No dia 30 de março do ano passado, véspera de mais um aniversário do golpe civil-militar de 1964, pela primeira na história deste país os comandantes das três Forças Armadas apresentaram suas renúncias aos respectivos cargos de terra, mar e ar, em protesto contra a demissão, no dia anterior, do general Fernando Azevedo e Silva do ministério da Defesa, e por não aceitarem participação em nenhuma aventura golpista.

Irritado, o substituto de Azevedo e Silva, general Walter Braga Netto, antecipou-se e anunciou que estariam demitidos por ordem de Jair Bolsonaro o general Edson Leal Pujol (Exército), o almirante Ilques Barbosa (Marinha) e o brigadeiro do ar Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica).

Braga Netto é hoje vice numa chapa eleitoral que não quer saber de eleições – quer saber de golpe; convidado por Luis Roberto Barroso, Azevedo e Silva seria diretor-geral do TSE durante as eleições 2022, mas desistiu do cargo às vésperas de assumi-lo, citando problemas no coração – e omitindo outros males de mais difícil diagnóstico; sobre os chefes militares que assumiram o Exército, a Marinha e a Aeronáutica em substituição aos chefes militares que recusaram aventura golpista, disse a professora Sylvia Moretzsohn nesta quinta-feira, 21, em postagem no Facebook:

Desde que a Folha chamou a atenção para a ausência dos chefes militares na reunião de Bolsonaro com os embaixadores, tenho visto manifestações de alívio e confiança no processo eleitoral, pois aquela ausência seria uma forma sutil de indicar o desagrado da cúpula militar com o que aconteceria naquele dia, e consequentemente o isolamento de Bolsonaro nos seus intuitos golpistas, por isso mesmo inviáveis.

Penso exatamente o contrário: que é manobra diversionista para justamente estimular esse tipo de interpretação, apaziguar os ânimos e nos deixar de guarda ainda mais baixa para o que se está tramando.

Para que não digam que é paranoia de gente perturbada por teorias conspiratórias, a gata escaldada aqui relaciona basicamente dois motivos importantes.

O primeiro é que um crime dessa gravidade não poderia ter apenas o silêncio como resposta, a indicar a falta de apoio. A reação correta seria entregar o cargo, como demonstração explícita da rejeição a um crime de lesa-pátria (coisa a que os militares costumam ser muito sensíveis, quando interessa). Entretanto, nem eles nem qualquer membro do governo abandonou o barco, mesmo diante desse escândalo, que é maior do que os demais porque se trata de uma afronta do presidente da República às instituições de seu próprio país diante de representantes estrangeiros. (Bolsonaro cansou de fazer essa afronta, mas até então ficava no nível doméstico, por assim dizer).

Além disso, bastaria pensar em episódios anteriores de juras de fidelidade, alguns muito recentes, outros já dos primórdios do outro golpe. Por exemplo, a postura aparentemente crítica do general Paulo Sérgio, relatada em matéria da Folha de maio. Não precisamos dizer como o general vem se comportando depois disso.

Ou, como anotou o Hugo Souza no Come Ananás, a reiteração do comandante da Marinha na “profissão de fé do autogolpe bolsonarista”.

Mas, talvez mais importante, valeria a pena recordar o que ocorreu entre a véspera e o dia do golpe de 64.

Reproduzo aqui trechos de artigo recente do Roberto Amaral:

“O presidente [Jango], sem rodeios, perguntou-lhe asperamente: ‘O que há de verdade na sublevação do general Mourão Filho?’ E o interrogado [o chefe da Casa Militar, Assis Brasil], com absoluta calma: ‘Tudo fantasia, presidente. Trata-se de uma marcha de rotina, como é de hábito no exército.’ O presidente Goulart insistiu: ‘Nada demais?’ E o chefe da Casa militar: ‘Nada além disso.’ O presidente João Goulart voltou ao telefone: ‘Tu ouviste, Artur [Virgílio Filho, líder do PTB no Senado]? Pois é essa a verdade!’” (Este diálogo está no precioso livro 1964 na visão do ministro do trabalho de João Goulart, Almino Affonso. Ed. Fundap-Imprensa Oficial do Estado de São Paulo)”.

E também, como lembrou um amigo, um trecho do livro do João Vicente Goulart, sobre o que ocorreu no dia fatídico:

Quando Jango decidiu embarcar para o Rio Grande do Sul, foi informado que o caminho até o aeroporto já estava sendo tomado. “General Fico [comandante da guarnição militar de Brasília], o senhor garantiu a permanência das tropas dentro dos quartéis. O que é isso?”, indignou-se Jango, no que o general respondeu: “É só prevenção, presidente. Sob meu comando, meus soldados são legalistas”.

Penso que são elementos suficientes para, no mínimo, ir um pouco devagar com esse andor e não embarcar no que pode ser mais um artifício entre os muitos idênticos já utilizados nesse jogo de dissimulação.

Um adendo: os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica não são “convidados” por aquele que a todo momento faz absoluta questão de se reafirmar chefe das Forças Armadas. Convite, Jair Bolsonaro enviou a Luiz Fux e Edson Fachin, que devidamente recusaram participar da anunciação de golpe à comunidade internacional. Os chefes das Forças, se foram, foram convocados. Se convocados foram, e não apareceram, desobedeceram ao seu chefe, que não costuma deixar infidelidades desta ordem passarem em branco.

Disse João Goulart, acreditando no general Assis Brasil: “tu ouviste, Artur. Pois é essa a verdade!”

Pois não era.

‘Mea culpa’

Em meio a tudo isso, o Painel, da Folha, talvez a principal coluna de bastidores da política do Brasil, dá conta de que em conversas de um interlocutor de Lula com os militares “é feito um mea culpa do período da ex-presidente Dilma Rousseff, quando a relação [com os militares] desandou, especialmente após a criação da Comissão da Verdade”.

Esperamos todos, aí sim, que isto não tenha um pingo de veracidade.

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