Fortaleça a imprensa democrática brasileira

Da excelente última peça de propaganda eleitoral da campanha democrática, veiculada na noite desta sexta-feira, 28, na TV, salta a previsão do tempo de Luis Inácio Lula da Silva para amanhã: “eu tenho certeza: domingo será um lindo dia”.

Só na manhã deste sábado, 29, assistimos aqui em nossa trincheira ao vídeo da última peça da campanha do PT. Veio imediatamente à memória uma crônica do escritor português Antonio Lobo Antunes, intitulada “Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa”.

“Tão linda a minha cidade com sol, tão lindo o meu país com sol. Vem aí o outono, o inverno, o cin­zento dos dias que desbota para nós. Não me apetece nada o frio, a chuva. Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa”.

Se eu fosse Deus parava o sol sobre o Brasil neste domingo, que – há de vingar – será um lindo dia, ainda que chova.

Tão lindo o meu país – o meu país também – com sol.

Nos últimos dias, muitas pessoas têm nos perguntado como estamos. Estamos tensos, maltratados, cansados, mas estamos firmes e confiantes de que tanta luta e sofrimento – tanta luta, tanto sofrimento nos últimos quatro anos – resultará em que este país irá lograr tirar o verme do poder.

Com a palavra, Lobo Antunes, em “Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa”:

– Como estás tu?

é a pergunta mais difícil de responder do mundo. Na tropa tínha­mos um dentista que era um soldado a quem ensinaram a arrancar dentes. A gente sentava-se numa cadeira de braços, ele pegava num ali­cate, dizia

– Frime-se

e começava a puxar. Estou a vê-lo tirar um molar ao capelão, com o joelho no peito dele porque o molar não vinha. Para o fim chorava o dentista, chorava o padre, secavam as lágrimas, o alicate avançava de novo

– Frime-se meu capelão

o capelão todo agarradinho aos braços da cadeira, o joelho imenso nas costelas, o barulho arrepiante do dente a quebrar-se, a ceder, a sair e o capelão branco como papel cavalinho a cambalear na parada. Nos momentos de desespero ordeno-me

– Frima-te

e começo a puxar o primeiro dente da alma que apanho, de joelho apoiado em mim mesmo. De modo que é o que vou fazer agora, neste final de setembro que tanto me tem custado. Ao princípio escrevi: o que posso fazer, o que devo fazer. Pois bem, devo ordenar-me

– Frima-te

e tirar a minha chuva interior a alicate.

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