Braga Netto e comandantes das Forças (Foto: Alexandre Manfrim).

Mais de meio século, precisamente 57 anos, separam as presidências de Ranieri Mazzilli e de Arthur Lira na Câmara dos Deputados. O livros de história do futuro dirão que Mazzilli e Lira presidiram a Câmara em meio a zum-zum-zuns de golpe iminente. Um se consumou e a respeito do outro, autogolpe, não se pode dizer exatamente que está indo muito mal. Os pelos dos gorilas despontam a olhos vistos.

Não obstante, na última terça-feira, 24, Arthur Lira disse em entrevista à GloboNews que não acredita em ruptura institucional: “os militares são conscientes que são protetores da Nação e não de qualquer projeto”.

Os militares foram e têm sido protetores, fiadores e participantes ativos do projeto de Jair Bolsonaro para o Brasil. De fato, não é um projeto qualquer: é um projeto de destruição nacional em todos os níveis, instâncias e raias possíveis e imagináveis.

Inimaginável é, diante disso, presumir que ainda teriam pudores para partir, de novo, para as vias de fato contra a legalidade.

Em artigo publicado no jornal O Globo também na última terça, a coisa de duas semanas do 7 de setembro, Lira bateu no peito acerca de um certo zum-zum-zum: “refuto qualquer possibilidade de aventura contra a democracia”.

Parecia até um seu antecessor tal e qual referido no mesmo O Globo – e, sim, ainda é o mesmo – em edição do dia 17 de março de 1964, portanto a coisa de duas semanas do golpe de 1º de abril: “Mazzilli promete agir para preservar as instituições”; “acha que não há motivo para temores”.

Quando, em 1º de abril de 1964, João Goulart se reuniu no Palácio do Planalto com colaboradores mais próximos, como Darcy Ribeiro e Waldir Pires, para tentar achar maneira de reverter o golpe em curso, quem também estava presente era o general Nicolau Fico, comandante de Brasília. Tranquilizando Jango, Fico garantiu que suas tropas permaneceriam aquarteladas.

Quando Jango decidiu tomar um avião para Porto Alegre, sob a ilusão de organizar de lá a resistência, foi informado que o caminho até o aeroporto já estava tomado por militares. O dia do Fico – nos quartéis -, afinal, era fake. Pudera. Era Dia da Mentira.

“General Fico, o que é isso?”, perguntou o presidente. No que o general respondeu: “é só prevenção. Minhas tropas são legalistas”.

No momento em que Mazzilli tomava posse do cargo de João Goulart, após Auro de Moura Andrade declarar vacância da presidência da República mesmo com Jango em território nacional, o chefe da Casa Civil do governo deposto, Darcy Ribeiro, olhou nos olhos do general Fico e o chamou de “macaco traidor”.

“Estou vendo os pelos crescendo no seu corpo”.

‘Grupos de democratas’

Dias antes, em 21 de março de 1964, a capa d’O Globo informava que:

“Com um caixão, simbolizando o enterro do comunismo, cartazes de repúdio à bolchevização do país, e com a exclamação, a toda hora repetida, ‘Comunismo, não; Brasil, sim’, um grupo de democratas realizou, ontem à noite, a Passeata da Liberdade, saindo a Praça General Osório, em Ipanema, encerrando-a com um comício na Praça Serzedelo Corrêa, em Copacabana. A manifestação foi promovida e realizada pela Ação Vigilante do Brasil, Brigada Nacional Estudantil, Falange Patriótica, Grupo de Ação Patriótica e Vanguarda Democrata do Brasil”.

Aquele “grupo de democratas” que marchou no Rio no dia 20 e havia engrossado a Marcha da Família Com Deus Pela Liberdade em São Paulo, no dia anterior, era, na verdade, uma gama de grupos de extrema-direita diretamente ligados seja a militares da reserva, seja a conhecidos agitadores civis. Quase todos eram ramificações do famigerado Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), ponta de lança da gestação do golpe civil-militar contra o governo João Goulart.

