Lucas, sua morte pela hidra
A julgar pelo noticiário da Folha e do Estadão, nenhum preto ou quase preto de tão pobre foi executado pela PM de São Paulo no fim de semana, nem há vídeo da execução.
Lucas Almeida de Lima foi executado por um policial militar no último sábado, 15, em Barueri, na Grande São Paulo. Lucas consertava o carro de um amigo ou cliente na beira de uma avenida movimentada e pimba: “atitude suspeita”. Correria, perseguição, socos e joelhada no abdômen de Lucas. Depois, bang, bang: Lucas caído morto no chão. Ele tinha 26 anos de idade.
As imagens da execução de Lucas circulam na internet pelo menos desde a manhã desta segunda-feira, 17. O portal G1, por exemplo, publicou matéria sobre o crime - e publicou o vídeo do flagrante - por volta das 10:30h. Já os dois grandes jornais de São Paulo, Folha e o Estadão…
Ao longo de todo o dia, na capa do seu site, a Folha mostrou que “Janja fica à mesa com amigas na festa de Marta Suplicy” e ensinou “como ter uma boa noite de sono”. Na capa do site da Folha, apareceram ao longo do dia Pedro Malan e Armínio Fraga pontificando sobre economia, trocentos anos depois do governo FHC. Mas nada, nadinha, necas sobre a mais recente vítima fatal das piscadelas dadas pelo governador Tarcísio de Freitas - “podem ir na ONU, na Liga da Justiça” - para a PM de São Paulo matar ao seu bel prazer.
A Folha deu o caso precisamente às 19:01h desta segunda, finalmente. Na capa do site, porém, a chamada/link para matéria ficou acessível depois de muito rolar a barra de rolagem, numa chamadinha secundária, terciária, quaternária - abaixo até de uma resenha do reality show “Largados e pelados” - que dizia o seguinte:
“Homem desarmado morre em Barueri após ser agredido por policiais”.
Pela chamada tardia e recôndita da Folha, parece até que Lucas Almeida de Lima morreu de joelhada no abdômen, em vez de ter sido morto com tiros à queima-roupa por um agente do Estado.
No link para a matéria da Folha que aparece na busca do Google, pior ainda, porque não há sequer a informação de que Lucas morreu: “Homem desarmado é agredido por PMs em Barueri”.
Quanto ao Estadão, a execução de Lucas seguia ignorada até a manhã desta terça-feira, 18 - coerentemente ignorada pelo jornal da “escolha muito difícil” entre e a Democracia e a barbárie.
O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, mantém há 60 semanas fixada no topo da sua conta no Instagram aquilo que numa República que se preze seria produção de prova contra si por incentivo a banho de sangue: “não ouço, não vejo, não leio nenhum especialista em segurança pública se manifestar”.
Nesta terça, a julgar pelas capas da Folha e do Estadão em papel jornal, nenhum preto ou quase preto de tão pobre foi executado pela PM de São Paulo no fim de semana, nem há vídeo da execução. Na capa da Folha, tem até “Geração Z troca calça skinny por oversized”. Na capa Estadão, tem até “a melhor trilha sonora para sua planta”. Em nenhuma das duas há uma palavra sequer sobre Lucas.
Na Folha, de brinde, um editorial afirma que “Bolsonaro teria toda a legitimidade para dedicar-se exclusivamente à política partidária como o maior líder da oposição - com chances ponderáveis de eleger-se de novo presidente - caso tivesse seguido as boas práticas na disputa eleitoral de 2022.”
Quanto às centenas de milhares de brasileiros mortos que poderiam estar vivos se Jair Bolsonaro seguisse as boas práticas da ciência, na pandemia, isso, para a Folha, é só um detalhe menor.
Tipo um tal Lucas.
Após a PM do Rio inflar, e muito, o número de “patriotas” que estiveram com Bolsonaro e Tarcísio na avenida Atlântica, a imprensa paulista ajuda Tarcísio a desengrossar o número de cadáveres produzidos pela PM de São Paulo, varrendo o mais fresco deles para debaixo do tapete verde-amarelo - nunca vermelho! - estendido para a candidatura de Tarcísio ao Palácio do Planalto. Na capa desta terça da Folha não há Lucas morto pela polícia de Tarcísio, mas consta que “Bolsonaristas aprovam tom de Tarcísio em Copacabana”.
O personagem-título de um livro de Julio Cortázar, Um tal Lucas, pergunta-se assim no conto “Lucas, suas lutas contra a hidra”, já sem palavras para contar a batalha: “que cabeça cortar se sempre haverá outra mais autoritária”.
Eita Porra...