Plenário do TSE (Foto: Antonio Augusto/Secom/TSE).

Fortaleça a imprensa democrática brasileira

Já faz mais de 60 anos que Stan Lee criou o Homem-Aranha, em uma história em quadrinhos que não termina nada bem, com Peter Parker nessa vibe aqui: “arrasado, Peter desaparece na escuridão em silêncio, finalmente ciente de que, neste mundo, grandes poderes trazem… grandes responsabilidades”.

Estreando os novos “superpoderes” do TSE para mandar apagar a jato postagens na internet, o ministro Paulo de Tarso Vieira Sanseverino mandou fazer sumir duas postagens de André Janones nas quais o Avante terrible da campanha democrática se referia a Jair Bolsonaro como “miliciano”, em uma, e como “assassino que ajudou a matar 400 mil pessoas e ainda debochou das vítimas”, na outra.

Com todas as conhecidas ligações da família do presidente da República, e do próprio, com várias figuras da milícia da Zona Oeste do Rio de Janeiro, com direito a familiares de uma delas envolvidos no esquema da rachadinha na Alerj, classificar Jair Bolsonaro de miliciano, no discurso político, no debate político-eleitoral, agora é “discurso manifestamente inverídico e odioso”, como escreveu Sanseverino em sua decisão?

Com tudo o que já foi comprovado de sabotagem do governo federal a todas as medidas possíveis – todas, do distanciamento físico ao uso de máscara, passando pela vacinação em massa – para mitigar o impacto da pandemia de covid-19 no Brasil, dizer que Bolsonaro “ajudou a matar 400 mil pessoas e ainda debochou das vítimas” agora é “desinformação prejudicial à integridade do processo eleitoral”, como também escreveu o ministro do TSE?

É uma boa ideia estrear “superpoderes” removendo conteúdo (e conteúdo longe de ser “sabidamente inverídico”) da campanha à qual praticamente só restou se defender de tanta e tanta fake news, e não da campanha que só faz incorrer na mentira, na impostura, na desinformação, corrompendo à luz do dia o processo eleitoral? Neste mundo, neste país, nesta última semana de processo eleitoral, “superpoderes” trazem… grandes responsabilidades.

Em 1961, naquela história em quadrinhos de estreia do Homem-Aranha, Peter Parker se afunda arrasado na escuridão porque tinha acabado de descobrir que seu tio havia sido assassinado por um criminoso que, dias antes, o Aranha tivera a oportunidade de conter.

Com a palavra, Peter Parker, tendo na boca um gosto amargo de fel: “é tudo minha culpa. Eu não quis deter o canalha quando pude. Agora, tio Ben está morto”.

Deixe um comentário

Deixe um comentário