Há poucos dias, o jornal O Estado de S.Paulo publicou um editorial intitulado “A estupidez e suas consequências“. É claro que o editorial é sobre Jair Bolsonaro, sobre “tem que todo mundo comprar fuzil, pô”, sobre “Jair Bolsonaro sendo Jair Bolsonaro”. Nem parece o mesmo jornal que há três anos dizia ser difícil escolher entre Bolsonaro e Fernando Haddad, em outro editorial, mais famoso.

Mas é. É o mesmo Estadão também que em maio de 2016, com o golpe em curso, estampou em capa uma foto na qual Dilma Rousseff parecia ser consumida pelo fogo – da tocha olímpica -, sob manchete dando conta de que a Procuradoria-Geral da República havia denunciado Lula na Lava Jato e pedido investigação contra a então presidenta da República.

Só faltou pôr também em letras garrafais: “tchau, querida”. Quem sabe “CPF cancelado”. Ou talvez, que de fogo se tratava, “experimentando o colo de Satanás”, expressão que costuma ser usada pelo líder do movimento pró-armas, o bolsonarista Marcos Pollon, para se referir a quem vira pó, cinzas, nas mãos das polícias deste país.

Eis “a estupidez e suas consequências”, de modo que este poderia ser também o título de um contundente mea culpa coletivo da imprensa brasileira dita de referência.

Vai sonhando…

Quem lembra do uso que esta imprensa fez da foto de Dilma sob a mira de um canhão no desfile cívico-militar de um 7 de setembro passado, em 2014, ano em que o então deputado Jair Bolsonaro prometeu na Academia Militar das Agulhas Negras que “alguns vão morrer pelo caminho, mas em 2018 eu estou disposto a jogar pra direita este país”.

Anos antes, em 2011, a mídia corporativa fez a festa também com uma foto de Dilma sendo “espetada” com um espadim de Caxias numa solenidade na mesma Aman – a Aman que regurgitou para o Brasil, além de Jair Messias, Eduardo Pazuello, Braga Netto, Augusto Heleno, etc.

A foto, feita pelo fotógrafo Wilton de Sousa Júnior, foi publicada no Estadão no dia 21 de agosto daquele ano e, dias depois, foi escolhida imagem da semana da revista Veja. Em janeiro do ano seguinte, a foto ganhou o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha.

“Ao se desrespeitar reiteradamente eventuais ocupantes de altos cargos públicos, inclusive em fotos com insinuações inconfessáveis, esse desrespeito é transferido para as instituições e a credibilidade da própria democracia”, escreveu Venício A. de Lima no Observatório da Imprensa sobre aquela grande “sacada” fotojornalística, a de Dilma sob a mira de um tanque, do 7 de setembro de 2014.

Dilma ardendo na fogueira. Dilma na mira de um canhão. Dilma atravessa por uma espada. Lula à moda Kadafi, justiçado pelas horas. “Lula deve morrer”.

Diante do que consta nestes “autos” – de fé -, quem poderia imaginar, não é mesmo, que o Brasil chegaria ao feriado da Independência de 2021 agora não mais com veladas sugestões, insinuações inconfessáveis, de partir logo para as vias de fato contra a esquerda, mas sim sob escancaradas ameaças de golpe da parte de um governo militarizado e respaldado por milícias de atiradores civis autorizados a transitarem de norte a sul do país com armas de fogo municiadas, carregadas para pronto uso?

Milícias crentes da Silva que “Alexandre de Moraes tem sido um ativista defensor da implantação do socialismo no Brasil”.

Quem poderia imaginar que, às vésperas do 7 de setembro, o filho do meio do presidente da República faria as vezes, ao mesmo tempo, de embaixador do seu pai junto a clubes de atiradores que se espalham pelo país sem o estande de tiro número 13 e de patrono de escolas-cívico militares inauguradas “para derrotar a esquerda“?

Como isto foi possível?

Bem… foi mais ou menos assim.

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