O prefeito da cidade fluminense de São Gonçalo, o ex-policial militar e ex-vereador Nelson Ruas dos Santos, vulgo Capitão Nelson (PL), foi citado no relatório final da CPI das Milícias, em 2008, como chefe de um grupo de 14 milicianos que atuava no bairro gonçalense de Jardim Catarina, vizinho ao Complexo do Salgueiro, onde a PM, via Bope, promoveu uma chacina no ultimo domingo, 21. Pelo menos oito pessoas foram executadas.

Antes de ser eleito vereador pela primeira vez, em 2004, Capitão Nelson comandou por 10 anos uma guarnição de Patrulha Tático Móvel (Patamo, a dos velhos e temidos camburões azul-claros adaptados da Veraneio, Chevrolet) e chefiou a seção P2 (a polícia à paisana e infiltrada) do 7º Batalhão da PM, em São Gonçalo, o mesmo onde era lotado o sargento Leandro Rumbelsperger da Silva, que morreu no último sábado, 20, após ser baleado, segundo a PM, durante uma patrulha de rotina do 7º BPM no Salgueiro.

A morte do sargento Leandro teria motivado uma cruenta “Operação Vingança” do Bope no dia seguinte, no Salgueiro, resultando na chacina.

A CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que foi presidida pelo hoje deputado federal Marcelo Freixo, concluiu que o grupo chefiado por Capitão Nelson cobrava R$ 30 por mês, por casa, pela “segurança” de moradores de Jardim Catarina; R$ 100 por mês para estabelecimentos comerciais; e até R$ 115 por semana para motoristas de van. A TV a cabo custava R$ 60 a instalação R$ 30 a “assinatura”. Além disso, o grupo controlava as máquinas de caça-níquel da região.

O relatório da CPI das Milícias recomendou ao Ministério Público Eleitoral a investigação do perfil de votação de nove políticos do Estado do Rio com ligações com a milícia que haviam conseguido ou renovado mandatos na eleição daquele ano. Capitão Nelson, que acabara de ser reeleito vereador em São Gonçalo, com pouco mais de seis mil votos, encabeçava a lista dos de fora da capital. Apesar da citação e da recomendação, ele nunca chegou a ser indiciado.

Nas eleições 2020, Capitão Nelson suou para chegar ao segundo turno para prefeito de São Gonçalo contra o franco favorito Dimas Gadelha, do PT. Contabilizados os votos, porém, Nelson acabou eleito. Sua vantagem sobre Gadelha foi de menos de 1% dos votos válidos, num segundo turno em que nada menos que 33% dos gonçalenses aptos a participar do pleito não apareceram para votar.

Em São Gonçalo, até os ramos de café e de cana-de-açúcar estampados no brasão municipal sabem que o fator decisivo para a inesperada virada de Capitão Nelson foi um vídeo de apoio ao ex-PM gravado às vésperas do segundo turno por Jair Bolsonaro, num raríssimo caso de Bolsonaro dando a cara, pedindo votos para um candidato a prefeito nas eleições 2020. No vídeo, Bolsonaro diz: “O outro lado é o PT, vocês sabem”.

Eleito, Capitão Nélson apareceu comemorando a vitória nas urnas com o ex-PM gonçalense Fábio Montibelo, que acabara de ser indiciado pelo assassinato em 2006 de Renato Ribeiro Freixo, irmão de Marcelo Freixo.

Um belo espólio

Na imensa cidade proletária de São Gonçalo vivem mais de um milhão de pessoas. A maioria não vive, apenas aguenta. São Gonçalo é o segundo município mais populoso do estado do Rio de Janeiro, e o 16º do Brasil. É também o segundo maior colégio eleitoral fluminense. É também uma das cidades mais evangélicas do país, proporcionalmente. Um belo espólio, portanto.

De modo que, além do flagelo do milicianismo eleitoral, nos últimos anos a população de São Gonçalo vem sendo açoitada também pela intensificação das disputas de território entre o tráfico e as milícias, entre o tráfico e o tráfico, entre milícias e milícias.

Uma das mais recentes chacinas na cidade, que aconteceu no último mês de julho em um bar no bairro de Porto Velho, foi motivada por disputas de taxas de “segurança” pagas a milicianos por comerciantes, como aquelas que, segundo a CPI das Milícias, eram cobradas pelo Capitão Nelson no Jardim Catarina, bairro de mais de 70 mil habitantes.

No Complexo do Salgueiro moram hoje 60 mil pessoas. Só neste ano de 2021 já foram 39 mortos e 24 feridos no local em decorrência de “confrontos” armados. O Salgueiro vem sendo, durante a pandemia, o segundo alvo preferencial de operações policiais em todo o estado do Rio, ficando atrás apenas da favela da Lagoa, em Magé, cidade onde as operações do 34º Batalhão de Polícia Militar contra o tráfico de drogas são diretamente influenciadas por interesses milicianos.

Entre um PM morto em patrulha e a subsequente Operação Vingança do Bope no Salgueiro, talvez haja mais coisas entre uma coisa e outra do que pode imaginar um certo vão entendimento da “dinâmica”, para usar uma palavra da moda, das polícias e bandidos do Rio de Janeiro.

Manchester by the Bozo

Não é demais lembrar que a juíza Patricia Accioly foi assassinada 10 anos atrás logo após ter decretado a prisão de dois policiais do 7º BPM pela execução de um jovem de 18 anos que aconteceu justamente no Complexo do Salgueiro. Na época, um dos responsáveis pela segurança da juíza era precisamente o Capitão Nelson, por quem Bolsonaro saiu da toca para pôr a cara no vídeo um ano atrás, fazendo questão absoluta de fazê-lo prefeito da antiga “Manchester Fluminense”.

São Gonçalo é enorme, mas o mundo é pequeno.

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1 Comentário

  1. Meu deus que análise, essas ligações entre todos esses agentes do caos são de total desesperança num estado mergulhado em sangue e Cristo!

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