Quando Jair Bolsonaro se reuniu com o sheik Mohammed Bin Zayed Al Nahyan, em novembro do ano passado, nos Emirados Árabes Unidos, Eduardo Bolsonaro disse que “mais pareciam bons amigos se revendo”. Conversa pra camelo dormir. É que o fundo Mubadala, controlado pelo sheik, vem fazendo a festa no “novo Brasil”. O sheik, príncipe herdeiro de Abu Dhabi, é quem manda de fato nos Emirados Árabes.

Se MBZ, como o príncipe é conhecido, é quem manda de fato dos Emirados Árabes, é ele também quem está por trás da DarkMatter, empresa de espionagem digital de Abu Dhabi cuja tecnologia vem servindo ao sheik para espionar, hackear, identificar, difamar, caçar e reprimir opositores do regime. Durante aquela visita de Bolsonaro aos Emirados, um membro da comitiva presidencial – e do “gabinete do ódio” – foi atrás precisamente da DarkMatter, conforme revelaram nesta segunda-feira, 17, os repórteres Jamil Chade e Lucas Valença.

Eduardo Bolsonaro já tinha visitado os Emirados Árabes, “a passeio”, um mês antes daquela viagem oficial. Foi quando tirou uma foto vestido de sheik.

Mas voltemos mais ainda no tempo.

Em agosto de 2016, três meses antes da eleição que deu em Trump nos EUA, Donald Trump Jr. recebeu na Trump Tower, em Nova York, três figuras que foram oferecer ajuda, ajuda graúda, para papai vencer a parada: um israelense especialista em manipulação de redes sociais, Joel Zamel, cuja empresa, a Psy Group, esteve envolvida no escândalo da Cambridge Analytica; o fundador da Blackwater e organizador da reunião, Eric Prince, que é um velho habitué dos palácios de Dubai e Abu Dhabi; e George Nader, que foi à Trump Tower na condição de emissário de ninguém menos que o príncipe MBZ, o parça do Bozo.

Aquela reunião selou a integração de Nader primeiro à reta final da campanha e depois ao círculo do governo Trump, incluindo reuniões frequentes com Steve Bannon, de quem, aliás, Eric Prince é sócio na organização We Build The Wall. Este Come Ananás mostrou no ano passado que Prince era representante da “vacina suspeita da família Bolsonaro”. Prince andou intermediando também negócios da DarkMatter. Tem sede em Abu Dhabi a companhia de mercenários Reflex Responses (R2), ligada a Prince.

Aquela reunião de agosto de 2016 marcou, sobretudo, o início do que a Fast Company chamou de “grupo Trump-Emirados”. O príncipe MBZ chegou a se reunir com Bannon em Nova York, em dezembro de 2016, sem que os Emirados Árabes comunicassem ao governo Obama a presença de um mandachuva de um Estado estrangeiro em solo estadunidense.

Depois que Trump foi eleito, Nader, o emissário do príncipe herdeiro dos Emirados Árabes Unidos, pagou R$ 2 milhões de dólares e Joel Zamel. A imprensa dos EUA descobriu que desde antes daquela reunião de agosto de 2016 uma empresa ligada a Zamel estava trabalhando em uma proposta milionária para a campanha de Trump envolvendo o uso de milhares de contas falsas de mídias sociais para impulsionar a candidatura republicana. Também após a eleição de 2016, logo após, MBZ e Nader organizaram uma reunião secreta entre representantes de Trump e de Putin nas ilhas Seychelles.

Tudo isso sobre o “grupo Trump-Emirados” foi fartamente escrutinado nas investigações sobre a interferência russa das eleições dos EUA em 2016. Os Emirados Árabes interferiram pró-Trump movidos a interesses geopolíticos e comerciais, entre eles a vontade de isolar o Catar, rival dos Emirados no Oriente Médio.

Trump e o príncipe MBZ, de Abu Dhabi.

Outro membro do “grupo Trump-Emirados” é Elliot Broidy, ex-presidente de finanças do Comitê Nacional Republicano e figura muito próxima de Trump. No ano passado, empresas do Catar denunciaram que Elliot Broidy e George Nader receberam milhões de dólares dos Emirados Árabes Unidos para arquitetarem uma campanha de difamação contra o Catar. A campanha “anti-catari” contou com trolls e influenciadores da internet e levou mesmo ao fechamento de empresas do Catar nos EUA. Outra empresa de “inteligência cibernética” do “grupo Trump-Emirados” com presença em Abu Dhabi é a Circinus, que é dele, Elliot Broidy.

É neste ninho de difamadores, sabotadores, ladrões de dados e hackeadores de eleições ligados a Trump e Steve Bannon que Carlos Bolsonaro e quem mais do mesmo sangue, e da mesma laia, vão agora buscar armas para as eleições, e não arminhas de fazer com o polegar e o indicador, e sem que as instituições, até agora, tenham se abalado com a grave revelação de dois respeitados repórteres do Brasil.

As usual

Será um longo ano.

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