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Após a vitória de Lula nas urnas, notórios bolsonaristas correram para apagar vídeos de seus canais no YouTube, por vezes a maioria dos vídeos, tentando, os bolsonaristas, destruir provas de sua colaboração com Jair Bolsonaro para o estraçalhamento do Brasil; provas, inclusive, de eventuais crimes de incitação, de ódio e contra o Estado Democrático de Direito – crimes cometidos à luz do dia e cuja imputação dos responsáveis é condição para o sucesso da empreitada de juntar os caquinhos do país.

Já o deputado federal eleito mais votado no Mato Grosso do Sul, amigo íntimo de Eduardo Bolsonaro e fundador da maior organização armamentista do Brasil, o advogado bolsonarista Marcos Pollon, apagou há poucos dias todos – todos, e eram muitos – os vídeos do seu canal no YouTube.

Pollon, porém, e à moda Jair Bolsonaro, foi dúbio quando deu explicações aos seus 145 mil seguidores no YouTube, dizendo que “os vídeos sumiram todos” e que “isso aconteceu porque o grau de censura que nós estamos vivendo hoje é inédito”, antes de enveredar numa explanação mui duvidosa de que “crimes de opinião são imprescritíveis [não existe crime de opinião no Brasil], diferente dos crimes praticados por Luis Inácio”.

Um dos vídeos mais recentes apagados do canal de Marcos Pollon no YouTube levava o título “Ou ficar a pátria livre…”, com reticências e sem o complemento “ou morrer pelo Brasil”. Pois no vídeo, publicado no dia 1º de novembro, após o primeiro – e tardio – pronunciamento pós-eleitoral de Bolsonaro, Pollon fez precisamente o seguinte aviso, logo no início da transmissão: “prestem muita atenção no que vai ser dito e também no que não vai ser dito”.

No vídeo, publicado no auge dos bloqueios das estradas, Marcos Pollon disse também, e também a título de introdução, que “nós temos duas opções agora: agir com inteligência e continuar mandando a mensagem de forma que dificulte os censores, ou rasgar o verbo e amanhã o canal está derrubado e o mandato – e eu nem fui diplomado ainda – está cassado”.

Veja Marcos Pollon mandando a mensagem em um trecho do vídeo apagado, contando o que respondeu a um pedido de orientação feito por “Talarico” (o empresário Adriano Hilario Talarico Soletti, de Naviraí-MS, onde houve bloqueio da BR-163) após o pronunciamento dúbio de Jair Bolsonaro:

“O presidente deixou bem claro que não reconhece a higidez do processo. ‘Qual processo?’, você pergunta. Ah… o processo do Kafka…”; “as pessoas parece que não querem compreender o que você fala. Você explica, você desenha a explicação, explica o desenho, desenha a explicação do desenho… O que vocês esperam? Uma manifestação expressa de ruptura? Não haverá. Nem da parte do presidente, nem da minha parte, porque isso aí seria um suicídio”.

Pollon e Talarico (Foto: Reprodução/Redes sociais).

Mais à frente, Pollon, ao que parece, lê ao vivo um comentário de um seguidor que acompanhava a transmissão. Este: “na frente do CMO [Comando Militar do Oeste], pessoal do Mato Grosso do Sul. Vamos lá. Vamos juntos”.

No dia seguinte, aconteceu na frente do Comando Militar do Oeste, em Campo Grande, um grande ato antidemocrático pedindo “intervenção federal” contra a vitória eleitoral de Luis Inácio Lula da Silva, como parte de uma ação coordenada – mas dita “espontânea”, “sem liderança”, como teriam sido os bloqueios – a nível nacional que levou multidões para a frente de Organizações Militares em praticamente todos os estados do Brasil.

Manifestações sem tiro e sem obstrução de vias públicas; manifestações que Marcos Pollon chamaria de “pacíficas e ordeiras” – posto que golpistas.

Marcos Pollon, à direita, com Eduardo Bolsonaro o chefe da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques, em 2021.

Um outro vídeo apagado

No dia 25 de agosto, o então candidato Marcos Pollon publicou um vídeo em seu canal no YouTube no qual afirmou que a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de proibir acesso às cabines de votação com telefones celulares foi tomada “pra gente não filmar as atrocidades que provavelmente vão acontecer: você votar em um e aparecer o nome do outro”.

Veja o trecho:

Além disso, no vídeo, Marcos Pollon insinuou ligação de Alexandre de Moraes, a quem chamou de “supremo ditador”, com o PCC.

Este vídeo – este, sim – foi removido por decisão judicial, tomada após Pollon acionar o Come Ananás no TRE do Mato Grosso do Sul pedindo direito de resposta por Come Ananás ter trazido o vídeo à luz.

O TRE-MS não apenas julgou o pedido de Pollon improcedente, mas ainda remeteu os autos do processo à Procuradoria Regional Eleitoral (PRE) para apuração das condutas do então candidato, “diante do possível cometimento de ilícitos eleitorais”, além de determinar a remoção do YouTube do vídeo em que Pollon ataca o sistema brasileiro de votação eletrônica.

À luz do dia, a Noite dos Cristais

Já no Facebook, Marcos Pollon apagou pelo menos uma postagem feita em seu perfil após a eleição. Uma postagem especialmente imprudente, para dizer o mínimo, em se tratando, o autor, da maior liderança armamentista do país. Esta:

É a mesma imagem que dias depois seria, junto com quem a compartilha, objeto de uma reportagem do UOL intitulada “Bolsonaristas usam tática nazista para intimidar eleitores de Lula no RS”:

“O boicote aos comércios e a ideia de marcar as pessoas que votaram no PT é a reprodução da linguagem nazista, que é típica do bolsonarismo”, disse ao UOL o professor Michel Gherman, coordenador do núcleo de estudos judaicos do departamento de sociologia da UFRJ.

“Alemães, defendam-se da perversa propaganda judaica, comprem apenas em lojas alemães”. Propaganda nazista exposta no Museu Judaico de São Paulo (Foto: Julio Piñón).

A diplomação de Marcos Pollon e dos outros deputados federais e estaduais eleitos no Mato Grosso do Sul está marcada para a noite do próximo 19 de dezembro, em Campo Grande.

A cerimônia de diplomação acontecerá mais precisamente no Ondara Palace, que fica a 10 quilômetros do Comando Militar do Oeste e a 10 mil quilômetros de Berlim, onde em um 9 de novembro como este – em 9 de novembro de 1938, também uma quarta-feira – fanáticos nazistas correram as ruas estraçalhando vidraças de negócios de judeus. Noventa e um judeus foram assassinados em toda a Alemanha naquele pogrom que, por causa dos caquinhos, ficou conhecido como a Noite dos Cristais.

Alemanha nazista: judeus obrigados a carregar a estrela de Davi nos pogroms de 1938.

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