Lula e o general Tomás Paiva (Foto: Ricardo Stuckert).

“Fratura na confiança”: Não foi propriamente uma metáfora médica o termo que Múcio Monteiro usou para justificar a demissão do comandante do Exército Brasileiro no meio de tarde de um sábado, de uma viagem do presidente da República e de uma crise militar mais aguda que se arrasta desde antes da posse de Lula.

Desde que a troca de comando no Exército foi feita dois dias antes da posse do novo governo, com direito a Jair Bolsonaro assinando a nomeação do general Júlio Cesar de Arruda, demitido menos de um mês depois, no supetão de uma tarde de sábado, com direito a Múcio Monteiro aparecendo num púlpito improvisado no Palácio do Planalto, já ao cair da noite, para um pronunciamento a jato – o da “fratura”.

Não foi uma metáfora médica, mas, ao que parece, a fratura é exposta, bem feia, cheia de germes, pela forma como aparentemente se deu a demissão do general Arruda, aparentemente apressada, parecendo precipitada por algum grave acontecimento que não deu a Lula sequer o tempo de esperar passar sua rápida viagem à Argentina e ao Uruguai no início da semana para consumar a troca de comando na Força terrestre.

Uma troca que parecia desenhada pelo menos desde a última quarta-feira, 18, quando o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, ainda comandante do Sudeste, discursou para a tropa falando em respeitar o presidente que saiu das urnas, “mesmo que a gente não goste do resultado”. O discurso o general Tomás, ao que tudo indica, parece ter sido fruto de uma costura para sua nomeação.

O general Tomás, porém, não é só um belo discurso diante das circunstâncias.

Por falar em discurso: em 2014, quando Jair Bolsonaro dirigiu-se, dentro de uma Organização Militar, a uma turma de cadetes para dizer que “nós vamos virar o país à direita em 2018 e muitos vão morrer pelo caminho”, era ele, Tomás, agora general legalista, o comandante da OM – a Academia Militar das Agulhas Negras – que permitiu a ilegalidade.

Festa para um general supostamente legalista? já vimos esse filme, e o filme se chama Eduardo Villas Bôas.

Eduardo Villas Bôas, de quem, aliás, o general Tomás foi chefe de gabinete quando era Villas Bôas o comandante do Exército.

Quando Villas Bôas era comandante do Exército, o antigo “general legalista” entrou de coturno no lawfare contra Lula, ameaçando o Supremo Tribunal Federal na véspera do julgamento que poderia ter colocado Lula já em 2018 na disputa pelo Palácio do Planalto contra aquele que, acobertado por Tomás, prometera brasileiros mortos para virar o Brasil à direita, numa empreitada francamente militar.

Consta que em 2018 o general Tomás foi quem soprou no ouvido do general Villas Bôas as palavras mais contundentes da ameaça feita via Twitter ao STF – a ameaça que pode ter sido decisiva para manter Lula preso e inelegível e que foi um marco da volta dos militares à cena política nacional.

De modo que a cena de Lula apertando a mão do general Tomás para nomeá-lo comandante do Exército seria algo inimaginável. Mas ela aconteceu, e ela não indica outra coisa senão algo grave para um presidente da República diante das Forças Armadas: falta de alternativa.

Fratura exposta, cheia de germes.

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