O grupo Ação Vigilante do Brasil, por exemplo, organizava-se em regimentos, no melhor estilo paramilitar, e vendia armas a fazendeiros para que sentassem o dedo “contra a ação de comunistas”. Hoje, mais de meio século depois, esta é uma bandeira do presidente da República.

Outra facção daquele “grupo de democratas”, o Grupo de Ação Patriótica (GAP), era uma verdadeira organização terrorista que agia provocando conflitos de rua sob o comando do almirante Silvio Heck, ex-Ministro da Marinha – um notório golpista que, não obstante, era classificado na época, pela imprensa, como “líder de um movimento de cunho nacionalista”.

Foi naturalizando uma tal “onda nacionalista e conservadora” que em 2016 a imprensa brasileira e autoridades constituídas transigiram com outra ruptura institucional e, em 2018, com Jair Bolsonaro. Hoje, esta imprensa e destacados atores institucionais não participam, batem-se mesmo em notas de repúdios contra a gestação em curso de mais um golpe, que é o que resta a Jair Bolsonaro, se não quiser ver seus filhos e talvez ele próprio acabarem no xadrez.

Do GAP ao CACOE

Salvo ações pontuais contra figuras mais bizarras, insiste-se, porém, em não dar o nome preciso, em não aplicar a firmeza necessária a certos grupos e figuras que açulam o cenário de “intervenção militar com Bolsonaro presidente”, como movimentos pró-armas; facções de caminhoneiros; policiais civis e militares com a mão no coldre pela “liberdade”; evangélicos que se dizem “caveiras de Jesus”; Clube Militar; motoclubes que ostentam em seus coletes de couro a bandeira confederada e o martelo de Thor.

Não existe mais o GAP, mas aí está o um tal CACOE, “grupo de operações especiais” de atiradores desportivos ligado a Bob Jeff, o presidente do partido que foi o de Jango e que hoje, refundado sob motes integralistas, negocia a filiação do presidente sem partido, mas com desembaraço para distribuir e insuflar ultimatos ao Legislativo e ao Judiciário.

Quem entende, porém, que não há motivos para temores de remakes das piores produções do século XX, seria bom ir ao YouTube assistir, neste adiantado do século XXI, a pessoas correndo atrás de um C-17 Globemaster III do USA, estraçalhadas no chão após despencarem da fuselagem com o avião já no ar e um adolescente esmagado quando o copiloto recolhe o trem de pouso. Tudo dias atrás, no bom e velho Afeganistão.

O general Braga Netto disse há poucos dias que neste ano, como no ano passado, não haverá “o tradicional desfile cívico-militar de 7 de setembro em Brasília”, por causa da pandemia. A ver se, com ou sem desfile, as tropas permanecerão aquarteladas no dia do “último recado” do seu “chefe supremo”, daquele se arvora seu dono – “meu exército” -, para os outros poderes da República.

Tendo prometido agir para em qualquer cenário preservar as instituições, Ranieri Mazzilli foi empossado no dia 2 de abril de 1964 como 25º Presidente do Brasil, consolidando um golpe de Estado. Não durou duas semanas no cargo. No dia 15, entregou a cadeira ao general Humberto Castello Branco, voltou ao plenário da Câmara e viu o Parlamento minguar ante cercos de blindados, atos institucionais e cassações.

Não se desenha propriamente um cenário em que Arthur Lira pode assumir a presidência. De resto, a ver se Lira terá algo mais em comum com Mazzilli, além de presidir a Câmara sob zum-zum-zuns golpistas, em matéria de história pra contar.

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1 Comentário

  1. Bolsonaro É PROJETO dos militares! A PSYOP da guerra híbrida é militar, gente. O projeto de subordinação consentida aos EUA é dos militares junto com empresarios nacionais e estrangeiros…

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