Foto: Isac Nóbrega/PR.

Não é novidade, muito menos eleitoral.

Foi bafejando uma mitológica luta do bem contra o mal que Jair Bolsonaro virou, afinal, “mito”, e, enquanto “mito”, deu a maior “mitada” da sua vida sendo eleito presidente da República. Quem poderá esquecer que às vésperas das eleições de 2018 Bolsonaro prometeu primeiro “fuzilar a petralhada” e depois “varrer do mapa os bandidos vermelhos”?

Tudo sob a inércia do TSE. O mesmo TSE que naquelas eleições determinou a suspensão de uma propaganda de TV de Fernando Haddad que trazia o depoimento de uma das vítimas do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador que é o ídolo tanto de Bolsonaro quanto de Hamilton Mourão – da chapa completa que saiu vencedora daquela, da última eleição presidencial.

Quatro anos depois, ainda agora, em meados de fevereiro, o ministro do Supremo Edson Fachin disse assim por ocasião da sua posse como presidente do TSE e por conta das ameaças de Bolsonaro às eleições 2022: “nós tivemos 25 anos de uma ditadura que trouxe consequências nefastas para o Brasil. Ditadura nunca mais”.

Nunca mais? No último fim de semana, no evento do “Filia Brasil” do PL, além de evocar as usual a “luta do bem contra o mal”, e de cacarejar que “uma pesquisa mentirosa publicada mil vezes não fará um presidente da República”, Bolsonaro disse textualmente uma frase que pareceu saída dos escritos de Golbery do Couto e Silva que vivaram cartilha da Doutrina de Segurança Nacional.

“O nosso inimigo não é externo. É interno”, disse Bolsonaro, evocando textualmente uma categoria, por assim dizer, cara à preparação, instalação e perpetuação da ditadura. No mesmo evento, o candidato à reeleição falou em só entregar o poder “bem lá na frente”.

É certo que a biblioteca do TSE tem pelo menos um exemplar do livro “Brasil Nunca Mais”, resultado de uma ampla pesquisa realizada pela sociedade civil sobre a repressão política durante a Ditadura civil-militar.

Na página 67, a título de contextualização dos antecedentes do golpe de 64, lê-se que oficiais do Exército Brasileiro como Castello Branco, primeiro presidente da ditadura, e Golbery foram educados nas escolas de guerra estadunidenses para, no quintal, manter o foco no “inimigo interno”.

Em um livro de cabeceira dos gorilas da ditadura, Golbery escreveu assim:

“Daí um novo dilema – o do Bem-Estar e o da Segurança, apontado por Goering, em dias passados, sob a forma menos justa, mas altamente sugestiva, de seu conhecido slogan ‘Mais canhões, menos manteiga’. E, na verdade, não há como fugir à necessidade de sacrificar o Bem Estar em proveito da Segurança, desde que essa se veja realmente ameaçada. Os povos que se negaram a admiti-lo aprenderam no pó da derrota a lição merecida”.

“Em outras palavras – diz o livro Brasil Nunca Mais -, ameaçada a ‘segurança’, está justificado o sacrifício do Bem Estar que, por extensão, é o sacrifício também da liberdade, das garantias constitucionais, dos direitos da pessoa humana. E Goering se referia aos povos ameaçados por um inimigo externo, enquanto para Golbery o inimigo era interno, devendo ser procurado entre o povo brasileiro”.

Com o preço do café acima de tudo, e o da gasolina acima de todos, dobrar a aposta no “inimigo interno” vem bem a calhar ao maior responsável pela espiral de deterioração das condições de vida das classes trabalhadoras.

‘É o conflito interno’, estúpido

Há exatamente um ano, em meados março de 2021, quando morriam mais de três mil pessoas de covid-19 por dia no Brasil, o Exército Brasileiro pôs nas ruas de três municípios contíguos do Sul Fluminense uma simulação de decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

Na época, em meio a simulações de blitzes e prisões, tiros de festim, exercícios de patrulhamento, estampidos de bombas e rasantes de helicópteros, um major da Aman explicou tudo a um jornal local:

“É um combate simulado num contexto diferente do que estamos acostumados a observar. É um conflito interno, onde o inimigo que os nossos cadetes estarão simulando enfrentar não é um exército regular, e sim forças irregulares que podem ser organizações criminosas, terroristas, insurgentes e narcotraficantes. O cadete vai treinar num combate simulado muito próximo ao que vai se deparar logo depois de formado”.

Meses depois, Bolsonaro chamaria de idiota quem compra feijão em vez de fuzil: “o CAC está podendo comprar fuzil. Tem que todo mundo comprar fuzil, pô”.

“Mais fuzis, menos feijão”, do nazi-friendly Jair Bolsonaro, é o novo “mais canhões, menos manteiga”, do marechal do Terceiro Reich Hermann Goering.

Depois de 2018, ainda há quem acredita mesmo, e mesmo nos setores mais consequentes do campo popular, em uma espécie de validade inconteste, para fins de estratégias político-eleitorais, da célebre lacração “é a economia, estúpido”, criada pelo marqueteiro James Carville para ajudar Bill Clinton e derrotar George Bush em 1992, lá na matriz.

Há ainda quem acredita que, na política em geral, e em processos eleitorais em particular, vale mais o IPCA do que uma boa briga; mais os feijões do que a mobilização de tantas, tantas emoções.

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