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Neste domingo, 23, quando as redes sociais de Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, já estavam bloqueadas por determinação do STF, o venezuelano Roderick Navarro postou em sua conta no Twitter uma sequencia de vídeos feitos na casa de Roberto Jefferson em Levy Gasparian, no sul fluminense.

Navarro postou desde as imagens da câmera de segurança mostrando a chegada do delegado e da agente da Polícia Federal que ficaram feridos no ataque de Jefferson até uma filmagem do Padre Kelmon dirigindo-se ao portão da propriedade para entregar um fuzil aos policiais.

Já na madrugada desta segunda-feira, 24, também no Twitter, Roderick Navarro reproduziu o bordão armamentista de Jair Bolsonaro, “um povo armado jamais será escravizado”, e depois postou um vídeo de um general venezuelano entrincheirado em casa abraçado a um fuzil e dizendo à imprensa e aos populares que se aglomeravam em seu portão que havia tomado a decisão de não se entregar.

Roderick Navarro é jovem, mas rodado. Ele é uma das figuras mais proeminentes do mais violento antichavismo. Ganhou notoriedade quando o grupo de extrema-direita do qual foi um dos fundadores, o Rumbo Libertad, teve envolvimento, segundo o governo da Venezuela, no ataque ao Forte Paramacay, a 180 quilômetros de Caracas, em agosto 2017, para roubar armas. O assalto ao forte Paramacay aconteceu no âmbito da chamada Operação David, malfadado levante civil-militar contra o governo de Nicolás Maduro.

Radical, ligado às concertações da extrema-direita a nível mundial, o Rumbo Libertad é contra Maduro, mas também contra os partidos e lideranças de oposição a Maduro na Venezuela, como Juan Guaidó, Leopoldo López e Henrique Capriles. Capriles chegou a classificar o grupo como “uma pequena seita extremista”.

Este é Roderick Navarro em um vídeo de julho de 2017, vestindo uma camiseta com o símbolo do Rumbo Libertad e dizendo, à frente e em nome de dezenas de encapuzados, que “nossa urgência não é a mesma dos políticos”:

Logo depois deste vídeo, Roderick Navarro deixou a Venezuela e exilou-se no Brasil. O governo Maduro pediu à Interpol que emitisse uma ordem de captura internacional contra Navarro e mais oito venezuelanos acusados de “atos que atentam contra a estabilidade e a paz da pátria”. A Interpol nunca emitiu a red notice.

Logo após chegar ao Brasil, Roderick Navarro foi convidado para participar de uma reunião extraordinária na Comissão de Relações Exteriores da Câmara sobre a situação na Venezuela. A autora do requerimento foi a então deputada Cristiane Brasil. Recém-chegado, Navarro esteve também com os líderes do MBL.

Em 2018, Roderick Navarro se tornou próximo da família Bolsonaro, tendo mesmo integrado a equipe de colaboradores da campanha do então candidato à presidência Jair Bolsonaro. No dia do segundo turno das eleições daquele ano, dia em que Jair Bolsonaro foi eleito, Navarro e outro membro da Rumbo Libertad exilado no Brasil, Eduardo Bittar, reuniram-se com Eduardo Bolsonaro.

Naquele dia, Navarro postou no Twitter, com a hashtag #EleccionesBrasil, uma ode a Oscar Pérez, que em 2017 comandou um ataque de helicóptero, com tiros e granadas, contra o prédio do Tribunal Supremo de Justiça (o STF venezuelano), em Caracas. Em janeiro de 2018, Oscar Perez e seis dos seus homens foram mortos num cerco policial durante o qual Perez teria tentado se render, em vez de resistir à prisão. O fato é que dois policiais também morreram e outros cinco ficaram feridos. Um dos colaboradores logísticos de Oscar Pérez é ligado ao Rumbo Libertad.

No dia seguinte, 29 de outubro de 2018, Navarro e Bittar visitaram o presidente eleito na Barra da Tijuca. Há informações de que Navarro e Jair Bolsonaro já tinham se reunido muito antes, ainda em 2017.

Este é Eduardo Bolsonaro usando uma camiseta com o símbolo do Rumbo Libertad, em imagem postada por Roderick Navarro no dia do primeiro turno das eleições 2018:

Roderick Navarro e Eduardo Bittar foram convidados para a posse de Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019, e posaram com Flavio Bolsonaro. Pouco depois da posse, o jornal O Globo publicou uma reportagem informando que “Eduardo Bolsonaro teve que conter amigos de grupo radical da oposição venezuelana”, entre eles Roderick Navarro, que se opunham ao reconhecimento, pelo novo governo do Brasil, de Juan Guaidó como “presidente interino” na Venezuela.

Em outubro de 2019, Navarro voltou à Comissão de Relações Exteriores da Câmara, dessa vez a convite do então presidente da comissão, Eduardo Bolsonaro. Naquele dia, Eduardo disse que já tinha viajado à Venezuela “acompanhado do Roderick Navarro”.

Em 2021, Roderick Navarro começou a se aproximar também do integralismo, de Roberto Jefferson, do Padre Kelmon e do PTB refundado por Roberto Jefferson sob bases integralistas. No último 7 de setembro, Navarro foi levado por Cristiane Brasil para discursar num carro de som bolsonarista na Avenida Paulista. Navarro fez parte do staff que acompanhou o Padre Kelmon no debate do dia 24 de setembro no SBT.

No último sábado, 22, véspera dos acontecimento de Levi Gasparian, Navarro estava ao lado do padre Kelmon, do pastor Luiz Claudio Gamonal (vice da candidatura de Kelmon à presidência), de Tarcísio de Freitas e de Jair Bolsonaro num ato de campanha em Guarulhos.

O padre Kelmon e o pastor Gamonal estiveram na ópera-bufa de domingo em Levy Gasparian. Não está claro, apesar da “cobertura” em primeira mão feita por Roderick Navarro no Twitter dos tiros e granadas de Roberto Jefferson, se o agitador e extremista estava in loco também. Sobre o mistério-bufo de Levy Gasparian, ainda há muita coisa a ser esclarecida.

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