Jair Bolsonaro (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil).

No mandato de Jair Bolsonaro, principalmente na primeira metade dele, setores do campo democrático brasileiro apostaram na estratégia de “deixar Bolsonaro sangrar” – politicamente – até as eleições de 2022, em vez de engrossar movimentos pelo impeachment de Bolsonaro, para o qual não faltavam motivos. Em 2022, com Bolsonaro supostamente anêmico, as eleições estariam no papo.

No meio do caminho, vieram as múltiplas catástrofes – de saúde pública, ambiental, ianomâmi. Os aparatos militar e policial do Estado foram mobilizados para a tentativa de um golpe de Estado. O Brasil foi transformado em uma sucursal do inferno.

No segundo turno de 2022, Bolsonaro teve 400 mil votos a mais do que no segundo turno de 2018. Lula venceu por menos de dois pontos percentuais. Há quem diga que seria menos, se é que seria, se Carla Zambelli não tivesse quase feito sangrar um homem preto nas ruas de São Paulo, na véspera da eleição.

Nesta segunda-feira, 21, enquanto na bolha democrática abundam memes como aquele que o sujeito se recusa a pregar o olho para uma noite de sono porque tem medo de perder o momento em que Bolsonaro será posto no xadrez, a repórter Malu Gaspar dá conta, n’O Globo, que o roteiro desenhado pela Polícia Federal e pelo Supremo, na verdade, é “deixar Bolsonaro sangrar antes de pedir prisão”.

“Se depender dos investigadores, Bolsonaro ainda vai ‘sangrar’ politicamente por bastante tempo, por algumas razões”, diz Malu Gaspar.

Uma das razões é esperar Augusto Aras deixar a Procuradoria Geral da República. Que Aras seja cotado para permanecer na PGR, isto parece ser mero detalhe no “roteiro desenhado”.

Parece que lá vamos nós “deixar Bolsonaro sangrar” outra vez, por mais que sobrem motivos para a prisão de Jair Bolsonaro, para que não atrapalhe as investigações de seus múltiplos crimes – por exemplo, mandando recomprar joias na Pensilvânia ou, quem sabe, ameaçando o advogado de Mauro Cid, após o advogado de Cid dizer na imprensa que o ex-ajudante de ordens iria reconhecer que… ora, recebeu ordens.

Ou para que não fuja, a besta-fera, talvez junto com alguns generais.

Em um conto de Nélida Piñon, os habitantes de uma aldeia relutam em ceder à vontade de conhecer os segredos guardados no reino do inferno, “fronteira natural” das suas terras, onde alguns dos aldeões estiveram e voltaram com uma expressão que “não correspondia ao que se aguardava de um homem”. Quando finalmente põem-se em marcha, juntos, movidos pela vontade de saber, esbarram na porta fechada.

“E ninguém ali presente para explicar-lhes por que deveriam desistir do inferno, agora que toda aquela raça decidira nele instalar-se para sempre. Apenas descobriram uma pequena inscrição na porta, cujo texto leram minuciosos. Não havia muito a concluir depois. Comunicava-se simplesmente a transferência de local. E nada se dizia sobre seu novo destino”.

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