'Conservadores libertários': do golpe de Estado ao golpe com memecoin
Postagem golpista? 'Foi a morfina'. Golpe de criptomoeda? 'Fui hackeado'.
Aparentemente apenas imitando Donald Trump, que lançou uma “criptomoeda meme” horas antes de sua posse e já faturou bilhões de dólares, o presidente da Argentina, Javier Milei, usou sua conta no X para promover uma memecoin que serviria para “incentivar o crescimento da economia argentina, financiando pequenas empresas e empreendimentos argentinos”.
A postagem foi feita na última sexta-feira, 14. Houve imediata corrida à compra da criptomoeda divulgada por Milei, a $Libra, mas não demorou nada para o valor da $Libra despencar e virar pó. Estima-se o tamanho do golpe - e é de golpe que se trata - em US$ 107 milhões, prejudicando 175 mil pessoas.
Após a postagem ser apagada, a robozada da extrema direita chegou a fazer circular nas redes sociais que Milei tinha sido hackeado. Mas os personagens por trás da $Libra visitaram a Casa Rosada em janeiro. Todos eles. Um deles seria, na verdade, assessor da presidência argentina.
Eles dizem que criaram a $Libra “em homenagem às ideias libertárias de Javier Milei”. O site para os empreendedores argentinos supostamente se candidatarem ao financiamento pela memecoin $Libra foi criado na mesma sexta-feira, apenas horas antes da postagem de Milei.
Agora, acossado pelo impeachment, Milei diz que “não estava ciente dos detalhes do projeto” e que apagou a postagem “depois de tomar conhecimento dele”.
Claro, o festejado economista “libertário”, aquele que outro dia estava na capa da Economist referido como o líder de um “experimento extraordinário” de liberalismo na Argentina, ele não faz ideia de como funciona a especulação com “criptoativos”.
Claro, o grande “anarcocapitalista” nunca ouvir falar de “rug pull”, a “puxada de tapete” conhecida dos golpistas de todo tipo que consiste em atrair um grande volume de compradores a fim de inflar o valor de uma criptomoeda e, depois, de repente, vender seu próprio estoque, lucrando horrores e fazendo o valor da cripto cair abruptamente a ponto de perder totalmente a liquidez.
Teria mais chance de colar se Javier Milei fizesse como Jair Bolsonaro quando Bolsonaro postou um vídeo com ataques às urnas eletrônicas, dois dias após o 8/1, para depois apagar a postagem e dizer que estava sob efeito de morfina.
E já que agora falamos mesmo de golpistas de todo tipo: na noite do último 23 de janeiro, semanas antes de Milei apresentar a memecoin $Libra no X, apareceu na conta de Jair Bolsonaro no X, com uma foto de Bolsonaro junto com Trump, uma postagem promocional da memecoin $Brazil. Depois, a postagem foi apagada e Carlos Bolsonaro, que tem uma empresa de marketing na internet não declarada à Justiça Eleitoral, disse que a conta do pai tinha sido hackeada.
A memecoin $Brazil tinha sido criada três dias antes, no dia 20 de janeiro, na plataforma de blockchain Solana, a mesma onde depois seria criada a $Libra.
Naquele dia, após a criptomoeda ser anunciada na conta do pastor-deputado Marco Feliciano no X, o valor da $Brazil chegou a disparar 9.900%. Depois, depois que Feliciano apagou a postagem, a “memecoin” derreteu. Num intervalo de meia-hora, milhares de pessoas foram lesadas e alguém lucrou US$ 1,3 milhão.
Marco Feliciano é mais um que teria sido hackeado. Muitos dos que caíram no golpe, porém, acusaram o pastor-deputado de promover um “rug pull”. Um usuário do X postou que Feliciano “deu o golpe no token $BRAZIL e fica aí pregando a palavra de Deus, filho das trevas”. Um outro deixou uma sugestão para um golpe futuro:
“Lança a moeda #deustávendo”.
No dia 1º de fevereiro, Eduardo Bolsonaro deu uma moral, sempre no X, à criptomoeda bolsonarista Patriota Coin.
“Independentemente desse hackeamento do presidente Jair Bolsonaro, as criptomoedas representam liberdade - disse Eduardo Bolsonaro - Minha conta não foi hackeada não. Vamos seguir adiante na defesa da liberdade”.
E o que os “conservadores libertários” vão fazer com essa tal liberdade? O que fazem? O que já fizeram?
Em abril de 2022, Eduardo Bolsonaro lançou um “treinamento para a direita”, “programa de formação política para conservadores”. O nome do curso? “O Caminho da Liberdade”. Naquele mesmo ano, meses depois, em sua declaração de bens à Justiça Eleitoral, Eduardo informou ter em conta bancária “cerca de R$ 600 mil da venda de um treinamento online”.
#deustávendo.