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Em outubro do ano passado começaram a ser veiculadas na televisão brasileira duas grandes campanhas de corretoras de criptomoedas. Uma nacional, outra internacional.

Comecemos pela campanha global da Crypto, uma empresa fundada em 2016 em Singapura e que no passado contratou o ator Matt Damon para estrelar um vídeo de promoção do mercado de “criptoativos”. O vídeo seria exibido à exaustão em mais de 20 países, Brasil incluído, até o início de 2022.

No vídeo, Matt Damon caminha resoluto como um Jason Bourne numa espécie de museu high-tech. Ele vai deixando para trás as figuras de um navegador do século XV, um desbravador do Everest, um pioneiro da aviação, astronautas na Nasa, enquanto pontifica sobre mentalidade proativa, comprometimento, não sucumbir às adversidades e outras pérolas do léxico motivacional.

Até que o protagonista do multipremiado “Perdido em Marte”, filme de 2015, chega numa janela de vidro com vista para… Marte, vermelhinho bem ali, ao alcance da força de vontade. É quando Matt Damon encerra a peça dizendo, enquanto entra o logotipo da Crypto, que “desde os romanos a sorte favorece os corajosos”.

Veja o vídeo:

O jornal The Boston Globe publicou neste sábado, 15, uma matéria sobre a irresponsável adesão de celebridades à criptoembromation publicitária e sobre a saraivada de críticas que Matt Damon vem sofrendo nos EUA por sua adesão a este, digamos, multiverso da embustice, escancarado pelo desabamento, especialmente na última semana, da Bitcoin e de suas que tais.

‘Eu sou jornalista’

A campanha nacional é mais chocante. Nela, a anunciante é a corretora carioca Hashdex, fundada em 2018, e o garoto propaganda é Pedro Bial.

O nome da campanha? A Hashdex informa que “não é campanha, é notícia”.

No vídeo, que foi exibido ad nauseam nos mais caros espaços comerciais da TV brasileira, a primeira imagem que aparece é a de Pedro Bial quando jovem, de microfone em punho, cobrindo a queda do Muro de Berlim. Na narração, as primeiras palavras pronunciadas pelo eterno apresentador do BBB e agora vendedor de criptomoedas é: “eu sou jornalista”.

À luz do colapso global do mercado de criptomoedas, vale a pena registrar a íntegra do que o “eu sou jornalista” diz na campanha na Hashdex:

“Eu sou jornalista. Fui testemunha de fatos que mudaram a história, e estou aqui para falar da próxima grande mudança de nossas vidas, criptoativos, e sobre quem cria soluções para todos acessarem esse novo mundo, de forma simples, segura e regulada, a Hashdex, que desenvolveu junto com a Nasdaq o índice referência mundial para investimentos em cripto. Procure seu assessor financeiro. Se eu fosse você, não ficaria só de testemunha. Mais que cripto, é Hashdex.

Seja testemunha. Veja o vídeo:

Na última sexta-feira, 13, os jornalistas a sério Peter Santilli e Corrie Driebusch, do Wall Street Journal, informaram que no mundo todo nada menos que US$ 1 trilhão investidos em criptomoedas viraram pó num intervalo de seis meses.

E agora? Como fica a criptoembromation publicitária do jornalista-celebridade Pedro Bial?

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