Leonel Brizola.

Leonel de Moura Brizola faria, faz 100 anos neste sábado, 22 de janeiro de 2022, porque Brizola vive. Para celebrar a data, Come Ananás reproduz duas histórias sobre Leonel Brizola, e conta uma terceira, digamos que exclusiva.

Vamos a elas.

Brizola parecia estar num voo acima de tudo

Se Brizola faz 100 anos em 2022, uma das suas fotos mais famosas faz 40.

É 1982. Três anos após voltar do exílio, Leonel Brizola é candidato a governador do Rio de Janeiro. O fotógrafo Aguinaldo Ramos conta a história da foto “Brizola pula a fogueira”, uma fogueira de armas de brinquedo, feita durante um ato daquela campanha no subúrbio carioca. O relato abre a biografia de Brizola escrita por Clovis Brigagão e Trajano Ribeiro.

Afora os bastidores do histórico voo de Brizola sobre as chamas, com “botinas de gaúcho exilado”, a cena de armas de brinquedo sendo queimadas num ato de campanha, com uma liderança nacional tendo “a honra de atear o fogo”, é um contraste desconcertante entre a possibilidade de Brasil naquele poente da ditadura e o que este país se tornou 40 anos depois, com um presidente da República que incita crianças a fazerem gesto de arminha com as mãos.

Conta Aguinaldo Ramos:

Um dia [do ano de 1982], saí da redação do JB com o repórter J. Paulo para acompanhar o então candidato a governador [Brizola] num roteiro pela Zona Norte da cidade. No começo da tarde estávamos no conjunto Amarelinho, em Irajá, junto à Avenida Brasil. As lideranças locais aproveitaram a promissora visita para fazer, além da luta pela reforma do conjunto, uma manifestação pela paz na comunidade, cercada de favelas. Promoveram a queima, em grande fogueira à frente do conjunto, das armas de plástico recolhidas das crianças. Brizola ganhou a honra de atear o fogo, o que fez com prática de gaúcho churrasqueiro. De repente, vira-se para o mais destacado cabo eleitoral local e pergunta: “tens coragem de pular a fogueira, tchê?!… então vai na frente que eu vou atrás!”.

Os assessores, até mesmo o futuro prefeito Marcelo Alencar, também na campanha, tentaram preservar o chefe. Nada adiantou, Brizola estava tranquilo e ia pular.

Eu me preparei como pude… Busquei uma posição lateral, pus a 24 mm (a maior grande angular que tinha ali), me agachei, mantive o dedo no obturador. O líder local, com a maior desenvoltura, cumpriu sua parte. Acompanhei de rabo de olho, sem apertar, preocupado com Brizola, que podia nem esperar o salto do outro. Ou, refugar… Brizola tinha os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto. Com suas botinas de gaúcho exilado, camisa azul-clara de mangas arregaçadas, arredou um pouco a garotada, abriu uma roda, concentrou-se e, sem considerações, partiu! No meio do caminho, abriu os braços, parecia estar num voo acima de tudo. aterrissou com perfeição, sem qualquer escorregão ou derrapagem.

E quase estourou a guerra no Hotel da Paz

Vamos recuar no tempo para outra história de Leonel Brizola contada no livro de Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro:

Na década de 1970, durante o turno de Ernesto Geisel à frente da ditadura civil-militar no Brasil, Brizola, no exílio, foi a Roterdã para fazer contatos com o Partido Trabalhista Holandês e encontrar outros brasileiros exilados, após participar de uma reunião da Internacional Socialista em Hamburgo e uma passagem por Colônia. Estava acompanhado de Trajano, sua esposa, Maria Ribeiro, e Moniz Bandeira.

Ao final do seu primeiro dia na cidade holandesa, Brizola recebeu o pernambucano Maurílio Ferreira Lima, ex-deputado cassado, e seu irmão, Bruno Ferreira Lima. À noite, Brizola, Trajano e os irmãos Ferreira Lima conversavam sobre a situação no Brasil no átrio do Hotel da Paz. Durante a conversa, Trajano notou que um homem encostado no balcão da recepção prestava atenção no que diziam e sugeriu que o grupo se retirasse para um local mais reservado.

No caminho para o elevador, Trajano alertou Brizola sobre o homem que os observava e disse que, “pela pinta”, era brasileiro. “Não é possível. Tu estás vendo guampa em cabeça de égua”, replicou Brizola.

Segue o relato do livro:

Trajano foi até o recepcionista e perguntou-lhe se o homem que estivera algum tempo encostado no balcão era brasileiro, e o holandês confirmou. Voltou ao grupo em frente ao elevador:

– É brasileiro, governador.

– Mas onde ele está?

– Entrou naquela sala.

