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No dia 26 de abril de 2019, lá atrás, Mônica Bergamo e Florestan Fernandes Júnior entrevistaram Luis Inácio Lula da Silva na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, após longa e absurda proibição – por obra e graça de Luis Fux e Dias Toffoli – de acesso da imprensa a Lula em sua longa e absurda prisão política.

Recordo como se fosse neste domingo eleitoral que, naquela entrevista, vendo Lula dizer, quando perguntado sobre como lidava com o isolamento da prisão, que sempre quis morar sozinho – uma tirada para sapatear nas fuças de seus algozes; vendo, comovido, Lula chorar ao contar como chorou sozinho, no cárcere, a morte de um neto de sete anos de idade (“eu às vezes penso que seria tão mais fácil que eu tivesse morrido”, chegou a dizer, entre lágrimas); recordo que, vendo tudo isso, dei impulso na cadeira de rodinhas giratórias, parei na estante dos livros infantis e catei o urso que mora nos canos do prédio.

Abril de 2019: em entrevista na prisão, Lula chora ao falar da morte do neto Artur (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress).

Catei a edição no formato de livro infantil de “O discurso do urso”, um dos microcontos de Julio Cortázar que compõem as “Histórias de cronópios e de famas”. Com belíssimas ilustrações de Emilio Urberuaga, este livro é um dos preferidos do meu filho, e um dos meus preferidos também, entre toda a literatura que já li, para as crianças ou para os homens e mulheres feitos e feitas na vida.

(Falando sobre seu livro “O gato e o escuro”, classificado como infanto-juvenil – e com belíssimas ilustrações de Marilda Castanha -, Mia Couto contesta a distinção que se faz entre livros para os mais jovens e livros para os mais velhos: “não sei se alguém pode fazer livros ‘para’ crianças. Na verdade, ninguém se apresenta como fazedor de livros ‘para’ adultos. O que me encanta no ato da escrita é surpreender tanto a escrita como a língua em estado de infância”).

Não sei se Lula um dia chegou a ler para o seu netinho Artur uma história de antes de dormir. Talvez tenha lido “O discurso do urso”. Talvez tenha lido “O gato e o escuro”, que é um dos preferidos do Huguinho também e que é uma história contra o medo – contra os medos de crianças e adultos fabricados “para matar a vontade de querermos saber o que existe para além do horizonte”.

O caso é que, naquele dia longínquo de 2019, desejei fundo um urso de Cortázar fazendo desde o encanamento do prédio da Polícia Federal em Curitiba um discurso para uma plateia de um homem só, no meio da noite, após descer, o urso vermelho dos canos do cárcere, do banho na caixa d’água salpicada das estrelas de abril:

“Espio a escuridão dos quartos onde vivem esses seres que não podem andar pelos canos, e sinto quase pena ao vê-los tão grandes e desajeitados, ouço como roncam e sonham em voz alta, e como são tão sós. Quando lavam o rosto de manhã, eu lhes acaricio as bochechas, dou-lhes uma lambida no nariz e vou embora, com a leve sensação de ter-lhes feito bem”.

Lembro também que, naquela feita, alguém disse assim no Twitter ou rede que tal sobre o nosso pesadelo ora perto do fim: “e se na verdade o Lula está livre e nós estamos presos aqui fora com a família Bolsonaro?”.

Neste domingo, com Lula livre – livre mesmo, sem teorias da relatividade -, candidato e favorito contra o mais escancarado fascismo, e tudo com quatro anos de retardo, por obra e graça de excelentíssimos canalhas; neste domingo, Lula deve ter se levantado na primeira hora do dia D, lavado o rosto, preparando-se para votar em São Bernardo do Campo, e talvez, só talvez, com as mãos apoiadas na pia, tenha refletido sobre o tempo nos termos de alguma paráfrase da “Oração ao tempo” de Caetano Veloso:

“És um senhor tão bonito quanto a cara do meu neto”.

Que neste domingo o povo brasileiro seja um bom compositor do seu destino e, elegendo outra vez Luis Inácio Lula da Silva, escorraçando Jair Messias Bolsonaro, estabeleça um outro nível de vínculo com os filhos e netos desta terra, com o seu tempo, com o seu país.

O Brasil merece essa lambidinha no nariz.

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