Enquanto o TSE dá passos de cágado atrás do Telegram, nesta semana a revista estadunidense Foreign Policy publicou um longo artigo mostrando por que é cada vez mais corpórea a possibilidade de um “capitólio brasileiro” no fim do ano, com a percepção de que, nos EUA, Trump afinal capitalizou os episódios de 6 de janeiro de 2021 e com a indicação de que Bolsonaro vai conseguir diminuir, com o uso da máquina, a distância para Lula nas pesquisas à medida que a eleição se aproxima.

Essas e outras alterações de cenário tendem a fazer tinir e retinir uma versão verde e amarela do “stop the steal” – “parem o roubo” -, o grito de guerra com que Trump e sua trupe açularam círculos de extrema direita nas redes sociais, resultando numa turba ensandecida quebrando vidraças e invadindo o Congresso estadunidense pelas janelas, com direito ao “Bisão do QAnon” tomando de assalto a poltrona de Nancy Pelosi.

No artigo, a Foreign Policy diz que Jair Bolsonaro e seus aliados nem precisam ir longe para se educar na estratégia de Donald Trump: “O Brasil tornou-se um campo de batalha global para a proliferação de valores de alt-right dos EUA, e estrategistas e apoiadores de Trump, como Steve Bannon, Jason Miller e Mike Lindell, estabeleceram um amplo diálogo com o governo Bolsonaro”.

O nome do meio, Jason Miller, é um ex-porta-voz de Trump que em meados de 2021 fundou uma rede social de extrema-direita chamada Gettr.

Por o Gettr ter virado um reduto de negacionistas, fascistóides, armamentistas, fanáticos religiosos, jogadores de vôlei reacionários, teóricos da conspiração e profissionais das notícias falsas, todos apoiadores de Bolsonaro e insatisfeitos com a “censura” e o “globalismo” das Big Techs, o Brasil é o segundo país em número de usuários cadastrados na plataforma e com quase todos os mais notórios – de deputados bolsofascistas a gurus bolsopentecostais – lincando suas contas no Gettr às suas contas no Telegram.

Em novembro do ano passado, quando Bannon, o mais famoso dos três trumpistas citados pela Foreign Policy, foi preso nos EUA por desacato, por se recusar a colaborar com as investigações sobre a invasão do Capitólio, o Gettr transmitiu ao vivo o momento da prisão.

Falando para a câmera do Gettr, Steve “a eleição no Brasil é a segunda mais importante do mundo” Bannon fez o que faz de melhor de dentro de seu casaco surrado de homem curtido na luta contra a conspiração comunista global, ou seja, insuflar o ardor de fazer parte de uma luta maior em curso contra tudo e todos que escondem das massas a verdade: “Quero que vocês continuem focados. Tudo isso é apenas ruído”.

“Foi apenas uma farsa”, disse Jason Miller ao New York Times sobre sua detenção por ordem de Alexandre de Moraes quando tentava sair à francesa do Brasil no 7 de setembro do ano passado, após ter se reunido com Bolsonaro e seus filhos às vésperas dos atos golpistas daquele dia. A matéria do Times levou o título “A conexão Bolsonaro-Trump ameaça as eleições no Brasil”.

Magas

Come Ananás já publicou vários artigos sobre o Gettr, seus artífices, seus maiores entusiastas no Brasil e o perigo que todos juntos representam para o fiapo que restou da Democracia brasileira. No ano passado, mostramos que Bolsonaro editou MP da mentira após se reunir com fundador da ‘rede social de Trump’ e que o CEO da ‘rede social de Trump’ se recusou a dizer à PF quem são seus funcionários no Brasil.

Hoje, é amplamente conhecido o nome de pelo menos uma funcionária do Gettr no Brasil. Trata-se de Camila Magalhães. O nome de usuário de Camila no Gettr, @cahmaga, usa a abreviação do seu sobrenome para fazer um trocadilho com o slogan trumpista “Make America Great Again”. Em setembro, quando a PF tentou em vão extrair de Jason Miller um nome do Gettr no Brasil, Camila já trabalhava como “Director of Portuguese Engagement at Gettr”, segundo consta em seu currículo no Linkedin.

“Eu tenho vários vídeos que eu sei que vão ser censurados em outras redes que aí eu coloco no Gettr de um jeito e nas outras redes de outro”, contou a deputada bolsonarista Carla Zambelli a Camila Maga numa live feita em fevereiro. Jason Miller também participou da live e contou que o Gettr começou a ser desenhado em 2020, quanto Trump foi banido de várias redes sociais.

Live do Gettr com Carla Zambelli.
Camila Magalhães nos EUA com Carla Zambelli e Aginaldo de Oliveira, comandante da Força Nacional de Segurança Pública.

