Em meio a pressões pela revelação do salário pago a Sergio Moro pela papa-falências estadunidense Alvarez & Marsal, que faturou R$ 40 milhões no Brasil com a administração de falências causadas pela Lava Jato, a A&M arvorou-se em ofendida, dizendo que “ilações sobre Moro revelam profundo desrespeito e absoluto desconhecimento”.

Devagar com o andor, porque o caso de Moro é um escândalo inconteste e porque há pelo menos um outro caso recente e noticiado sobre vultoso conflito de interesses na empregadora do ex-juiz.

Ben Cairns é sócio-diretor da Alvares & Marsal. É o mesmo cargo que Sergio Moro ocupou na empresa após ser juiz da Lava Jato e ministro da Justiça de Bolsonaro. Em 2020, Cairns foi designado administrador judicial do NMC Health, o maior provedor de saúde dos Emirados Árabes Unidos, que estava em franca expansão global quando foi pego emitindo faturas fictícias e escondendo dos seus investidores nada menos que US$ 4 bilhões em dívidas.

O escândalo, graúdo, teve direito a acusações de que os fraudadores foram acobertados numa auditoria picareta feita por ninguém menos que a Ernst & Young.

Descoberta a fraude, caiu toda a diretoria executiva do NMC Health, e outra assumiu, sob o comando de Michael Davis, primeiro como CEO interino, depois efetivado no cargo. Enquanto a empresa seguiu portanto operacional, mantendo abertos seus hospitais, clinicas e farmácias, Ben Cairns chegou para supervisionar a arrumação financeira da casa, a serviço da Alvarez & Marsal.

Em agosto do ano passado, porém, semanas antes de os credores do NMC Health aprovarem um plano de reestruturação da companhia, apareceram na internet fotos de um animado jantar de comemoração do aniversário de Ben Cairns que reuniu o aniversariante; o CEO da NMC, Michael Davis; a diretora de Recursos Humanos da NMC, Ashley Boots; e mais um sócio-diretor da Alvarez & Marsal, Maxim Frangulov.

Na foto mais fofa, Ben Cairns envolve Michael Davis com um dos braços e, com o outro, faz um gesto aliás conhecido no Brasil, comum em policiais bolsonaristas ou sarados da Smart Fit, o do braço dobrado sobre o tórax e mão fechada, como quem diz “Deus, pátria e família”.

“Fotos de festa levantam temores sobre imparcialidade da Alvarez & Marsal, administradora do NMC”, noticiou, na ocasião, o jornal britânico The Times, a respeito de um sócio-diretor da A&M comemorando seu aniversário de 50 anos deste jeito, como poderíamos dizer… cheio de compliance pra dar.

Desde 2020 a Alvarez & Marsal, de Cairns, já recebeu quase U$$ 100 milhões em honorários da NMC, de Davis.

Pior que tudo isso só se Sergio Moro virasse sócio-diretor de uma papa-falências estadunidense que tem 75% dos seu faturamento no Brasil pagos por empresas falidas pela Lava Jato.

Pior que isso só se Moro fosse recebido na firma e aparecesse em fotos com um outro sócio-diretor da A&M que às vésperas da Lava Jato, antes de pular para a indústria de compliance, treinava juízes e promotores estrangeiros a serviço dos Estados Unidos da América.

Em 2022 será a vez de Sergio Moro completar 50 invernos. Como Ben Cairns, Moro também faz aniversário no mês aziago de agosto. E aí? Vai ter festa?

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