Cemitério de Manaus (Foto: Valdo Leão).

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Há seis dias as médias móveis da covid-19 no Brasil pararam de cair. Estão em “estabilidade”, depois de semanas em descenso. Nesta terça-feira, 17, a média móvel de mortes foi de 833 por dia, 10% a menos do que 14 dias antes; a de casos diagnosticados, 29.117 (-11%).

Nada, porém, chega a ser suficiente para renovar precauções, nem o comportamento da curva semelhante aos que antecederam picos de mortes, nem o alastramento da variante Delta juntado ao fato de apenas 24% da população brasileira ter completado o ciclo vacinal.

Nesta terça, houve registro de 1.137 brasileiros mortos pela doença para qual os vivos, desde o fim de junho, início de julho, resolveram definitivamente dar de ombros, por mais que a “retomada”, a “volta à normalidade” cada dia mais ostensiva, seja, a rigor, uma espécie de volta dos que não foram.

No estado de São Paulo, caíram as últimas e pífias medidas sanitárias de público e horário ao funcionamento do comércio. Salões de beleza prometem descontos para comemorar o fim das restrições. Já estão liberados também “eventos sociais” e feiras de negócios, “desde que não gerem aglomeração”.

No Rio capital, são para daqui a menos de duas semanas os quatro dias de festa marcados por Eduardo Paes por conta “do fim da pandemia”, com shows nas praias, festival gastronômico, campeonatos de futebol nas “comunidades” e talvez até ponto facultativo para os cariocas brincarem de “celebrar a vida”.

“Vamos celebrar o horror de tudo isso com festa, velório e caixão”, já preconizava Renato Russo.

Nem parece o mesmo prefeito que meses atrás ironizou o governador do estado, Claudio Castro, chamando de “CastroFolia” o superferiado de 10 dias entre março e abril para conter novas variantes, mas com bares abertos até as 23h, decretado pelo Palácio Laranjeiras.

Sobre o governo genocida de Jair Bolsonaro, então, nem se fala.

O Brasil em geral parece algo festivo, satisfeito, desde que a média móvel de mortes por covid-19 no país voltou a ficar abaixo de 2.000 (11 de maio), depois de 1.500 (7 de julho), 1.200 (20 de julho), 1.000 (3 de agosto) e finalmente abaixo de 900 corpos/dia (5 de agosto).

O ponto de corte para a decretação da melhora da pandemia no país parece ter sido na virada de junho para julho, quando a descida da curva desde o pico do primeiro semestre encontrou a vacinação aparentemente começando a surtir algum efeito.

Um Maraca lotado

No último dia de junho, a média móvel de novos casos de covid-19 no Brasil ficou em 55.323, então a menor desde fevereiro. No primeiro dia de julho, a média de mortes foi a mais baixa registrada desde o dia 8 de março, posto que alta: 1.565.

Naquele momento de melhora nos números, epidemiologistas diziam, porém, ver o cenário com “extrema cautela”.

“Embora alguns indicadores importantes estejam regredindo, ainda temos uma taxa de transmissão viral muito alta. Vejo, portanto, com certa reserva essa melhora e acho que ainda não temos motivos para comemorar”, disse Paulo Petry, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ao UOL.

“Essa regressão das estatísticas não significa que podemos relaxar, muito pelo contrário. Deveríamos fazer exatamente o oposto: ampliar o uso de imunizantes, reforçar o distanciamento físico e o uso de máscaras e criar um programa para testar e rastrear contatos”, acrescentou Jones Albuquerque, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Cautela, porém, ainda mais extrema, é coisa que falta mais que vacina.

Naquele 1º de julho, o Brasil contabilizava 520 mil mortos pela covid-19. Nesta terça, o país passou de 570 mil. A diferença, 50 mil mortos em um mês e meio, é a capacidade de público para shows no Maracanã. Um Maraca lotado, de cadáveres, desde que a pandemia “melhorou”.

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