No vídeo de apresentação do mais novo coaching da praça, o criador do “treinamento” vai logo honrando a classe. É que, segundo ele, o preço para o que está oferecendo teria que ser muito maior, mas acaba que é pequenininho, porque o objetivo é “atingir o maior número de pessoas possível”. Em seguida, porém, o coach avisa: “parte meu coração dizer isso, mas as vagas são limitadas”.

E é assim, algo irresoluto sobre se busca um público amplo ou limita vagas, que Eduardo Bolsonaro acaba de se lançar no mundo do coaching. O nome da coisa é “Prepara Brasil” e a missão é “formar uma direita preparada para enfrentar as mentiras da esquerda e capaz de assumir o seu papel na defesa do Brasil”.

“Mais do que nunca a gente está junto para entrar nessa guerra cultural”.

Seu público-alvo, este sim, o coach parece ter definido com clareza.

“Eduardo – diz o deputado no vídeo -, como é que eu posso fazer para abrir os olhos da minha família? Como é que eu posso fazer para resgatar um filho meu que sofreu uma lavagem cerebral na escola ou na universidade? No grupo do Whatsapp tem um parente meu que ainda acredita na esquerda. Como é que faço para desmentir esse ou aquele argumento da esquerda que eu sei que é mentiroso? É para isso que eu criei este treinamento”.

E para isso, continua Eduardo Bolsonaro, “eu reuni uma equipe de estudiosos. São as maiores referências do Brasil em cada uma dessas áreas: aborto, religião, juventude, política… Na prática é uma espécie de universidade conservadora. Tudo para te deixar preparado para este ano importantíssimo”.

Outros “assuntos que você vai dominar” previstos para serem cobertos no coaching de Eduardo Bolsonaro são “conservadorismo”, “globalismo”, “ideologia de gênero”, “homeschooling” e “ativismo judicial”. Vindo de quem vem, chamam a atenção, ainda, os tópicos “eleições” e “direito eleitoral”.

Na lista dos que irão, digamos, lecionar no coaching de Eduardo Bolsonaro estão, por exemplo, Damares Alves, Onyx Lorenzoni, Ricardo Salles, Mario Frias, Alexandre Ramagem e Maurício do Vôlei. Alguma “maior referência do Brasil no assunto” vai instruir os coachers sobre racismo…

Curioso: a plataforma onde Eduardo Bolsonaro e companhia vão dizer o que dizem sempre sobre “globalismo”, “ideologia de gênero”, eleições, aborto, racismo, etc, jura que, “para garantir a qualidade dos produtos expostos em nossa vitrine, é necessária uma avaliação cuidadosa, que é realizada por nossa equipe”, e diz vetar “conteúdos de caráter duvidoso”.

O ano mais importante desde 1500

Faz parte ainda do coaching de “guerra cultural” de Eduardo Bolsonaro um “Guia definitivo para posse de arma”. O caminho das pedras, ou melhor, do ferro, é dado pelo presidente do Movimento Pró-Armas, o advogado Marcos Pollon.

Ao divulgar o “treinamento” em suas redes sociais, Pollon conclamou seus seguidores a que “compreendam a importância de participar do Prepara Brasil neste ano, que é o ano mais importante desde o descobrimento do país. Escolham entre: 1- continuar construindo um país livre; 2- se ajoelhar diante uma ditadura aos mortos da Venezuela”.

Bônus Especial #02: Ustra

O “Prepara Brasil” custa R$ 197,00 à vista ou doze parcelas de R$ 19,70. Talvez valha mais a pena investir em Bitcoin. Quem se decidir por Bitcoin, porém, e não se matricular no “treinamento” para “defesa do Brasil”, deixará de ganhar de bônus resenhas “dos livros que norteiam a vida e o trabalho de Eduardo Bolsonaro”.

Entre os livros estão “Desconstruindo Paulo Freire” e “A verdade sufocada”, este do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, além de um da lavra de Olavo de Carvalho.

Este é o “Bônus Especial #02”, uma homenagem subliminar a Carlos Bolsonaro.

O “Bônus Especial #01”, naturalmente alusivo a Flávio, é uma “masterclass” sobre “como escolher seus candidatos em 2022”.

Quando Gabriel García Márquez cravou que o jornalismo é a melhor profissão do mundo, não contava que algum coleguito, para informar sobre a Grande Marcha Para Trás em que meteram seu país, teria que dar conta de uma masterclass com o #03 dada de “Bônus #01” para quem encarar o coaching de “guerra cultural” lançado por Dudu Bananinha.

Mas quem, se não um jornalista; quem, se não quem por dever de ofício visitou várias vezes ao longo do dia o site do “Prepara Brasil”; quem poderia notar que, no site, o reloginho de contagem regressiva indicando encerramento iminente das matrículas volta automaticamente para o “prazo” de 60 minutos sempre que o “prazo” anterior acaba em 3, 2, 1, 0, no melhor estilo “repasse antes que apaguem”.

Ou no melhor estilo Walter Mercado: “ligue djá”.

O jornalismo, definitivamente, é a melhor profissão do mundo.

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