Cerimônia de posse do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto (Foto: Foto: Tânia Rego/Agência Brasil).

Antes de assinar o termo de posse para seu terceiro mandato presidencial, na mesa da Câmara dos Deputados, Luis Inácio Lula da Silva disse algumas palavras pré-rabisco. “Quebrou o protocolo”, como dizem. Foi breve, o velho torneiro: em 1989, num comício de campanha no Piauí, um homem o presenteou com uma caneta com a qual, assim exigiu o homem do povo, Lula assinaria o termo de posse no dia 15 de março de 1990, após derrotar Fernando Collor nas urnas.

Mas…

“Não ganhei 89, não ganhei em 94, não ganhei em 98. Em 2002, ganhei as eleições e, quando eu cheguei aqui, tinha esquecido a minha caneta e assinei com a caneta do Senador Ramez Tebet. Em 2006, assinei com a caneta aqui do Senado. Agora encontrei a caneta. Essa caneta aqui, Wellington, é uma homenagem ao povo do Estado do Piauí”, disse Lula.

Ramez Tebet, já morto, era pai de Simone Tebet, figura política que, ao contrário de uns e outros com mais nome a zelar, mergulhou fundo na campanha da civilização, contra a barbárie, no segundo turno das eleições 2022. Simone Tebet será ministra do Planejamento do governo Lula 3.

Wellington Dias é ex-governador do Piauí, agora é ministro do Desenvolvimento Social e vai liderar o combate à fome rediviva, mote do governo Lula 3. Foi no Piauí que começou, lá atrás, no governo Lula 1, o programa Fome Zero.

No dia 1º de janeiro de 2019, o “presidente trezoitão” assinou desgraçadamente seu termo de posse usando uma caneta dita “popular” também. Não era Bic; era Compactor, e, na época, a empresa comemorou assim o rabisco mais catastrófico da história do Brasil:

“O presidente Jair Bolsonaro assinou a posse com a caneta 100% brasileira. Compactor Economic. Uma honra ver nossa marca ajudando a escrever um capítulo tão importante na história do país”.

A rampa

Dois anos e nove meses antes de fugir do Brasil, deixando um bando de viúvas-bandeirinhas para trás, na porta dos quartéis, o “imbroxável” se encarregava de dar, ele próprio, a dimensão da sua covardia: na tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas, disse ao mundo que a maior liderança indígena das últimas décadas no Brasil, o cacique Raoni, era “peça de manobra” de governos estrangeiros, naturalmente “globalistas”.

“Acabou a era Raoni”, assegurou, para pasmo global, o “Trump dos trópicos”, em Nova Iorque, mais ou menos como mais tarde, ainda agorinha mesmo, aqui para as latidudes do trópico de Capricórnio, seus fanáticos adoradores garantiam que Lula não subiria a rampa do Palácio do Planalto no 1º de janeiro de 2023.

Neste domingo, 1º de janeiro, Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto de braços dados com o cacique Raoni. O cacique Serere, naturalmente um cacique fake, está preso por se prestar a “peça de manobra” do frustrado bolsogolpismo.

Lá no alto, no alto da rampa, Lula recebeu a faixa presidencial de uma mulher preta, depois o adereço indumentário – porém, mais que isso – passar pelas mãos de vários representantes dos deserdados desta terra, na direção de Luis Inácio Lula da Silva.

Eles queriam era falar pro presidente pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer.

‘Me ajuda’

Sobre toda essa gente que só faz sofrer, disse Lula neste domingo, no parlatório, com a faixa presidencial atravessada no peito:

“Nestes últimos anos, o Brasil voltou a ser um dos países mais desiguais do mundo. Há muito tempo não víamos tamanho abandono e desalento nas ruas. Mães garimpando lixo, em busca do alimento para seus filhos. Famílias inteiras dormindo ao relento, enfrentando o frio, a chuva e o medo. Crianças vendendo bala ou pedindo esmola, quando deveriam estar na escola, vivendo plenamente a infância a que têm direito. Trabalhadoras e trabalhadores desempregados exibindo, nos semáforos, cartazes de papelão com a frase que nos envergonha a todos: ‘Por favor, me ajuda'”.

E chorou.

Quem não se emocionou profundamente, bom sujeito não é. Quem que tenha sede de justiça se emocionou profundamente quando Lula, no parlatório, com a cadelinha resistência zanzando nas cercanias, saudou o povo ecoando o alento que retiniu diariamente em Curitiba durante seus 580 dias de prisão: “boa tarde, povo brasileiro”.

Desata nas veias a primavera

No dia 7 de setembro de 2022, Jair Bolsonaro tirou a faixa presidencial e subiu num palanque em Brasília. Naquele mesmo dia do “imbroxável, imbroxável, imbroxável, imbroxável, imbroxável”, Bolsonaro calou, silenciou no palanque para deixar ecoar livre um conhecido coro da sua laia: “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão”.

Além da caneta do Piauí, da indagação profunda da luta de classes subindo a rampa do palácio, dos pedidos de ajuda do povo novamente calando fundo no coração do poder, outro momento marcante deste domingo foi quando Luis Inácio Lula da Silva calou, silenciou no parlatório para deixar ecoar livre e firme o coro da nossa gente: “sem anistia, sem anistia, sem anistia, sem anistia”.

Sem fome, sem anistia, gastando a caneta logo no primeiro dia de, espera-se, um novo país: lá vai o Brasil, nessa marcha, subindo a ladeira.

“Ainda que nos arranquem todas as flores, pétala a pétala, nós sabemos que é sempre tempo de replantio e que a primavera há de chegar e a primavera já chegou. Hoje a alegria toma posse no Brasil, de braço dado com a esperança”, disse Lula.

Dizem assim os últimos versos do poema “Nossa marcha”, de Vladímir Maiakóvski:

Bebe e celebra! Desata
nas veias a primavera!
Coração, bate a combate!
O peito – bronze de guerra.

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