Slide da apresentação feita pelo coronel do Exército Marcelo Nogueira de Sousa no Senado, em julho, sobre as "recomendações" dadas pelo Ministério da Defesa ao TSE (Foto: Roque de Sá/Agência Senado).

Fortaleça a imprensa democrática brasileira

O TSE fingiu que não viu, e já quase ninguém lembra – ainda que tenha acontecido há poucas semanas, e que tenha sido muito grave -, mas no dia 30 de setembro, a horas do primeiro turno, o Exército Brasileiro soltou nota oficial exibindo uma tarja de “fake news” no print de uma notícia de que o Alto-Comando da força terrestre havia fechado questão por respeitar o resultado das urnas.

Aquela nota fechou, isto sim, e com chave verde-oliva, a escalada dos ataques pré-votação feitos pelas Forças Armadas, sob a coordenação do Ministério da Defesa, às urnas eletrônicas brasileiras, e feitos via Comissão de Transparência das Eleições (CTE) do TSE e Equipe das Forças Armadas de Fiscalização e Auditoria do Sistema Eletrônico de Votação (EFASEV), credenciada pelo TSE para escarafunchar as urnas.

Ou seja: uma escalada de ataques feitos pelos flancos abertos pelo próprio TSE ao bolsonarismo militar – ao bolsogolpismo.

No mesmo dia em que o Exército divulgou a nota sobre a matéria “Alto-Comando do Exército diz que ‘quem ganhar leva’ a Presidência e se afasta de auditoria dos votos” -dizendo, inacreditável, que “os dados apresentados na matéria” eram “inverídicos e tendenciosos” -, naquele mesmo dia o Ministério da Defesa encaminhou ao TCU resposta a um pedido de esclarecimento feito pelo tribunal sobre como seria exatamente a chamada apuração paralela que os militares fariam dois dias depois, no dia do primeiro turno.

A Defesa anexou à resposta que deu ao TCU no dia 30 um documento chamado Plano de Trabalho da EFASEV. Come Ananás deu em primeiro mão detalhes deste documento. Nele, no planejamento da “fiscalização” das urnas, aparece uma etapa posterior à “validação da base de dados da totalização” (a apuração paralela).

Trata-se da etapa 8. Esta: “realizar a coleta e análise de artefatos relacionados às urnas”, porque “existem oportunidades de análise que podem dar subsídio para identificar anomalias observadas na execução do processo de votação”, com o objetivo de “verificação pós-pleito em busca de anomalias nos dados fornecidos pela Justiça Eleitoral”.

A etapa 8 do Plano de Trabalho da EFASEV foi mencionada pelo Ministério da Defesa em outra resposta oficial, esta dada nesta quarta-feira, 19, ao TSE, quando a Defesa se recusou a apresentar à Justiça Eleitoral, como havia sido determinado, o resultado da auditoria das urnas feita pelos militares no primeiro turno, resultado que, segundo várias órgãos da imprensa de referência, foi apresentado em reservado a um dos candidatos à presidência da República, Jair Bolsonaro, em reunião fora da agenda na sede do ministério.

“Ao término do processo será elaborado um relatório contemplando toda a extensão da atuação das Forças Armadas como entidades fiscalizadoras, com os documentos atinentes às atividades em comento. Tal relatório será encaminhado ao TSE em até 30 dias após o encerramento da etapa 8 do Plano de Trabalho”, disse o Ministério da Defesa ao TSE.

Ainda na resposta ao TSE, o Ministério da Defesa diz que, “devido à atual inexistência de relatório, não procede a informação de que ocorreu entrega do suposto documento a qualquer candidato”.

É a Defesa voltando a recorrer a jogos de palavras para dissimular seus jogos de guerra contra as urnas eletrônicas, apenas horas após a pasta espalhar que não entregaria resultado da auditoria ao TSE porque não fizera auditoria alguma, apenas “fiscalização”. Afinal, quem precisa produzir e timbrar um relatório para conspirar com Bolsonaro a portas fechadas, fora da agenda, contra o que restou da Democracia brasileira?

Tentando acabar com a festa

Por falar em conspiração, o Plano de Trabalho da EFASEV prevê que a etapa 8 vai até o dia 5 de janeiro de 2023. Portanto, as Forças Armadas/Ministério da Defesa não prometeram ao TSE o relatório final, único, da sua auditoria ou fiscalização do sistema eletrônico de votação para até 30 dias após o segundo turno, como quase a totalidade dos veículos de imprensa vem noticiando nas últimas horas, mas sim para até fevereiro do ano que vem.

Para quem se lembra da última, digamos, “perícia” de grande expressão levada a cabo pelas Forças Armadas brasileiras, a terminologia da etapa 8 – “coleta e análise de artefatos relacionados às urnas” – pode causar um certo desconforto. Deve.

A cada dia que passa fica mais claro que, a depender do resultado do segundo turno, os militares em algum momento vão produzir um relatório não de auditoria, nem de fiscalização das urnas, mas de algo mais parecido, isto sim, com o inquérito policial militar de 1981 sobre a bomba no Riocentro.

Ou seja, uma fraude. Uma fraude na manga da farda, para tentar acabar com a festa, no caso de Lula vencer, se Lula conseguir vencer, e se Lula vencer por pouco.

É como disse Gonzaguinha à platéia do show do Dia do Trabalhador de 1981 no Riocentro, sobre as bombas que tinham acabado de estourar no lado de fora, uma delas no colo do sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário: uma tentativa de “acabar com a realização dessa festa que foi – e Lulinha pronuncia pausadamente, com ênfase, a última palavra – conseguida”.

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