Com o Brasil em transe por causa dos crimes em série de Jair Bolsonaro – comuns, de responsabilidade e eleitorais -, teremos nas próximas horas, se não dias, uma suspensão do noticiário nacional da mídia corporativa para dedicar atenções à morte da rainha Elizabeth II e, rei posto, à coroação de “Charles III”.

News, as usual.

A última vez que aconteceu foi justamente em outro ano eleitoral, 2018, mas não para um funeral, e sim para um casamento.

No dia 19 de maio de 2018, nos canais noticiosos, um batalhão de comentaristas da mídia brasileira se esmeravam em nos esclarecer sobre os simbolismos do casório transmitido ao vivo entre o príncipe Henry e a atriz-afro-descendente-divorciada-estadunidense Megan Markle. Eram as rosas brancas, prediletas de Diana, escolhidas pela “designer floral” para decorar o castelo de Windsor; era o piercing decorando o nariz da mãe da noiva, sogra da príncipe, etc.

Naquela feita, Pelo menos um simbolismo passou despercebido na cobertura do último, mais recente casamento real na Grã-Bretanha. Foi realmente, com trocadilho, interessante ver o sacerdote casamenteiro mencionar, ao vivo, para o mundo inteiro, que o próprio Jesus de Nazaré participou de pelo menos um casamento ao longo dos seus 33 anos de vida, a famosa “idade de Cristo”, coincidentemente a idade de Harry na ocasião.

Trata-se das famosas bodas de Caná, narradas no evangelho do apóstolo João. Aquelas nas quais Jesus, conforme a “narrativa” bíblica, transformou água em vinho, realizando naquela feita, naquele enlace entre consortes de tempos antanhos – bota antanhos nisso -, o primeiro dos seus milagres na Terra. Esse casamento aconteceu onde hoje, segundo a interpretação arqueológica mais aceita, está a cidade de Ain Qana, na Galileia, território ocupado pelo sionismo na forma jurídica do Estado de Israel.

A menção foi interessante, portanto, porque a forma jurídica precursora do Estado de Israel foi o chamado Mandato Britânico da Palestina, lavrado pela Liga das Nações e resultado do acordo Sykes-Picot, assinado em maio, mês das noivas, de 1916 — um dos tantos tratados de partilha e repartilha do mundo registrados na história da geopolítica, ou seja, a velha política das potências imperialistas.

Entre as responsabilidades e competências da Grã-Bretanha na administração da Palestina, já ocupada, estava “assegurar o estabelecimento do Lar Nacional judaico”.

No ano seguinte, em novembro de 1917, o então secretário britânico das Relações Exteriores, Arthur James Balfour, dirigia ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido, e à Federação Sionista da Grã-Bretanha a chamada “Declaração Balfour”, na qual reafirmava:

“O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional para o Povo Judeu, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo”.

Não sem acrescentar alguma platitude sobre “que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não-judaicas existentes na Palestina”.

Pois sim…

‘Para seguir em frente’

A criação de Israel foi proclamada apenas um dia antes do fim do Mandato Britânico da Palestina, em 14 de maio, sempre o mês das noivas, de 1948 — para o povo palestino, o dia da catástrofe (Nakba, em árabe). Duplamente interessante, portanto, que a menção do sacerdote casamenteiro em 2018 tenha sido feita diante de um Henry Charles Albert David paramentado para seu casório com trajes militares do império britânico.

No mês de novembro do ano anterior à criação de Israel, 1947, casavam-se a rainha Elizabeth e o príncipe Philip da Grécia e Dinamarca. Naqueles mesmíssimos mês e ano a sucessora da Liga das Nações, a ONU, aprovava a “partilha” da Palestina, catástrofe dos palestinos.

Em 1981 casava-se, com “Lady Di”, o príncipe Charles, que até esta quinta-feira, 8, esteve à espera de vagar o trono da Inglaterra.

No mesmo ano, Israel anexava oficialmente as colinas de Golã, tomando da Síria essa área considerada estratégica por causa dos seus fartos recursos hídricos. As colinas de Golã haviam sido ocupadas décadas antes por Israel, na Guerra dos Seis dias, quando o sionismo logrou transformar água em sangue: só em 2014 o Estado de Israel viria a assassinar mais palestinos, ultrapassando a marca de 1.500 corpos, do que naquele ano de 1967.

Aquela semana de 2018 que terminava com mais um casamento da realeza britânica iniciou-se com a chacina de 60 palestinos na Faixa de Gaza pelas “forças de segurança” de Israel.

Naquela altura, dia do casamento, eram 111 palestinos mortos por Israel desde o início da “Grande Marcha do Retorno”, série de protestos palestinos iniciada em 30 de março de 2018 por conta dos 80 anos da criação do Estado sionista. Após a matança daquela semana em Gaza, o então Foreign Secretary britânico, o agora ex-primeiro-ministro Boris Johnson, ecoou à sua maneira o conde Balfour: “Estou profundamente triste com a perda de vidas em Gaza, onde protestos pacíficos estão sendo explorados por extremistas”.

Naquele sábado, 19 de maio de 2018, um dos comentaristas de casórios e funerais feudais da mídia brasileira disse lá pelas tantas, tentando encontrar razão de ser para tanta dedicação da mídia brasileira ao casamento real, quer dizer, feudal: “precisamos de momentos como esse para seguir em frente”…

“precisamos” quem?

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