Há uma semana, na última terça-feira, 15, o Tribunal Superior Eleitoral assinou um acordo com um punhado de redes sociais para combater a disseminação de desinformação durante o processo eleitoral de 2022. O TSE se entendeu com Twitter, TikTok, Facebook, WhatsApp, Google, Instagram, YouTube e até com a menos notória Kwai. Faltou, porém, uma plataforma mais óbvia, além do arisco Telegram: a Gettr.

A Gettr se gaba de ser “a plataforma de mídia social que mais cresce na história”, com mais de mais de um milhão de usuários inscritos em menos de três dias após seu lançamento, em meados do ano passado. Agora há pouco, em janeiro, segundo o site Sensor Tower, 700 mil pessoas baixaram o Gettr em todo o mundo. Estima-se que um em cada cinco downloads do Gettr seja feito no Brasil, o que daria 140 mil novos usuários no país só no primeiro mês de 2022.

Nada que chegue perto do Twitter, por exemplo, que foi baixado nada menos que 10 milhões de vezes em janeiro, em todo o mundo. Ou do próprio Telegram, com incríveis – Alô, Fachin – 27 milhões de downloads só no mês passado. Mas se tem uma lição que o Brasil aprendeu, ou deveria ter aprendido, com o minúsculo Jair Bolsonaro é que tamanho não é lá documento em matéria de potenciais estragos à Democracia, ou ao que restou dela nesta várzea.

Fundada por um ex-porta-voz de Donald Trump e parceiro de Steve Bannon, a Gettr espichou a jato, sim, mas virando um ninho de mafagafos trumpistas, bolsonaristas, negacionistas, fascistóides, armamentistas, fanáticos religiosos, teóricos da conspiração e profissionais das notícias falsas.

Desde os próprios Donald e Jair – e seus filhos – até Zambelli e Kicis, passando por Allan dos Santos, o próprio Bannon e todo um desfile de outras figuras expulsas da maioria das redes sociais por fake news, discursos de ódio, incitação a ataques à Democracia etc, mas que encontraram abrigo na Gettr em nome da “liberdade de expressão”, de “cancelar a cultura do cancelamento”, de marchar contra a “tirania da Máfia do Vale do Silício”.

Duas enquetes

Allan dos Santos, por exemplo, que é foragido da Justiça brasileira, exibe-se na Gettr – e claro, no Telegram – brincando de rato e gato com Alexandre de Moraes, e exibe, na Gettr, fuzis AR-15 e AK-47, fazendo enquetes da pesada. Tudo agora mesmo, em fevereiro:

A própria página institucional da Gettr Brasil promove lives de Allan dos Santos sobre “guerra da informação”. A página da Gettr Brasil, aliás, funciona na prática como página pessoal de Jair Bolsonaro, com direito a postagem do último sábado, 19, com os dizeres: “Bom dia, amigos do Gettr”, e uma foto de Jair Bolsonaro sorrindo para a galera.

Outra postagem da conta oficial do Gettr Brasil, do dia anterior, dava o informe de que “a tradicional Live do Presidente, que ocorre toda quinta feira, foi adiada pra hoje, sexta feira, 18/02/22, pois estava em viajem oficial, e decidiu retornar ao Brasil mais cedo do que o programado pra poder comparecer na cidade de Petrópolis hoje”.

Há poucos dias, a conta institucional do Gettr Brasil publicou uma “enquete sem manipulação sobre qual Brasil você prefere: o de Lula ou o de Bolsonaro?”.

O gráfico mostrava Bolsonaro com 91,2% e Lula com 8,8%. Apresentada assim, com estatura de sondagem profissional, só que “sem manipulação”, a enquete, de resto, foi feita no site da Jovem Pan, emissora de público bolsonarista, a ponto de ser apelidada de “Jovem Klan”.

Mas a operação da Gettr no Brasil parece à vontade para atiçar um dos fronts da guerra aberta pelo bolsonarismo contra o processo eleitoral, que é levantar suspeitas de manipulação de pesquisas de intenção de voto que lhe sejam desfavoráveis usando métricas de redes sociais, no melhor estilo “eu ouvi um amém?”, e imagens de manifestações “espontâneas” de rua em apoio a Bolsonaro.

Gettr e Covidflix

Outra banida do Twitter que têm conta ativa, verificada e bombando no Gettr é a médica infectonegacionista Roberta Lacerda. Roberta parece estar por trás do site Covidflix, a Netflix da desinformação sobre a pandemia, que cobra R$ 37 por mês para acesso a vídeos sobre “tratamento precoce”, “autoritarismo vacinal em crianças” e “hospitais infantis dos EUA agora sobrecarregados de pacientes cardíacos infantis” meses após o início da vacinação pediátrica.

