Ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, em audiência no Senado (Foto: Roque de Sá/Agência Senado).

Fortaleça a imprensa democrática brasileira

Tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado da República vêm servindo não exatamente como barreira ao perigo real e imediato – e fartamente anunciado – de um autogolpe de Jair Bolsonaro sob o pretexto da “vulnerabilidade” das urnas eletrônicas. Ao contrário: nos últimos dias, parlamentares bolsogolpistas vêm fazendo o Congresso Nacional de palco para montagens canhestras, por militares da ativa, de “autos das urnas do inferno”.

No último 6 de julho, na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, o ministro da Defesa, general da ativa Paulo Sergio Nogueira, chegou ao ponto de apresentar um episódio de clonagem do seu próprio cartão de crédito como evidência de que a urna eletrônica não é “imune a ataques”.

“Tem os bancos que gastam milhões com segurança e eu tive meu cartão clonado há três semanas. A minha esposa, no ano passado”, disse.

No mesmo dia, na mesma audiência, o comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, foi pelo mesmo caminho ao reafirmar – “das minhas declarações não tiro nem uma dúvida” – o que dissera numa entrevista em maio. Isto:

“Eu quero que os brasileiros tenham certeza de que o voto deles vai valer, de que quem eles colocarem na urna vai ser contado e quem eles escolherem de uma forma limpa, transparente, como demanda a Constituição Federal e as leis nacionais, será validado. Não quero ver o meu povo brigando entre si por dúvidas. Então, quanto mais transparência, quanto mais auditoria, melhor para o Brasil, porque nós teremos muito mais certeza do resultado e toda a vida nacional seguirá com mais calma”.

‘Eu acho apenas muito estranho que nesta casa alguém questione’

Confrontado com críticas como a da deputada Perpétua Almeida (PCdoB/AC), que na mesma audiência disse não muito mais que o óbvio, ou seja, que “o poder civil não pode aceitar isso. Não cabe às Forças Armadas brasileiras ficar debatendo urnas eletrônicas”, o almirante aprumou os canhões: “eu acho apenas muito estranho, minhas senhoras e meus senhores, que nesta casa alguém questione uma declaração que faz referência ao cumprimento das normas e da legalidade institucional”.

‘Como eu aprendi com o amigo’

O requerimento para a audiência do dia 6 de julho na Câmara foi apresentado por um deputado do PSDB de Alagoas, Pedro Vilela, que em agosto do ano passado votou a favor da PEC do Voto Impresso.

Nesta quinta-feira, 14, por requerimento do senador bolsonarista Eduardo Girão (Podemos-CE), aconteceu na Comissão de Fiscalização do Senado uma audiência extraordinária para “debater as recomendações dadas pelo Ministério da Defesa ao TSE para o aprimoramento do processo eleitoral”; para “tomarmos ciência detalhadamente sobre as sugestões que foram oferecidas pelas forças armadas” ao TSE.

O general Paulo Sergio levou para o Senado um coronel da ativa do Exército para dizer, contra o resultados de todos os testes e auditorias aos quais a urnas já foram submetidas, que “é possível que um código malicioso tenha sido inserido na urna e fique lá latente esperando algum tipo de acionamento”.

No fim da sessão, após ser alertado por assessores de que já repercutia na imprensa a proposta da Defesa, apresentada minutos antes, de uma “votação paralela” com cédula de papel, o general, exaltado, atacou jornalistas.

Logo em seguida, já manso, o ministro exaltou a presença e a participação na audiência, como convidado, do deputado Filipe Barros (PL-PR), que foi quem vazou para Jair Bolsonaro dados sigilosos de um inquérito da Polícia Federal sobre a tentativa de ataque hacker ao TSE em 2018. As informações foram manipuladas por Bolsonaro para servirem à escalada de suspeição das eleições 2022.

Na audiência, o deputado disse que “a PEC do Voto Imprenso foi rejeitada na Câmara por uma interferência não das forças armadas, mas de ministros do TSE. Não compete ao TSE esse tipo de interferência no processo legislativo, diferente daquilo que acontece com as forças armadas, que foram instadas, convidadas a participar”.

Dirigindo-se a Filipe Barros, disse o general nesta quinta, em pleno Congresso Nacional: “como eu aprendi com o amigo hoje aqui”.

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