Em uma live de abril de 2020 com o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Batista Jr., a médica Nise Yamaguchi demonstrou espantosa familiaridade com o estudo da Prevent sobre a suposta eficácia do tratamento precoce de pacientes covid com hidroxicloroquina e azitromicina.

Na live, promovida pelo UOL, é Nise Yamaguchi quem pormenoriza os procedimentos e as “conclusões” do estudo após questionamentos feitos pela mediadora, a jornalista Lucia Helena, sobre a segurança de se enviar comprimidos de hidroxicloroquina para idosos tomarem em casa, fora do ambiente hospitalar.

Naquela altura, Pedro Batista Jr. dizia que o estudo ainda não havia sido publicado – nunca seria – porque estava sendo revisado por pares, “para que todo processo ético seja adequado”.

Pelo visto, a revisora do estudo fraudulento da Prevent Senior foi Nise Yamaguchi, a ponto de Lucia Helena, dizer, em tom de brincadeira: “Dr. Pedro, você contratou a Dra. Nise e eu não estava sabendo”.

Veja o momento:

Pedro Batista Jr. disse, na live, que poderia adiantar, sobre o estudo de Prevent, que de cada 28 pacientes tratados em casa com hidroxicloroquina, apenas um precisou ser internado.

Mais à frente, Nise Yamaguchi diz que:

“Isso é importante não só para o sistema público, mas para todos os convênios médicos. Imagina quanto se gasta por paciente em ECMO [oxigenação por membrana extracorporal] em PRONA [posicionar o paciente no leito hospitalar com a barriga voltada para baixo]…”.

Participaram ainda da live Roberto Kalil Filho, diretor clínico do Incor, e Estevão Portela Nunes, infectologista da Fiocruz. A live aconteceu precisamente no dia 16 de abril de 2020. Naquele exato dia Luiz Henrique Mandetta foi defenestrado do Ministério da Saúde por Jair Bolsonaro, duas semanas após Mandetta fazer críticas públicas à Prevent Senior.

Enviada especial

“Eu estive no Conselho Federal de Medicina para uma conversa de três horas. Fui sabatinada por 14 ou mais conselheiros. Tive a oportunidade de colocar todos os dados. Eu estive com o Ministério da Saúde, com o Dr. Denizar [Denizar Vianna, então secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde], antes de encontrar o Dr. Mandetta. Fiz questão de mostrar os dados. Procurei o Dr. Gabbardo também. Depois, procurei o presidente da Anvisa”, disse Nise Yamaguchi no fim da live.

Três dias depois, em 18 de abril, Jair Bolsonaro fez uma postagem no Twitter sobre o estudo da Prevent Senior:

“Segundo o CEO Fernando Parrillo, a Prevent Senior reduziu de 14 para 7 dias o tempo de uso de respiradores e divulgou hoje, às 1h40 da manhã, o complemento de um levantamento clínico feito: de um grupo de 636 pacientes acompanhados pelos médicos, 224 NÃO fizeram uso da HIDROXICLOROQUINA. Destes, 12 foram hospitalizados e 5 faleceram. Já dos 412 que optaram pelo medicamento, somente 8 foram internados e, além de não serem entubados, o número de óbitos foi ZERO. O estudo completo será publicado em breve”.

Cinco dias após a live, Bolsonaro afirmou que havia determinado ao laboratório químico e farmacêutico do Exército a ampliação imediata da produção de hidroxicloroquina.

Com a Prevent, com tudo

“De que maneira a Prevent Senior ajudou a desenvolver os protocolos do chamado tratamento precoce, tão defendido pelo Presidente da República durante a pandemia e repetido agora na ONU?”, perguntou nesta terça-feira, 28, o relator da CPI da Pandemia, Renan Calheiros, a Bruna Morato, advogada dos ex-médicos da Prevent Senior que denunciaram à CPI experimentos mengelianos e as fraudes por parte da Prevent Senior para ajudar Jair Bolsonaro a empurrar hidroxicloroquina goela abaixo do Brasil.

“As informações que eu tive é que a Prevent Senior colaborou com a transferência de dados, ou seja, as pessoas responsáveis pela produção e desenvolvimento desse tratamento seriam aquelas três, conforme eu havia dito, que seriam os três pilares de assessoria governamental. São eles o Sr. Anthony Wong, na condição de toxicologista; a Dra. Nise Yamaguchi, imunologista; e o virologista Paolo Zanotto. A Prevent Senior teria colaborado com dados de pesquisa dizendo que aquela prescrição era eficaz”, respondeu Bruna Morato.

À CPI, Bruna relatou que houve entre a Prevent Senior e o governo Bolsonaro “colaboração com a produção de informações” – a rigor, propagação de uma “cura” – que convergissem com a recusa do governo em adotar, promover ou coordenar medidas de isolamento físico para impedir a disseminação do vírus.

Uma colaboração, um pacto, um acordo pelo “tratamento precoce”. Com a Prevent, com tudo.

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