General Valério Stumpf Trindade.

Na última quarta-feira, 19, institutos privados ligados a oficiais da reserva do Exército lançaram o documento “Projeto de Nação – O Brasil em 2035”, que prevê vencer um sem número de “óbices” a diretrizes para o Brasil traçadas nos círculos militares, entre eles o “poder midiático e eleitoral do discurso globalista” e “a doutrinação facciosa efetuada por professores”.

O rascunho do documento começa destacando que entre 1964 e 1984, período da ditadura, “houve projeto de nação”:

Um relato sobre a cerimônia de apresentação do “Projeto de Nação”, que contou com a presença do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, foi publicado nesta segunda-feira, 23, pelo jornal O Estado de S.Paulo, feito pelo repórter Marcelo Godoy.

Articulado pelos generais da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, ex-dirigente do grupo Terrorismo Nunca Mais (Ternuma), ligado ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, e Eduardo Villas Bôas, a quem Bolsonaro atribui sua chegada ao Palácio do Planalto, o projeto de ditadura reloaded tem também, no entanto, o dedo de militares da ativa.

Em julho do ano passado o Intercept Brasil já chamava atenção para a urdidura do “Projeto de Nação”, identificando como um de seus operadores o general da ativa Valério Stumpf Trindade, então comandante militar do Sul. Na época, o general Stumpf foi o responsável por fazer circular, por e-mail, um questionário preparatório para o documento, visando “o sucesso do Projeto Nação”.

Por ordem do general Stumpf, o link da “Pesquisa de Opinião Sobre o Projeto Nação” foi enviado pelo então chefe do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE) do Comando Militar do Sul, coronel Antonio Augusto Brisolla de Moura, que usou o endereço eletrônico do NEE para disparar o questionário e disponibilizou o telefone do órgão para “mais esclarecimentos” sobre “a Grande Estratégia Brasileira”.

O general Valério Stumpf Trindade foi secretário-executivo do general Sergio Etchegoyen no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, no governo Michel Temer. No último dia 5 de maio, há menos de um mês, Stumpf assumiu o comando do Estado-Maior do Exército.

Outra figura que participou da elaboração do “Projeto de Nação – O Brasil em 2035” é o empresário e presidente do Instituto Federalista Thomas Korontai. No site do instituto, Korontai é apresentado como “autor do ensaio de uma nova constituição brasileira” com “reconhecida atuação por sua defesa à transparência eleitoral”.

O e-mail com a “Pesquisa de Opinião Sobre o Projeto Nação” foi disparado do Comando Militar do Sul em meados de julho DE 2021. Poucos dias depois, em 4 de agosto, Bolsonaro divulgou nas redes sociais a íntegra de um inquérito da Polícia Federal que apurava um suposto ataque cibernético ao TSE em 2018.

Um dos temas abordados no “Projeto Nação” é a “Defesa Cibernética do Brasil”. Neste tópico, o documento diz que “a história recente mostrou essa ameaça real e potencial em experiências de atores estatais e não estatais, internos e internacionais, inclusive o Brasil, uma das vítimas em passado recente”.

Também participaram da elaboração do “Projeto Nação – O Brasil em 2035”, como membros de um “comitê revisor”, pelo menos dois ex-altos funcionários do governo Bolsonaro: o olavista Ricardo Velez Rodrigues, ex-ministro da Educação, e o general Maynard Santa Rosa, que foi secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

Quando deixou o governo, ainda em 2019, por atritos com o então ministro da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, o general Santa Rosa classificou Bolsonaro como “honesto”, “idealista”, mas reclamou que ministérios comandados por civis estariam dificultando os projetos da Secretaria de Assuntos Estratégicos, o que, segundo ele, enfraquecia um pouco “aquela esperança do estamento militar na recuperação do país”.

Segundo o general, faltava “planejamento”.

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