Quando conspirava abertamente para derrubar Dilma Rousseff e assumir a presidência da República, Michel Temer contou com ajuda e não foi pouca: a do grande consórcio golpista costurado – quem poderá esquecer? – “com o Supremo, com tudo”.

Na empreitada, Temer recebeu uma mãozinha, uma mãozona em especial de um amigo de longa data: quando Lula foi nomeado por Dilma para a Casa Civil, a fim de tentar a articulação política necessária para reverter o processo golpista, Gilmar Mendes imediatamente cortou a articulação pela raiz.

Era março de 2016, mês em que Romero Jucá e Sergio Machado cochichavam sobre “tem que botar o Michel, num grande acordo nacional”.

Naquela feita, Gilmar Mendes apontou “desvio de finalidade” na nomeação de Lula para a Casa Civil: em vez de articulação política, o objetivo da nomeação seria, para Gilmar, dar prerrogativa de foro a Lula, sobre quem pairava a ameaça de ser preso por Moro.

“As conversas interceptadas com autorização da 13ª Vara Federal de Curitiba apontam no sentido de que foi esse o propósito da nomeação”, escreveu Gilmar Mendes na decisão, pisoteando, de resto, o fato de que as conversas envolviam a então presidenta da República e a gravação autorizada por primeira instância era, portanto, ilegal.

Mas acordo é acordo, e os excelentíssimos são homens e mulheres de palavra.

Pouco depois, em 12 de maio de 2016, com Dilma afastada, Temer assumiu interinamente a presidência da República e, no mesmo dia, Gilmar Mendes assumiu a presidência do TSE, e nesta condição presidiria o julgamento da cassação da chapa Dilma-Temer, vitoriosa na eleição presidencial de 2014.

Na época, juristas levantaram dúvidas sobre a imparcialidade de Gilmar Mendes para conduzir o julgamento, por causa de sua amizade com Temer. Nos 12 meses anteriores à posse de Temer como interino, o usurpador e Gilmar haviam se encontrado pelo menos oito vezes fora de suas agendas oficiais.

Em junho de 2017, o julgamento da chapa Dilma-Temer finalmente teve um desfecho. Três ministros do TSE votaram pela cassação, e outros três pela absolvição. Quem desempatou foi o presidente do tribunal, o velho amigo do jurisdicionado. O leitor pode pesquisar no Google como ele votou.

Do garantismo ao caradurismo

Neste sábado, 11 de setembro, a Folha de S.Paulo publica o mais recente voto de Gilmar Mendes: um voto de confiança em Jair Bolsonaro, quatro dias após Bolsonaro comandar o 7 de setembro golpista, mas dois após Michel Temer entrar cena, redigindo a nota de “recuo” de Bolsonaro e renovando, com aquelas mãozinhas, o consórcio de 2016.

Quem não deu um minuto a Lula na Casa Civil para tentar reverter o impeachment de Dilma, porque desconfiou do propósito da nomeação, agora quer dar todo tempo do mundo ao fascista na presidência da República: “precisamos acreditar da boa fé de Bolsonaro”.

E o grande acordo nacional para “botar o Michel” agora, renovado, é para manter o Jair.

E tem que botar o Geddel também – no semiaberto.

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