Com tudo isso de cabe genocídio, não cabe genocídio indígena, genocida chorando no banheiro e o Brasil transformado num filme de terror, impossível não lembrar de um recente, mas já clássico do gênero: “A Chorona”, do diretor guatemalteco Jayro Bustamante.

No filme, de 2019, o sobrenatural é pano de fundo, o terror é a impunidade pelas mais cruentas desgraças da América Latina e o mote é o julgamento por genocídio do antigo ditador José Efraín Ríos Montt, que promoveu um banho de sangue na Guatemala entre 1982 e 1983, sobretudo contra os indígenas maia-ixil.

Em 2013, num julgamento histórico, José Efraín Ríos Montt tornou-se o primeiro chefe de Estado latinoamericano condenado por genocídio. Em “A Chorona”, Ríos Montt vira o general Enrique Monteverde, que começa a ouvir uma mulher chorando à noite no banheiro, e daí para pior.

Era a Chorona, espírito errante associado à maternidade que é figura célebre do folclore da América Central. Há várias versões para a lenda. No filme, a Chorona vai atrás de Monteverde para vingar a morte dos seus dois filhos, afogados num rio décadas antes por soldados do general.

Na matança de mais de 1.700 indígenas maia-ixil entre 1982 e 1983 na Guatemala, muitos dos mortos eram crianças.

No filme, a juíza que dá a sentença de genocida diz assim em um tribunal lotado: “tendo em vista que o general Monteverde tinha conhecimento da matança levada a cabo e nada fez para evitá-la, ainda que tivesse poder para isso, declaro-o culpado de genocídio”.

Durou pouco. Dez dias, precisamente. No filme, a filha de Ríos Montt ouve a notícia pela TV: “o tribunal constitucional anulou o julgamento do antigo ditador. Representes do setor privado organizado aplaudiram a decisão, dizendo que não é possível provar que houve genocídio”.

Antes, durante o julgamento dramatizado em “A Chorona”, o advogado do general havia dito que “Enrique Monteverde nunca assinou, nunca propôs, nunca ordenou ao exército da Guatemala atentar contra nenhuma raça, nenhum grupo étnico ou religioso. É por isso que na Guatemala não houve genocídio”.

Quando Ríos Montt bateu os coturnos, aos 91 anos, em casa, em 2018, um dos seus advogados disse que ele “morreu em paz, tranquilo, e todos [da família] com a convicção de que neste país nunca houve genocídio, e que era inocente do que foi acusado”.

O general morreu num 1º de abril…

Yo ho

Assombrado na ficção pela Chorona, morto por ela, na vida real José Efraín Ríos Montt morreu senil, quem sabe vendo fantasmas além dos comunistas. Por essas e outras maestrias, “A Chorona” brigou pelo Oscar e pelo Globo de Ouro na categoria de melhor filme em língua não inglesa.

Vale a pena assistir. O problema é que até hoje não há sinal de lançamento da “A Chorona” no Brasil. O jeito é o Pirate Bay.

Fique tranquilo. Ninguém vai indiciar você pelo crime de pirataria se você não tiver uma perna de pau e um barco com mastro e canhão batizado de Queen Anne’s Revenge; se você nunca ordenou ou propôs um assalto às Ilhas Virgens Britânicas; se você não sai por aí se equilibrando num barril de rum e cantarolando: “drink up me hearties, yo ho”.

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