Daniela do Waguinho e Marcelo da CPI das Milícias (Foto: Pedro França /Mtur).

Na última terça-feira, 3, a Folha de S.Paulo revelou um elo entre a ministra do Turismo nomeada por Lula, Daniela do Waguinho, e um miliciano da Baixada Fluminense, onde o marido de Daniela, Waguinho, é prefeito do município de Belford Roxo. A semana que começou com um elo entre os Waguinho e a milícia da Baixada terminou com cinco.

Já são cinco, e contando, os apontados como milicianos (presos, réus) que aparecem com Daniela em fotos e vídeos de atos de campanha em 2018 e em 2022 na mui leal e heróica cidade de Belford Roxo, e nas adjacências.

Não se trata, porém, de meros registros de corpo a corpo ocasional ou de tietagem de eleitor casca grossa que – e que remédio? – faz questão de tirar selfie com o candidato em quem irá votar. No caso, candidata. No caso, alianças: o que Waguinho e seu grupo político têm com milicianos da Baixada Fluminense não são só fotos; tudo leva a crer que são alianças.

Indo além, há indícios de que não é “apenas” que o grupo político de Daniela do Waguinho, e do Waguinho, tenha “fechamento” com a máfia; há indícios de que o próprio grupo político dos Waguinho é, vamos dizer assim, um “bonde” mafioso-eleitoral.

Daniela do Waguinho, Djelany da Daniela

Exemplo: em um vídeo de setembro do ano passado, gravado em um comício em Belford Roxo, o vereador Fábio de Oliveira Brasil, que atende pela alcunha de Fabinho Varandão e já foi preso e é reú acusado de integrar milícia, vira-se para Daniela e para o deputado estadual Márcio Canella (velho parça do prefeito Waguinho) e suspira: “meu grupo político, que nunca me abandona”.

Em 2019, Márcio Canella e Waguinho foram denunciados pelo Ministério Público do Rio por peculato, concussão, fraude a licitação e organização criminosa. Até hoje a Justiça fluminense ainda não decidiu se vai torná-los réus. Consta na denúncia um episódio em que um empresário foi convidado à mão armada, dentro da prefeitura de Belford Roxo, a desistir de uma licitação em favor de outro, o “dono do contrato” porque havia “ajudado o prefeito e trabalhava com ele”.

A administração Waguinho em Belford Roxo têm um longo histórico de emprego de milicianos e de parentes de milicianos na prefeitura.

Antes de nomer Daniela do Waguinho para o Ministério do Turismo, Lula nomeou Waguinho para a equipe de transição, para o grupo de trabalho de Cidades.

O “dono do contrato”, segundo a denúncia do MPRJ, era o empresário Jorge Luiz dos Santos Santana. Consta também na denúncia que uma mulher chamada Djelany Mote de Souza Alves Machado ganhou de Jorge Santana nada menos que um Toyota Corolla. Djelany é irmã de Daniela.

Media training

Ao ser anunciada para o Ministério do Turismo, Daniela do Waguinho passou por um, digamos, rebrand. Agora, é Daniela Carneiro, passando a se apresentar com o sobrenome do marido, não mais com o apelido do consorte precedido de contração de preposição com artigo definido.

Agora, cinco milicianos depois, parece que Daniela, acossada, vai passar também por media training, que é como na política contemporânea se tenta expulsar do corpo as contradições, às vezes as incriminações.

Quem também há tempos vem passando por rebrand – mais profundo, mais antigo – é o deputado Marcelo Freixo, agora presidente da Embratur, e agora filiado ao PT. Há tempos – e é público, e é notório – Freixo não é mais o mesmo Freixo, politicamente falando, que presidiu a CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), 15 anos atrás. Quem seria?

Na última segunda-feira, 2, em Brasília, Marcelo Freixo prestigiou a posse da sua chefe no governo Lula, Daniela do Waguinho, desculpe, Carneiro. Diante de Daniela, Waguinho, André Ceciliano e Luciano Bivar, Freixo dircursou. Discursando, disse assim:

“Quero cumprimentar o prefeito Waguinho da Daniela”.

Houve silêncio. A plateia pareceu não entender a piada. Daniela leva a mão esquerda à boca, acusando constrangimento. Eternos segundos se passaram até que alguém finalmente puxa os aplausos.

Aliviado, Freixo emenda: “eu já tinha feito essa brincadeira com ele lá dentro pra testar. Não nasci ontem”.

Os nascimentos

No dia seguinte à posse de Daniela do Waguinho, terça-feira, a Folha publica o caso Daniela do Jura: “Ministra de Lula mantém vínculo político com família de miliciano”.

O miliciano em questão é o ex-PM Juracy Prudêncio. Com uma centena de cadáveres nas costas, Jura, como é conhecido, participou ativamente da campanha de Daniela em 2018. Em 2022, faltou, porque está preso. Sem problema. Substituiu-o sua esposa, Giane Prudêncio, conhecida como… Giane do Jura.

O relatório final da CPI das Milícias da Alerj apontou Juracy Prudêncio como chefe da milícia “Somos Comunidade”, com área de atuação em vários bairros de Nova Iguaçu. O relatório diz que Jura, que chegou a ser candidato a vereador, “estaria ameaçando os moradores a votarem nele dizendo que ‘cabeças vão rolar’ se ele não se eleger”.

O governo que foi eleito, de resto, para pôr fim à República das Milícias não poderá dizer que não sabia dessa e de outras sobre o clã Bolsonaro, desculpe, sobre o clã Waguinho, quando, no xadrez da composição com o União Brasil, decidiu pagar recompensa – é a explicação – pelo fervor com que Wagner e Daniela embarcaram na candidatura Lula nas eleições 2022, em apoio diligentemente costurado pelo presidente da Alerj, o petista André Ceciliano, político da Baixada.

Ou, como disse uma raposa felpuda da política do Rio à repórter Malu Gaspar, d’O Globo, “a dinâmica eleitoral da Baixada Fluminense não é novidade para ninguém”.

Muito menos Marcelo Freixo, o antigo presidente da CPI das Milícias, poderá dizer que foi pego de surpresa com a reportagem da Folha – e com as outras, ao longo da semana -, após fazer a piada com a qual pretendeu resolver a questão da mulher na família Carneiro…

Marcelo Freixo não é o único que não nasceu ontem.

É em seu livro intitulado “Os Nascimentos”, aliás, que Eduardo Galeano conta uma história – “A recompensa” – sobre o reino indígena independente de Huexotzingo, a partir da leitura do historiador James Lockhart, que dedicou a vida à história colonial da América Latina. Os de Huexotzingo, que nunca tinham pago tributo aos Astecas, de repente tiveram que dirigir uma carta urgente ao rei da Espanha:

“Agora, em compensação, os espanhóis exigem tributos tão altos em dinheiro e milho que declaramos ante Vossa Majestade que não se passará muito tempo antes que nossa cidade de Huexotzingo desapareça e morra”.

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