressão atípica” dentro do ministério para autorizar a importação da Covaxin sob condições igualmente heterodoxas – o imbróglio das invoices da Precisa.

É certo que a Folha vinha apurando o caso Luis Ricardo Miranda/Covaxin desde os dias anteriores à publicação da reportagem. É provável que naquele momento tenha piscado algum alerta entre os artífices de eventuais outros contratos de “negocionismo” com vacinas.

Precisamente entre os dias 17 e 18 a CanSino envia ofício à Anvisa se desvencilhando da Belcher. No dia 22 de junho, a Belcher pede à Anvisa um tempo para tentar desenrolar a situação com a CanSino. No dia seguinte, 23 de junho, é criada a Belcher & NHG Farma.

Nesta “outra Belcher”, Emanuel Catori segue como administrador. Quem não aparece mais diretamente é a família Feio Ribeiro, ligada a Ricardo Barros. Quem aparece na joint venture é a NHG Fitofármacos e Nutracêuticos LTDA. Quem brilha no conselho administrativo da NHG é o americano Mark Neeleman, co-fundador da Azul Linhas Aéreas.

Para registro:

A Azul é a companhia aérea que recentemente permitiu a Jair Bolsonaro trânsito sem máscara em um seu avião na pré-decolagem de um voo; que, por isso, foi convocada a prestar esclarecimentos na Câmara, não compareceu, e ficou por isso mesmo; que tem hoje na presidência do seu conselho de administração o irmão de Mark, David Neeleman, notório trumpista; que foi contratada para trazer, com pompa, vacinas da Índia, não trouxe, mas recebeu R$ 2,5 milhões mesmo assim; que foi por tudo isso classificada pelo jornal O Globo como “o palanque Azul de Bolsonaro“.

Sobre tudo isso, Emanuel Catori deve exercer nesta terça, na CPI, o direito de permanecer em silêncio, a ele concedido por Habeas Corpus dado por Gilmar Mendes.

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