Trajano apontou para uma sala ao lado do salão de recepção, onde o homem acabara de entrar. Brizola dirigiu-se a passos largos para lá. Trajano e os Ferreira Lima os seguiram. Era uma sala de estar, onde um grupo assistia a televisão. Trajano mostrou a Brizola o homem. Para seu espanto e dos irmãos pernambucanos, Brizola dirigiu-se ao indivíduo, sentado numa poltrona, postando-se à sua frente:

– Boa noite.

– Boa noite.

– Brasileiro?

– Sim, sou brasileiro.

– Passeando?

– Não, trabalhando. Na verdade, fazendo um curso.

– E o amigo trabalha em quê?

– Sou da Marinha do Brasil.

Refazendo-se do impacto da surpreendente resposta, Brizola disparou:

– Eu sou Leonel Brizola e lhe desejo sucesso na sua missão. Boa noite.

Leonel de Moura Brizola e Levi Alves Machado

Em vez de recuar, agora vamos avançar algumas décadas: Brasil, 2020, pandemia de covid-19. Um tio meu, Levi Machado, é internado com a doença. Falta-lhe o ar. Quando fico sabendo da internação, mando estampar uma camiseta com o cartaz da campanha de Brizola nas eleições para a presidência da República em 1989.

Brizolista “roxo”, engenheiro eletricista dos melhores e ocupando os melhores postos da profissão, tio Levi e sua família viram uma carreira brilhante ser covardemente trucidada quando ele, firme como Brizola, firme postou-se diante da encruzilhada entre a conveniência e a convicção que lá pelas tantas apareceu dramaticamente à sua frente, preferindo, a capitular, ombrear com a classe trabalhadora.

Encantava-me, quando criança, a verve com que o tio Levi defendia Brizola dos ataques dos pobres de espírito, em inflamados debates. Os olhos fixos na fogueira, um sorriso maroto no rosto.

No dia em que a camiseta ficou pronta, no dia que eu ia vestir a camiseta para tirar uma foto e mandar para o tio Levi por Whatsapp – minha maneira de dizer: “Eu lembro. Firme! Continue firme!” -, ele foi parar na UTI, e os contatos por Whatsapp foram cortados.

Por volta das 23h do dia 3 de novembro do ano um pandemia, quando eu trabalhava em um artigo para este Come Ananás, recebi pelo meu pai a notícia de que tio Levi tinha morrido. Ele tinha morrido por volta das 18h. Doeu bastante, mas por um instante, por um átimo, até achei graça. Às vezes, escapam-nos uns risos de nervoso no meio das maiores agonias.

É que, naquele dia, por volta das 18h, eu dei um banho no meu filho, tomei a minha própria chuveirada e, embrulhando-me para a jornada noturna de trabalho, vesti a camiseta de Leonel de Moura Brizola, na hora exatinha em quem Levi Alves Machado se foi.

Nunca mais parei de usá-la, aquela camiseta do Brizola por mim encomendada mas que não foi feita exatamente para mim. Não há uma só vez que eu saia na rua com ela sem ouvir de pelo menos um passante: “gostei da camisa! Esse aí era bom”, ou variações. Tão pouquinho, mas tão revigorante, neste Brasil… uma breve suspensão, por um átimo, da sensação permanente se ser um exilado dentro do meu país.

De qualidade duvidosa, a camiseta do Brizola já anda um tanto desgastada, encardida, uns vincos amarelados despontando aqui e ali. Mas uma vez li no livro “O casaco de Marx”, de Peter Stallybrass, que quando um membro da guilda tornava-se livre, dizia-se dele ou dela que tinha sido “enroupado”, senhores e senhoras de suas próprias roupas, e que no jargão técnico da costura os vincos são chamados de “memória”, tudo o que este país não é chegado a ter.

A memória que minha camiseta sambada do Brizola evoca é a do que este país já vislumbrou ser; da nossa marcha que de repente mudou de direção. São as memórias de Leonel Brizola – presente! -, de Levi Machado – presente! – e, sempre pensando neles, penso sempre em firmeza de propósitos, altivez, dignidade, coragem, porque a luta é muita. E penso nos versos de Vladimir Maiakóvski em um poema chamado precisamente “Nossa Marcha”, e que dizem assim:

“Coração bate e combate. No peito, bronze de guerra”.

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6 Comentários

  1. Mas, porquê “ananás”? O fruto em si é o carioca abacaxi, sem dúvida difícil de descascar, mas gostoso de se comer! Se é ananás que o chamam noutras partes do país, respeitamos o apodo local ou regional, mas fique claro que entre os cariocas o abacaxi é abacaxi mesmo, em todos os seus sentidos, evidente.

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