Damares Alves (Myke Sena/MS).

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, de Damares Alves, lançou nesta terça-feira, 1º, o Plano Nacional de Prevenção Primária do Risco Sexual Precoce e Gravidez de Adolescentes, em parceria com o Ministério da Saúde e outros órgãos do Governo Federal.

No documento, de 49 páginas, não consta uma menção sequer a preservativos, mas há várias a “preservação sexual”, e apenas duas menções laterais ao termo “métodos contraceptivos”. Nem preservativos nem outros métodos contraceptivos são citados no material de campanha – banners, cartazes, vídeo e imagens para redes sociais.

Na prática, a campanha é a insistência, com recursos públicos e a custa das melhores práticas em matéria de direitos sexuais e reprodutivos, de uma velha obsessão de Damares: a abstinência sexual até por volta dos 20 anos de idade – a tal “preservação sexual”. Para Damares, o melhor método contraceptivo é “esperar o grande amor”.

Além de culto à abstinência sexual de adolescentes, o evento de lançamento do plano, de resto, foi um ensandecido festival antiaborto.

O Secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Raphael Câmara, que apresentou as novas cadernetas de saúde do adolescente – agora em duas versões, uma para meninos, outra para meninas (e azul para meninos, rosa para meninas) -, disse que em breve vai sair também um novo manual de atenção ao abortamento, “sem apologia, sem ideologia”, porque o atual, de 2005, tem “uma pegada totalmente contra ao que o nosso governo imagina”.

“Essa pauta da gravidez na adolescência é uma pauta absolutamente importante. Nós temos uma defesa incondicional da vida desde a concepção”, disse Raphael Câmara, que disse também que o ministro Marcelo Queiroga fez questão de enviá-lo com seu representante no evento, por causa da “temática”.

No púlpito, o bolsonarista Raphael Câmara reclamou que a imprensa o chama de “médico pró-abstinência sexual”.

Raphael Câmara, secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde (Foto: Myke Sena/MS).

As aventuras da Capitã Cloroquina contra a ‘erotização precoce’

Foi exibido, na cerimônia, um vídeo institucional de um Curso de Prevenção da Gravidez na Adolescência. O vídeo apresenta um plano de ações “em defesa da vida”, preparadas pelo Ministério da Saúde em parceria com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e o Ministério da Educação.

“[As adolescentes] muitas vezes não contam com o apoio nem da família e nem do pai durante a gravidez e acabam recorrendo ao aborto, tirando a vida de outro ser e colocando a própria vida em risco”.

O curso e as ações estão a cargo da secretária de Gestão no Trabalho e Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, que ficou conhecida como a “Capitã Cloroquina” do Ministério da Saúde.

Não deixa de ser curioso ver Mayra Pinheiro no lançamento de um plano que é também contra a “erotização precoce”. Logo ela, que enxergou um pênis no logo comemorativo dos 120 anos da Fiocruz.

A última da Capitã Cloroquina foi incluir sua participação em atos antidemocráticos em seu currículo Lattes.

Mayra Pinheiro (Foto: Fotos: Myke Sena/MS).

‘Falavam em masturbação em bebê’

Mas o ponto alto do lançamento do Plano Nacional de Prevenção Primária do Risco Sexual Precoce e Gravidez de Adolescentes foi o discurso de Damares Alves, que prometeu mostrar, em outra ocasião, “uma cartilha que foi entregue numa escola para crianças de três anos que na capa eram três homens fazendo sexo. Neste país se erotizava criança com política pública”.

Segundo a ministra, governos anteriores “falavam em masturbação em bebê”.

“No passado, as políticas públicas de gravidez precoce, Mayra – disse Damares, dirigindo-se à Capitã Cloroquina -, era dizer para as crianças que tem camisinha, tem pílula do dia seguinte, tem preservativo, tem anticoncepcional, tem diu”.

Damares Alves disse também que a reativação dos jogos estudantis pelo governo Bolsonaro está integrado com o Plano Nacional de Prevenção Primária do Risco Sexual Precoce e Gravidez de Adolescentes: “para ocupar esses meninos, para esses meninos gastarem muita energia”…

Um Reich para durar 50 anos

Damares Alves também alertou para um “bomba biológica” que estaria sendo formada no Brasil. É que, segundo ela, meninas estão trepando “de oito a 12 vezes” em noites de baile e tomando várias pílulas do dia seguinte por semana.

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos aproveitou a presença de parlamentares na plateia para pedir que “alguns pontos” do plano sem preservativos para prevenção de gravidez na adolescência sejam transformados em lei.

“No dia em que a gente deixar esse governo, daqui a 50 anos, se for lei, outros governos terão a obrigação de executar”.

E, antes de encerrar os trabalhos, Damares deixou um recadinho:

“Ah, papai e mamãe, se acontecer uma gravidez, vida é vida”.

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