A página de contato do Covidflix convida o usuário a entrar na Gettr e no grupo da Dra. Lacerda – advinhem – no Telegram.

Mais um expulso do Twitter e acolhido na Gettr, onde tem 23 mil seguidores, é o youtuber bolsonarista Gustavo Gayer. Em janeiro, Gayer viajou para os EUA com a deputada Carla Zambelli para participarem de uma marcha antiabortista e para, ora viva, encontrarem-se com o fundador da Gettr, Jason Miller, que recebeu de Zambelli uma maleta com a inscrição “Bolsonaro – il mito”.

Voltaremos a Jason Miller logo adiante.

‘Making social media fun again’

Em seu vídeo promocional chamando os brasileiros a criarem uma conta no aplicativo, a Gettr exibe um celular logado na plataforma, e o mural da plataforma exibido no vídeo mostra postagens de quatro contas diferentes na Gettr: a do conhecimento extremista de direta americano Dinesh D’Souza e dos veículos ditos “conservadores” Disclose.TV, The Epoch Times e Newsmax.

Dinesh é diretor de um documentário crivado de teorias da conspiração sobre Hillary Clinton, que foi o filme mais assistido pelo público “conservador” dos EUA em 2016 e ajudou a eleger Donald Trump naquele ano.

Naquele ano, o indefectível Rodrigo Constantino promoveu o filme no Brasil: “vale a pena assistir para ver o que seria, o que será da América se Hillary Clinton for eleita”.

A Disclose.TV é um antigo fórum de histórias de Ovinis que se transformou num poderoso canal de desinformação, discursos de ódio, negação do Holocausto e conteúdo antivacina.

The Epoch Times é uma gigantesca máquina de espalhar desinformação de extrema-direita, como teorias conspiratórias sobre a pandemia de covid-19, o Movimento Black Lives Matter e, ora veja, sobre fraudes eleitorais.

Já a Newsmax esteve na linha de frente das alegações de que uma grande fraude impediu a reeleição de Trump nos EUA em 2020. Foi a Newsmax que levantou a bola de que os sistemas eletrônicos americanos de contabilização de votos trocaram votos em Trump por votos em Joe Biden.

O slogan do vídeo promocional da Gettr é “Making social media fun again” – uma variação do slogan de campanha de Donald Trump. E quem entende que o neoliberalismo, levado ao seu máximo limite, encontra o fascismo na próxima esquina vai dar um pulo quando souber que a Gettr se pretende “o livre mercado das ideias”.

Versão brasileira

No dia 7 de setembro do ano passado, naquelas horas daquele dia de intensa agitação golpista bolsonarista, Come Ananás mostrou que Jair Bolsonaro tinha assinado a Medida Provisória 1.068/21, visando alterar o marco civil da internet, horas após se reunir com Jason Miller, que dois meses antes tinha fundado a Gettr.

Jason Miller, Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro.

A MP 1.068/21, que tinha sido publicada um dia antes, no dia 6 de setembro, previa dificuldades para o controle de notícias falsas e publicações antidemocráticas nas redes sociais. Era francamente inconstitucional, e acabou rejeitada pelo Congresso.

Na noite daquele dia 6, Miller, do Brasil, relatou a Steve Bannon, numa live, que tinha conversado com um parlamentar brasileiro sobre a preparação de uma versão brasileira da Primeira Emenda da Constituição Americana. Isso mesmo.

Steve Bannon e Jason Miller.

Praticamente no instante em que Come Ananás publicava, na manhã daquele 7 de setembro, esta matéria sobre Jason Miller e a edição da MP que pretendeu alterar o marco civil da internet, Miller era detido no aeroporto de Brasília por determinação de Alexandre de Moraes, por participação em agitações golpistas no Brasil.

Interrogado, recusou-se a dizer quem trabalhava para a Gettr no Brasil. Tudo ficou por isso mesmo e Miller foi-se embora para a matriz.

“Agora há pouco, [Alexandre de Moraes] interceptou um cidadão americano para ser inquirido”, reclamou Bolsonaro, naquele dia, num carro de som na Avenida Paulista.

Agora mesmo, o TSE finge que a Gettr não existe, por mais que justamente naquele 7 de setembro de 2021 o próprio site do TSE tenha se referido à plataforma como “uma nova rede social com planos de expansão para o Brasil e que tem concedido amplo espaço para ataques à democracia e ao sistema brasileiro de votação”.

O TSE parece ter esquecido a Gettr. Logo quem.

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