O próprio slogan do Gettr é uma variação do MAGA criado por Steve Bannon: “Making social media fun again”. Nesta quinta-feira, 17, Camila divulgou em seu perfil um convite para o programa de Allan dos Santos no Gettr, chamado “Guerra da Informação”. Trata-se de uma imitação do “War Room”, o programa de Bannon que também é transmitido via Gettr e no qual o estrategista político de Trump aparece sempre com um pôster tipográfico ao fundo onde se lê: “Não existem conspirações, mas também não existem coincidências”.

Já o perfil oficial do Gettr Brasil funciona, na prática, como uma segunda Secom do governo Bolsonaro. Só nesta quinta, o perfil oficial do Gettr Brasil divulgou nove ações do governo federal, além de publicar várias postagens sobre a visita de Bolsonaro à Bahia, um convite para a live semanal de Bolsonaro e um vídeo em que o presidente Desta Várzea afirma que Esta Várzea “uma das últimas democracias do mundo”, que “a liberdade, se perdê-la, você sabe o que vai acontecer para recuperá-la” e que “nós temos força para lutar contra o mal. Não é esquerda contra direita. É o bem contra o mal”.

Mais tarde, já em 2022, Come Ananás chamou atenção para que, em esforço contra fake news nas eleições, TSE esquece a mais bolsonarista das redes sociais, e que o diretor da Força Nacional de Segurança Pública fez propaganda do Gettr em evento trumpista nos EUA que contou com foragido do STF – ele, Alan dos Santos.

Portfólio

Em seu vídeo promocional chamando os brasileiros a criarem uma conta no aplicativo, o Gettr exibe um celular logado na plataforma, e o mural da plataforma exibido no vídeo mostra postagens de quatro contas diferentes no Gettr: a do conhecimento extremista de direta americano Dinesh D’Souza e dos veículos ditos “conservadores” Disclose.TV, The Epoch Times e Newsmax.

Dinesh é diretor de um documentário crivado de teorias da conspiração sobre Hillary Clinton, que foi o filme mais assistido pelo público “conservador” dos EUA em 2016 e ajudou a eleger Donald Trump naquele ano.

Naquele ano, o indefectível Rodrigo Constantino promoveu o filme no Brasil: “vale a pena assistir para ver o que seria, o que será da América se Hillary Clinton for eleita”.

A Disclose.TV é um antigo fórum de histórias de Ovinis que se transformou num poderoso canal de desinformação, discursos de ódio, negação do Holocausto e conteúdo antivacina.

The Epoch Times é uma gigantesca máquina de espalhar desinformação de extrema-direita, como teorias conspiratórias sobre a pandemia de covid-19, o Movimento Black Lives Matter e, ora veja, sobre fraudes eleitorais.

Já a Newsmax esteve na linha de frente das alegações de que uma grande fraude impediu a reeleição de Trump nos EUA em 2020. Foi a Newsmax que levantou a bola de que os sistemas eletrônicos americanos de contabilização de votos trocaram votos em Trump por votos em Joe Biden.

#tseapagouasprovas

Veja o que a pesquisa do Gettr retorna ao usuário da plataforma ao digitar algumas palavras-chave das eleições de 2022:

O Gettr tem hoje cerca de um milhão de usuários no Brasil, e subindo. Do Oiapoque ao Chuí, não é necessário ter cadastro no Gettr para assistir, por exemplo, ao cover de Steve Bannon estrelado por Allan dos Santos. A justiça eleitoral parece não compreender bem a inter-relação entre as plataformas, as maiores e as menores. Basta receber um link, clicar e injetar a dose diária do veneno.

Agora mesmo, nesta quinta, o UOL reportou o caso de um médico que postou uma informação falsa sobre vacinas no Gettr para depois compartilhar o post no Telegram.

Agora mesmo, na última segunda-feira, 14, o Gettr anunciou sua mais nova funcionalidade, criada para tornar “mais fácil escapar das garras da Big Tech”:

“Estamos dando aos usuários a capacidade de fazer postagens cruzadas do Gettr para o Twitter, fazendo com que você nunca mais precise fazer login no Twitter novamente. Para aqueles que têm muitos seguidores no Twitter e precisam de ajuda para migrar seus seguidores para o Gettr, esta é a ferramenta para você. Mostre aos seus seguidores que você está se posicionando contra a censura das Big Techs, experimentando hoje a postagem cruzada”.

E o Gettr, pelo visto, anda metido com a organização de eventos pré-eleitorais sobre o “Brasil profundo”:

Até quantos milhões de usuários no Brasil o Gettr terá que subir para que o TSE desça ao “Brasil profundo”? Pelo histórico, até ser tarde demais.

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