Soube o que aconteceu com o Pinochet?
Os mortos não votam. Só os vivos, posto que envenenados.
“Soube o que aconteceu com o Pinochet?”, disse a estudante de antropologia Victoria ao escritor chileno Ariel Dorfman em Berkeley, nos EUA, na madrugada de 17 de outubro de 1998, dia seguinte à prisão do genocida em Londres. É com esta pergunta, ou melhor, com a notícia levada por Victoria que Dorfman abre seu livro sobre o cerco judicial ao general Augusto José Ramón Pinochet Ugarte.
E você? Quase 30 anos depois daquele dia, você soube o que aconteceu com o Pinochet?
Bem, no dia 19 de novembro de 2021, Pinochet foi derrotado nas urnas por um ex-líder estudantil de 35 anos de idade, sustando a ascensão de um exemplar da Internacional Neofascista, José Antônio Kast, ao Palácio La Moneda. Aquela tinha sido a quarta derrota de mi general no Chile num intervalo de três anos, após o estallido social de 2019 contra o neoliberalismo, implementando pela primeira vez, no mundo, no Chile de Pinochet; a decisão plebiscitária de 2020 pelo enterro da Constituição pinochetista; e a eleição em 2021 de uma Assembleia Constituinte progressista.
Parecia que o Chile dava os últimos passos do seu longo adeus a Pinochet — “O longo adeus a Pinochet” é precisamente o nome do livrinho, posto que imenso, no qual Ariel Dorfman narra o dia em que foi acordado em Berkeley pela estudante Victoria com uma notícia para lá de alvissareira.
Naquele 19 de novembro de 2021, dia da eleição de Gabriel Borić no Chile, Ariel Dorfman publicou um artigo no jornal argentino Página/12 dizendo que muito se falava da novidade representada por Borić, mas “a novidade desconcertante”, dizia, alertava, era a de que “um homem das cavernas de direita, que vai contra todos os avanços feitos pelo Chile desde a Independência, chega a ter a possibilidade de obter a maioria dos votos”.
O título do artigo de Dorfman era: “Se os mortos votassem...”
Mas os mortos não votam e em 2022 veio a derrota da primeira proposta de uma nova Constituição chilena, ponto de inflexão para a extrema direta catapultado por uma campanha de fake news da qual participou o mesmo “consultor político” argentino, Fernando Cerimedo, que ajudaria os Bolsonaro e o bolsonarismo militar a envenenar também o Brasil, contra as urnas eletrônicas, naquele mesmo ano, por um triz não resultando em golpe de Estado; em 2023, aniversário de 50 anos do golpe de Estado no Chile, do assassinato de Allende, veio a vitória da extrema direita na eleição para o Conselho Constitucional; e neste domingo, 14, veio a notícia nada alvissareira da vitória do homem das cavernas, Kast, por ampla maioria dos votos, para ocupar o La Moneda a partir de 11 de março de 2026 e até 2030.
São estas as últimas notícias sobre o que aconteceu com o Pinochet. Não votam, os mortos. Só os vivos, posto que envenenados.



