“São Paulo foi um laboratório para nós”, disse Fernando Parrillo, fundador e presidente da Prevent Senior, em meados de 2017, quando a empresa recebeu da revista Exame o lustroso prêmio de Melhor do Ano no setor de saúde relativo ao ano de 2016.

Parrillo se referia ao fato de que, tendo por duas décadas atuado apenas em São Paulo, sua operadora de planos de saúde com preços “acessíveis” para “adultos+” (idosos, em português) estava, segundo ele, pronta para sair em expansão no vácuo de práxis, por assim dizer, do artigo 196 da Constituição de 1988, aquele – e quem se lembra? E quem se importa? – que prevê a saúde como direito de todos e dever do Estado.

Cinco anos depois, pode ser que Fernando Parrillo ou algum outro mandachuva da Prevent Senior volte a dizer a mesma frase – “São Paulo foi um laboratório para nós” -, agora não à imprensa bajuladora de milionários da “saúde suplementar”, mas diante de um júri, caso alguém da Prevent se declare culpado daquilo que a CPI da Covid-19 acusa e do que a imprensa apurou, e não é hoje, sobre a escandalosa, criminosa atuação da empresa na pandemia.

Segundo informações levantadas pela CPI e pelo repórter Guilherme Balza, da Globo News, a Prevent Senior fez um acordo com o governo Bolsonaro que resultou no uso de “adultos+” como preás de laboratório em São Paulo para ver que bicho que dava usar um coquetel de hidroxicloroquina e azitromicina em pacientes covid.

O resultado foi que nove morreram e, destes, só dois “-adultos” foram relatados às autoridades de saúde por um punhado de ex-residentes do Dr. Mengele mancomunados com o führer do Vivendas da Barra.

‘Solidão’, ‘tempo livre’…

Quando publicou uma apresentação da sua empresa premiada como “Melhor do Ano” de 2016 no setor de saúde, a revista Exame justificou a concessão da honraria não propriamente relatando alguma diferença positiva feita pela Prevent Senior para usuários da “saúde suplementar”.

Na época, a Exame pontuou foi que “a Prevent Senior fechou 2016 com uma carteira de 338 000 clientes e faturou 595 milhões de dólares, valor 18% superior ao de 2015. O lucro líquido, de 58 milhões de dólares, representou um retorno de 51% sobre o patrimônio — a oitava melhor taxa entre as 500 maiores empresas do país e a segunda do setor de Saúde”.

Naquela apresentação, a imprensa de referência em economia e negócios não se abalou – muito menos questionou, e menos ainda cancelou o prêmio – quando Fernando Parrillo saiu-se com esta ao comentar o acúmulo de queixas de usuários do Prevent Senior no site Reclame Aqui:

“São pessoas que, por solidão ou por ter mais tempo livre, fazem contatos frequentes com a operadora mesmo quando não precisam de tratamento médico”.

Saúde é o que interessa?

Na noite de gala das “Melhores e Maiores 2017”, quando a Exame entregou troféus às “empresas que conseguiram ganhar eficiência e se destacar da concorrência em 2016”, a Exame caracterizou aquele ano como “turbulento” e “marcado pela incerteza e pela crise econômica no Brasil”, sem citar o impeachment de Dilma Rousseff, a ascensão de Temer e a instauração da dinastia Ricardo Barros no Ministério da Saúde.

Foi com Temer e Barros que o Brasil deu sinal verde para a expansão de planos de saúde “acessíveis”, em detrimento de investimentos no SUS. “É de livre escolha do consumidor optar pela adesão”, disse Barros, sem pudores, quando ministro.

Pudores: e quem se lembra? E quem se importa?

Foi com Temer e Barros também que se enfraqueceu a assistência farmacêutica enquanto campo de atuação do SUS, com ataques ao programa “Aqui tem Farmácia Popular”, criado no governo Lula. Temer e Barros fecharam 400 farmácias públicas administradas pelo governo federal que atendiam pelo menos 6 milhões de pessoas por ano.

De modo que naquele “Melhores e Maiores” em que a Prevent Senior foi galardoada no quesito saúde, além disso, a grande estrela da noite, a “empresa do ano” de 2016, ano do golpe, foi a Raia Drogasil. Porque saúde é o que interessa e o resto não tem pressa? Não exatamente.

Foi porque a Raia Drogasil havia faturado 3,4 bilhões de dólares, porque suas receitas tinham crescido 36% em dólares e 83% em reais, e porque suas ações empinaram 300% na bolsa de colostomia, ou melhor, de valores.

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