Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

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É certo que o Brasil tem hoje a pior conjunção dos chefes de poderes e organismos públicos da história da Nova República, de Jair Bolsonaro (hors concours) e Augusto Aras a Paulo Maiurino e Luiz Fux, passando por Rodrigo Pacheco, o violinista de Titanic, e Arthur Lira, que, no páreo duro com Eduardo Cunha, ganha, o avalista de genocídio, do apertador do botão de golpe.

E se a conjunção dos astros celestes obedecem às leis da astrofísica, esta dos chefes de poderes e organismos, terreníssima, pedestre mesmo, tampouco pode ser posta na conta do acaso. A história de como o STF limpou o caminho para a ascensão de Lira dá conta, sobretudo, da estatura dos atuais chefes da Câmara e do Judiciário. Esta estatura é semelhante à de uma pulga de peruca – e que peruca – padecedora de inanição.

Quando Arthur Lira foi eleito presidente da Câmara, em fevereiro, voltou à baila o episódio ocorrido em 2013 da denúncia de espancamento de Jullyene Lins, ex-companheira de Lira, pelo nobre deputado, que teria surrado durante 40 minutos a mãe dos seus dois filhos, meses após o fim de um relacionamento de 10 anos, quando participado que Jullyene teria um novo amor.

Uma das testemunhas, a babá dos filhos de Jullyene, disse em juízo que a patroa gritava “você não é meu dono” enquanto era arrastada pelos cabelos, e que Lira, por seu turno, gabava-se de dominar técnicas de dar bordoadas quase sem deixar roxos sinais. Quase. Um laudo do IML de Maceió atestou hematomas nos braços e nas pernas da vítima.

Em dezembro de 2013, mesmo com laudo, com tudo, por um triz o STF sequer recebeu a denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) contra Lira. O relator do caso, Luiz Fux, votou pela rejeição, saindo-se com esta:

“Não só por experiência pessoal, mas porque tenho um gosto específico por esporte, nem num torneio de Mixed Martial Arts se permite que uma pessoa apanhe por 40 minutos. Porque uma surra de 40 minutos é conducente à morte”.

Gilmar Mendes e Dias Toffoli acompanharam Fux na douta tese MMÁstica de que não havia indício de espancamento. É que, afinal, no peito de Jullyene seguia batendo um coração…

Outro arrazoado levantado por Fux pela rejeição da denúncia contra Lira foi que, no curso das coisas, Jullyene e testemunhas acabaram retirando a acusação de espancamento. Foi necessário que Ricardo Lewandowski repisasse na mais alta instância judiciária brasileira algo do mais elementar sobre violência contra a mulher:

“Eu vejo com muita reserva a retratação da vítima nesses casos, em se tratando de mulheres agredidas, sobretudo tendo em conta aquele fenômeno que o eminente ministro Celso de Mello trouxe à baila, que é o patriarcalismo ainda muito arraigado em certos rincões deste país, ainda atrasados culturalmente, e que pode, em casos como este, fazer com que a vítima responda com a própria vida”.

Em entrevista publicada pela Folha em meados de janeiro, Jullyene Lins disse que, na época do seu espancamento, oito anos antes, Arthur Lira a coagiu a mudar o depoimento. Na entrevista, Jullyene refirmou as acusações contra o deputado:

“A situação toda durou 40 minutos. Ele parava, me xingava, me chamava de vagabunda e de outros nomes horríveis. Aquilo era o machismo puro, o sentimento de posse, que acho que tem até hoje. Tudo tem que estar no domínio dele, no comando dele”.

Em entrevista dada a Andréia Sadi no dia 31 de janeiro, véspera da eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, Arthur Lira prometeu que, caso fosse eleito, “a Câmara vai sair do ‘eu’, de um único deputado querendo falar o dia todo por todos nós. A Câmara vai sair do ‘eu’ para entrar na época do ‘nós’”.

Denunciado com base na Lei Maria da Penha, Arthur Lira acabou sendo absolvido, em setembro de 2015, pela Segunda Turma da egrégia corte suprema da República.

Surgiu um problema? Não seja por isso

Outra denúncia da PGR contra Lira, por uma escandalosa rachadinha, rachadaça, que teria sido chefiada por ele na Assembleia Legislativa alagoana, dormitou anos nas mãos de Rosa Weber, até que foi remetida à primeira instância da República das Alagoas, onde o deputado foi absolvido em dezembro de 2020, providencialmente a menos de dois meses da eleição para a mesa da Câmara.

Em seguida, em janeiro, foi a vez de Luis Roberto Barroso remeter à justiça do Distrito Federal uma outra ação movida por Jullyene Lins contra Lira, esta por injúria e difamação.

Segue o jogo. Com apoio de Jair Bolsonaro, Arthur Lira foi eleito presidente da Câmara no dia 1º de fevereiro, precisamente na data de aniversário de Maria da Penha Maia Fernandes. A farmacêutica cearense que lutou para que seu agressor fosse condenado completou 76 anos de idade.

Lira eleito, surgiu um problema: o novo presidente da Câmara não poderia integrar a linha sucessória da presidência da República. Isso porque o sucessor de Rodrigo Maia respondia, junto com Ciro Nogueira e outros políticos do PP, a um remanescente processo no STF, por corrupção, aberto em 2017.

Não fosse por isso. Um mês depois de Lira tomar posse, no dia 2 de março, a segunda Turma do STF arquivou o inquérito inconveniente, por três votos a dois, com o precioso voto de Kassio Nunes Marques, líder do governo no Supremo, a favor do arquivamento.

Hoje, além de avalista do genocídio, Arthur Lira é sócio de Jair Bolsonaro nas empresas de baralhamento suplementar do país, com o “voto impresso”, e de aniquilação do Poder que lhe serviu de batedor. Arthur Lira, como Jair Bolsonaro, é mais um presente das instituições brasileiras para você, para o Brasil.

Cria corvos, e eles arrancam-lhe a toga, e talvez a peruca.

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