Gabriel Borić, presidente eleito do Chile.

“Soube o que aconteceu com o Pinochet?”, disse a estudante de antropologia Victoria ao escritor chileno Ariel Dorfman em Berkeley, EUA, na madrugada de 17 de outubro de 1998, dia seguinte à prisão do genocida em Londres. É com esta pergunta, ou melhor, com a notícia levada por Victoria que Dorfman abre seu livro sobre o cerco judicial ao general Augusto José Ramón Pinochet Ugarte.

E você, soube o que aconteceu com o Pinochet neste domingo, 19, no Chile? Foi derrotado nas urnas por um ex-líder estudantil de 35 anos de idade, sustando a ascensão a La Moneda de um exemplar da Internacional Neofascista.

Após o estallido social contra o neoliberalismo, em 2019, a decisão plebiscitária pelo enterro da Constituição da ditadura, em 2020, e a eleição de uma Assembleia Constituinte progressista, em 2021, a vitória de Gabriel Borić sobre José Antonio Kast é mais um passo do Chile em seu longo adeus a Pinochet – “O longo adeus a Pinochet” é precisamente o nome do livrinho, posto que imenso, em que Ariel Dorfman narra o dia em que foi acordado em Berkeley com uma notícia para lá de alvissareira.

E Borić, eleito com 4,6 milhões de votos – e com margem mais larga do que apontavam as pesquisas – pode conduzir o Chile a mais um e decisivo passo neste sentido: é uma de suas promessas de campanha pôr fim ao injusto, cruel e empobrecedor modelo pinochetista de aposentadorias, inspiração previdenciária do bolsoguedismo no Brasil.

Não obstante, causa arrepio que mais de 3,5 milhões de chilenos tenham saído para votar neste domingo, mesmo sem voto obrigatório, em um homem que, por seu turno, prometeu na campanha eleitoral “prender pessoas em lugares que não sejam cadeias”, numa pouco sutil alusão aos campos de concentração, nomeadamente o Estádio Nacional do Chile, em Santiago, onde a ditadura de Pinochet torturou e assassinou centenas de milhares de pessoas.

Em um país de 19 milhões de habitantes, é razoável supor que muitos parentes dos torturados, dos executados, dos desaparecidos pelas mãos enluvadas de Pinochet tenham votado neste domingo em José Antonio Kast.

“Se os mortos votassem…”: este é o título de um artigo de Ariel Dorfman publicado neste domingo no jornal argentino Página/12. No artigo, Dorfman diz que muito se fala da novidade representada por Gabriel Borić, mas “a novidade desconcertante” que o escritor ressalta é a de que “um homem das cavernas de direita, que vai contra todos os avanços feitos pelo Chile desde a Independência, chega a ter a possibilidade de obter a maioria dos votos”.

No Cone Sul, o vislumbre tétrico de um homem das cavernas de direita, francamente pinochetista, ocupando a presidência da República é novidade no Chile. Aqui, na boca do cone, é o que se vê da janela, um maldito dia após o outro.

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