Ministro da Defesa, general Paulo Sergio Nogueira de Oliveira, em reunião com oficiais do Exército (Foto: Ministério da Defesa).

Há três anos, em 2019, uma grande ofensiva contra o garimpo ilegal no Vale do Javari, onde o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista Dom Philips desapareceram, teve que ser mais de uma vez adiada devido a recusas de última hora do Exército em participar com tropas e equipamentos, após os militares passarem meses integrando a equipe de planejamento da operação.

Quem também participou da equipe de planejamento daquela operação, batizada de Operação Korubo, foi o próprio Bruno, então coordenador-geral de índios isolados da Funai.

Mesmo sem o Exército, a operação, deflagrada em meados de setembro daquele ano, causou um prejuízo de R$ 30 milhões aos financiadores do garimpo ilegal na Amazônia. Menos de um mês após a Korubo, no dia 4 de outubro de 2019, Bruno Araújo Pereira foi exonerado da coordenadoria de índios isolados pelo então secretário-executivo de Sérgio Moro no Ministério da Justiça, Luiz Pontel.

A história do boicote do Exército à Operação Korubo foi contada na época pela Agência Pública. Bruno não chegou a ser citado na reportagem.

“Três dias depois de a Operação Korubo ter sido deflagrada – informou a Pública -, um grupo de parlamentares e representantes de garimpeiros da região amazônica foi recebido no Palácio do Planalto pelo ministro [da Casa Civil] Onyx Lorenzoni”.

‘A porra da árvore’

Mais alguns dias depois, em 1º de outubro de 2019 – três dias antes da exoneração de Bruno Araújo Pereira -, Bolsonaro discursou para garimpeiros em Brasília e disse assim sobre os apelos internacionais pela preservação da Amazônia: “O interesse na Amazônia não é no índio nem na porra da árvore, é no minério”.

E disse assim sobre proteger o garimpo de indigenistas e jornalistas: “vocês foram felizes no tempo do Figueiredo. A legislação era outra e eu tenho de cumprir a lei. Por isso que eu digo a vocês: se tiver amparo legal, eu boto as Forças Armadas lá”.

Documentos aos quais a Pública teve acesso naquela ocasião mostravam que o Comando Militar do Norte também vinha se recusando a empregar tropas em ações contra o garimpo – no Pará. Na época, o comandante militar do Norte era o general Paulo Sergio Noronha, hoje ministro da Defesa de Jair Bolsonaro – o “Escalão Superior”.

Black Hawk e Hamilton Mourão

Um episódio em particular envolvendo a Operação Korubo ecoa agora especialmente ignóbil, à luz do desaparecimento de Bruno Araújo Pereira e Dom Phillips na mesma região e da nota do Comando Militar da Amazônia participando a sociedade brasileira de que, mais de 24 horas após Bruno e Dom sumirem, o comando não havia saído em busca e salvamento por falta de “acionamento por parte do Escalão Superior”.

É um episódio que também faz soar duplamente sórdida declarações sobre Bruno e Dom como esta dada nesta segunda-feira, 13, pelo vice-presidente Hamilton Mourão: “as duas pessoas entraram em uma área que é perigosa sem pedir uma escolta”.

O episódio é este, contando naquela reportagem da Agência Pública:

Em dado momento, para deflagrar a operação, a Funai, o Ibama e a Polícia Federal esperavam contar com um helicóptero Black Hawk do Exército para “infiltração e exfiltração de agentes e embarcações” nas áreas de garimpo ilegal. Na hora agá, porém, o Comando Militar da Amazônia refugou, talvez por “acionamento por parte do Escalão Superior”, e ofereceu apenas deixar os agentes na selva.

A oferta foi recusada e a operação foi adiada. Não é possível cravar que Bruno Araújo Pereira teria embarcado naquele Black Hawk. É possível supor que sim, como represente da Funai numa operação próxima a índios isolados. Levando em conta que sim, aquela foi a primeira vez que o Exército Brasileiro, via Comando Militar da Amazônia, quis fazer esta “maldade” com o Bruno: largá-lo na selva.

Não seria a última.

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