Hamilton Mourão (Foto: Bruno Batista /VPR).

Tardiamente, muito tardiamente, só ao ouvir que “os caras já morreram tudo, pô”, seguido de uma risada, o oligopólio da mídia corporativa que opera no Brasil descobre que Hamilton Mourão não é “razoável”, “esclarecido”, “civilizado”.

Eis uma amostra, reunida por um amigo numa rede social:

“Bolsonaro não engole as comparações com seu vice, homem culto, que morou fora, fala línguas, gosta de livros, história e geopolítica. Como não suporta as comparações, Bolsonaro não suporta o próprio Mourão”

Eliane Cantanhêde. “Sem saliva, sem pólvora”. O Estado de S. Paulo, 13/10/2020.

“Embora não se possa dizer que seja sensata uma pessoa que tem como ídolo o coronel Brilhante Ustra, denunciado formalmente como torturador, e aceita a tortura como arma de guerra, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, tem defendido teses razoáveis desde o início do governo. E teve o cuidado de, eleito, não voltar a temas como a tortura ou o autogolpe, que abordou na campanha presidencial”

Merval Pereira. “Política fora dos quartéis”. O Globo, 13/11/2020.

Tardiamente, portanto, por mais que date de 2014, quando Hamilton Mourão encabeçava o Comando Militar do Sul, um certo adendo que o general fez ao texto da ordem do dia alusiva ao Dia do Soldado. Está para fazer aniversário: foi no 28 de abril daquele ano que, após ler a ordem do dia, o “razoável” pôs o papel no bolso e emendou, diante da tropa em Porto Alegre, por sua conta e risco, que o país ainda tinha muitos inimigos internos e “eles que venham!”.

Por mais que, no ano seguinte, impune pelo ano anterior, o “esclarecido” tenha voltado à carga no aniversário do golpe de 1964, inaugurando a sequencia de celebrações do golpe na caserna ao discursar que em 64 os militares impediram que o país caísse “nas mãos da escória moral que, anos depois, o povo brasileiro resolveu por bem colocar no poder”.

Por mais que em 2020, numa entrevista à Deutsche Welle, o “civilizado” já tivesse tripudiado dos torturados pela ditadura ao dizer que seu ídolo, o torturador-mor Carlos Alberto Brilhante Ustra, “era um homem de honra e um homem que respeitava os direitos humanos”, mas emendando, sádico: “de seus subordinados”.

Por mais que, “razoável”, Hamilton Mourão tenha defendido recentemente uma Constituinte formada não pelo voto, mas por “notáveis”; “esclarecido”, tenha sido presidente do antro alucinadamente golpista Clube Militar logo antes de pular para a vice-presidência da República; “civilizado”, tenha lido aos berros, à moda marcial, seu discurso de posse como vice-presidente.

“Milico, tem um bom trânsito com militares e é menos tosco que o Bolsonaro”, disse no ano passado o deputado Wadih Damous em entrevista à TV 247, referindo-se a Mourão e à possibilidade, então vislumbrada pelo deputado petista, de que o vice-presidente pudesse vir a ser o nome buscado pela “terceira via”.

Há o mito, e há o mito do “menos tosco” que o mito.

Que o diga quem acreditou, durante anos, que o general Eduardo Villas-Boas era um legalista. Que o dirá, daqui a algum tempo, quando a realidade bater nova e duramente à porta, quem acredita agora mesmo que são “menos toscos”, por exemplo, os generais Azevedo e Silva e Santos Cruz.

O alto oficialato do Exército de Caxias pode ser “menos pior” que Jair Bolsonaro em vários aspectos, nomeadamente naquele que em Bolsonaro é campeão e que faz dele a desgraça que é para o Brasil: a capacidade de confundir, embaralhar, envenenar o país.

Não são todos a mesma coisa.

Menos toscos, porém, não são. Talvez Mourão, Azevedo e Silva, Santos Cruz e – como esquecer? – Braga Netto não se empanem de farofa nas refeições nem deem expediente de chinelos havaianas. Mas, se há ali algum requinte, digamos, de Iluminismo, Democracia, Civilização, também vai precisar de 35 mil pílulas e R$ 3,5 milhões em prótese para ensaiar aparecer…

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