Dos 27 senadores da CCJ, 21 são do boi ou da Bíblia, sem contar os da bala

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Foi um pássaro que passou na Comissão de Constituição e Justiça do Senado? Foi um avião? Não, mas tampouco foi algum herói. Ao contrário. Foi Davi Alcolumbre levando apenas 42 segundos para ler a ementa, pôr em discussão, em votação e declarar aprovada uma Proposta de Emenda à Constituição com relevantes alterações no funcionamento do Supremo Tribunal Federal. O “rito”, a jato, foi obviamente fruto de algum acordo prévio.

Dos 27 senadores titulares da CCJ, 21 integram a bancada ruralista ou a bancada evangélica, ou as duas. São 16 os senadores ao mesmo tempo da Frente Parlamentar da Agropecuária e da CCJ – 59% do colegiado. São 10 os membros da CCJ que integram a Frente Parlamentar Evangélica. Cinco senadores da comissão são membros das duas frentes, a do boi e a da Bíblia. Estão lá, titulares da CCJ do Senado, de Sergio Moro a Magno Malta; de Marcos Rogério a Marcos do Val; de Esperidião Amin a Flavio Bolsonaro.

Apenas seis senadores da CCJ não estão nem em uma, nem na outra das associações mais reacionárias do Congresso, quatro deles são do Bloco Parlamentar da Resistência Democrática (Rede, PT, PSB, PSD).

Isso sem contar a bancada da bala, porque ainda não aparecem senadores da 57ª Legislatura nas relações oficiais de integrantes da Frente Parlamentar da Segurança Pública e da Frente Parlamentar de Proteção aos Colecionadores, Atiradores Desportivos, Caçadores e Clubes de Tiro.

No Congresso, ruralistas, evangélicos e atiradores se uniram para aprovar o marco temporal, estão se unindo para encaixilhar o Supremo e irão se unir para derrubar o provável veto de Lula ao marco. Nesta quarta-feira, 4, enquanto na CCJ do Senado durava 42 segundos a tramitação de uma mudança na Constituição, a Comissão de Meio Ambiente da Câmara deixava o agronegócio de fora das obrigações do mercado de crédito de carbono no Brasil.

Se parasse por aí – e não vai parar -, o país, acredite, sairia no lucro. Isso porque só a bancada ruralista, que em fevereiro iniciou a 57ª Legislatura com 300 deputados federais, de um total de 513, hoje já chegou a 324 associados na Câmara, 81 deles do PL de Jair Bolsonaro. Em maio, numa correspondência de arrepiar, o regime de urgência para a tramitação do PL do marco temporal foi aprovado por exatamente 324 deputados.

A bancada ruralista costuma votar em bloco, coesa, com pouquíssimo dissenso, e não apenas nas pautas diretamente ligadas ao agronegócio. O potencial foco de dissenso na FPA na Câmara está nos seus 25 membros – apenas 7% da associação – filiados ao PT, PSB, PDT, PCdoB ou PV. Mesmo assim, na votação do PL do marco temporal, no fim de maio, três desses 25 membros “de esquerda” da FPA votaram a favor da catástrofe para os povos indígenas e cinco não apareceram para votar.

O tamanho atual da FPA na Câmara significa que a bancada ruralista já poderia, sozinha, em tese, aprovar – ou barrar – Propostas de Emenda à Constituição. Assim, no plural, não apenas a PEC dos 42 segundos. Para uma PEC passar no plenário da Câmara, são necessários 308 votos favoráveis – 3/5 dos deputados. Para uma PEC passar no Senado, são necessários os votos de 49 senadores. São hoje 50 os senadores da Frente Parlamentar da Agropecuária – só os do boi, sem contar os da Bíblia e os da bala.

Quem quer que almeje disputar com chances as presidências da Câmara e do Senado no meio do mandato de Lula terá que ajoelhar no milho da extrema-direita. Pacheco, por exemplo, já começou a dobrar as longas pernas para tentar fazer seu sucessor. Quem? Davi Alcolumbre.

Os 42 segundos de Alcolumbre são o que são: uma fração da eternidade de retrocessos que paira sobre o Brasil.

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