Foto: Reprodução/Redes sociais.

Aconteceu na última quinta-feira, 26, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) uma audiência pública sobre a concessão de porte de armas para Colecionadores, Atiradores e Caçadores – os CACs, “categoria” insuflada no discurso e na prática por Jair Bolsonaro, com acirramentos do tipo “um povo armado jamais será escravizado” e “compre um fuzil” e edição de uma série de decretos armamentistas.

A audiência aconteceu no âmbito da tramitação na Alesp do projeto de lei 418/21, que “reconhece o risco da atividade e a efetiva necessidade do porte de armas de fogo ao atirador desportivo”. A intenção é, na prática, permitir que os CACs circulem armados onde e quando bem entenderem, para além do porte de trânsito, entre a residência e o clube de tiro, o que já é permitido em todo o Brasil.

Num auditório lotado de CACs, o clima foi de convenção da estadunidense National Rifle Association (NRA).

Nesta sexta-feira, 27, Donald Trump discursou na convenção anual da NRA, em Houston, Texas, poucos dias depois de um massacre de crianças numa escola texana por um jovem que comprara de véspera não um, mas dois fuzis. Em seu discurso, Trump defendeu, como remédio contra tragédias em escolas, o porte de arma para professores em sala de aula.

Nos discursos na Alesp, tanto quanto a palavra “armas” abundou a palavra “liberdade”. É que “não é sobre armas, é sobre liberdade”. Trata-se do estribilho do Movimento Pró-Armas, grande articulador do PL 418/21 em São Paulo e de outros PLs semelhantes, se não idênticos, que vem sendo apresentados nos últimos meses em praticamente todas as unidades da federação, conforme Come Ananás mostrou em primeira mão em fevereiro.

Em abril, Come Ananás contou como foi a audiência pública sobre o projeto de lei do porte de arma para CACs em Santa Catarina, estado mais bolsonarista do Brasil. Em estados como Goiás, Alagoas, Rondônia e Amazonas, além do Distrito Federal, o porte para CACs já foi aprovado.

‘Ainda’

Voltando a São Paulo, o deputado federal bolsonarista Coronel Tadeu (PL-SP) dirigiu-se assim aos atiradores que compareceram em peso à audiência pública na Alesp, após discorrer sobre as dificuldades que ele e Eduardo Bolsonaro enfrentam para fazer andar as pautas armamentistas no Congresso Nacional:

“Eu peço encarecidamente a todos vocês: se nós queremos liberdade, vamos lutar por essa liberdade. Antes que a gente passe para uma luta mais violenta, vamos lutar no campo político, que ainda é o nosso terreno, ainda é o campo mais limpo e mais sagrado para que a gente possa fazer valer a nossa vontade”.

Depois, Tadeu disse que “o que a gente quer só vai ser conseguido através da política”.

Coronel Tadeu é o mesmo que mandou emoldurar o indulto da graça dado por Jair Bolsonaro a Daniel Silveira. É o mesmo deputado que, no início de maio, defendeu “alguma interferência um pouco mais contundente das Forças Armadas nesse processo eleitoral”, se o TSE não “corrigir falhas”.

A declaração sobre a política “ainda” ser a arena para os CACs fazerem valer sua vontade, dada por Tadeu na audiência pública sobre o porte de arma para CACs em São Paulo, pode ser vista às duas horas e nove minutos do vídeo abaixo.

‘Nosso presidente precisa de vocês’

Durante a audiência, a tribuna do auditório da Alesp ficou coberta com um banner em que o autor do PL, deputado Tenente Nascimento (PSL), aparece empunhando uma arma de grosso calibre.

Da tribuna, Nascimento deu o seguinte diagnóstico da conjuntura armamentista, dirigindo-se aos colecionadores de armas, atiradores e caçadores de javalis:

“A nação precisa de liberdade. Nosso presidente precisa de vocês. Os deputados que aqui estão precisam de vocês. Nós precisamos de vocês”.

Da mesma tribuna, o fundador e presidente do Movimento Pró-Armas, Marcos Pollon, aproveitou para convocar os CACs para o III Encontro Pró-Armas Pela Liberdade, marcado para o dia 9 de julho em Brasília.

Os dois encontros anteriores, em 2020 e 2021, também aconteceram no dia 9 de julho, escolhido por ser a data do início da Revolução Constitucionalista contra Getúlio Vargas.

“E é neste dia – disse Pollon na Alesp – que nós mais uma vez nos levantamos contra déspotas e tiranos que querem escravizar nossa nação. Estamos num momento decisivo em nosso país, onde temos a missão de escolher: continuarmos construindo um país livre ou nos rendermos a uma ditadura nos moldes da Venezuela”.

Jair Bolsonaro e Marcos Pollon na última quarta-feira, 25, no Palácio do Planalto.

No fim da audiência, Marcos Pollon disse que “sem pegar em armas, de forma pacífica e ordeira, levantaremos a nossa voz e vamos trabalhar juntos para construir um país livre”.

Não é sobre lucro…

Há poucos dias, um coordenador estadual do Movimento Pró-Armas afirmou que a entidade já é “o maior movimento armamentista do mundo fora dos EUA”.

Semanas atrás, o clube de tiro Freedom Shooters, de Londrina, Paraná, lançou a promoção “Pátria Armada”: na compra de uma arma na loja do clube, um ano de anuidade grátis no centro de treinamento.

“A gente não está buscando o lucro neste momento. Neste ano decisivo, a gente está buscando trazer para o nosso país a nossa parte de contribuição civil, social, a defesa da nossa pátria”.

O Freedom Shooters vai levar os alunos da sua próxima turma de instrutores de armamento e tiro para uma “formatura simbólica” em Brasília no próximo 9 de julho, durante o III Encontro Pró-Armas Pela Liberdade.

Nesta quinta-feira, 26, o site GGN alertou para um vídeo que circula com forte repercussão no Brasil no qual um certo “combatente Luiz Henrique” conclama à formação de uma “milícia nacional de cidadãos de bem, ordeiros e armados” para ficar de prontidão contra “governos tiranos que queiram instalar no país uma ditadura”.

Em artigo publicado nesta sexta no Valor Econômico, intitulado “O tiro que pode perturbar as eleições”, Maria Cristina Fernandes cita o pesquisador Bruno Langiani, que se debruça sobre clubes de tiro e afirma: 95% dos mais de 700 mil CACs são bolsonaristas fervorosos.

Langiani não acredita que o Movimento Pró-Armas tenha capacidade para organizar ações contra o TSE, STF, eleições, mas lembra que uma fração de CACs radicalizados, e insuflados por Bolsonaro, seria o suficiente para um tremendo estrago.

Direitos divinos

E se Jair Bolsonaro vem dizendo que “só Deus” o tira do cargo, na última quinta, na tribuna da Alesp, o youtuber bolsonarista Paulo Kogos, do canal “Ocidente em Fúria”, classificou o porte de arma como “direito divino”, e o deputado Tenente Nascimento, autor do PL 418/21 e pastor da Assembleia de Deus, deu por encerrada a audiência pública sobre porte de arma para CACs em São Paulo bradando um outro estribilho:

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

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