Há menos de três meses, no dia 16 de dezembro do ano passado, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução intitulada “Combate à glorificação do nazismo, neonazismo e outras práticas que contribuem para alimentar formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância relacionada”.

A resolução foi proposta pela Rússia. Na votação, foi possível ouvir, ao fundo, o retinir das tensões interimperialistas, o rufar dos tambores da guerra, o som agourento da pusilânime sujeição da União Europeia aos interesses estratégicos dos EUA e murmurinhos sobre a relação de grandes democracias liberais com o neonazismo na Europa Oriental.

O placar foi de 130 votos a favor da resolução e apenas dois contra. Os votos contrários foram precisamente dos EUA e da Ucrânia. Abstiveram-se 49 países, entre eles todos os membros da União Europeia.

Quando a resolução foi votada, em meados de dezembro, já havia nuvens de guerra na fronteira russo-ucraniana. Com a guerra deflagrada, o governo de Vladimir Putin vem tentando apresentar a invasão da Ucrânia como uma operação de “desnazificação” da ex-república soviética.

Para justificar seu voto, a Ucrânia alegou que a resolução teria “um viés pró-Rússia”. No mesmo sentido, o vice chefe da missão estadunidense na ONU, Nicholas Hill, em seu voto, classificou o documento como uma “tentativa velada de legitimar as campanhas de desinformação russas denegrindo as nações vizinhas e promovendo a narrativa soviética distorcida de grande parte da história europeia contemporânea, usando o disfarce cínico de deter a glorificação nazista”.

No mesmo voto, porém, o representante de Washington defendeu “o direito à liberdade de expressão e os direitos de reunião e associação pacíficas, inclusive por nazistas declarados”.

A Ucrânia e as divisões Waffen SS

“Mesmo quando neonazistas ou extremistas não participam formalmente do governo, a presença nele de ideólogos da extrema direita pode ter o efeito de contagiar a governança e o discurso político com as mesmas ideologias que tornam o neonazismo e o extremismo tão perigosos”, diz um trecho da resolução.

Outra parte do documento diz que a Assembleia Geral “manifesta profunda preocupação com a glorificação, sob qualquer forma, do movimento nazista, do neonazismo e de ex-membros da organização Waffen SS, por meios como a construção de monumentos e memoriais; realização de manifestações públicas em o nome da glorificação do passado nazista, do movimento nazista e do neonazismo; a declaração ou a tentativa de declarar participantes dos movimentos de libertação nacional os membros que lutaram contra a coalizão anti-Hitler, colaboraram com o movimento nazista, cometeram crimes de guerra contra a humanidade, bem como a renomeação de ruas glorificando-os”.

Em 2019, meses após Volodymyr Zelensky tomar posse como sexto presidente da Ucrânia, duas ruas de Kiev foram rebatizadas em homenagens aos conhecidos colaboracionistas ucranianos do nazismo Ivan Pavlenko e Nil Khasevich.

A Ucrânia é o único país do mundo que tem um regimento abertamente neonazista incorporado ao Exército. Trata-se do Batalhão Azov, que tem como símbolo o Wolfsangel, usado por pelo menos quatro divisões Waffen SS nazistas na Segunda Guerra Mundial, inclusive a temida 2ª Divisão “Das Reich”, responsável por uma miríade de crimes de guerra.

Já a 14ª Divisão de Granadeiros da Waffen SS “Galizien” era quase totalmente formada por colaboracionistas ucranianos. Todos os anos, em abril, sob a complacência das autoridades ucranianas, centenas de pessoas empunhando o emblema da divisão participam de uma marcha em Kiev para celebrar seu aniversário.

Em 2020, o Tribunal de Apelação de Kiev revogou a decisão de um tribunal inferior que tinha declarado ilegal na Ucrânia o emblema da divisão Waffen SS “Galizien”.

A imagem abaixo é da mais recente marcha de glorificação da 14ª Divisão de Granadeiros da Waffen SS “Galizien” em Kiev, realizada em abril do ano passado. O rosto estampado na faixa ao lado do emblema da divisão nazi, lembrando o antigo cartaz com o rosto de Hitler, é o de Stepan Bandera, o mais notório colaboracionista da Ucrânia, reverenciado nos círculos neonazistas do país.

Recentemente, quando os embaixadores da Polônia e de Israel na Ucrânia emitiram uma nota conjunta de repúdio às cada vez mais frequentes glorificações públicas a Stepan Bandera no país, o ministério das Relações Exteriores do governo Zelensky respondeu que “preservar a memória nacional do povo ucraniano é uma das prioridades da política estatal da Ucrânia. Cada Estado determina e honra seus heróis de forma independente”.

‘Desnazificação’, nazificação, NAA

Se por um lado Moscou claramente supervaloriza a “desnazificação” como motivo para a invasão russa da Ucrânia, por outro a mídia ocidental, brasileira incluída, e como parte dos esforços de “saddanização”, ou mesmo da “hitlerização” de Putin, empenha-se de forma igualmente clara num esforço contrário: o de tentar minimizar a nazificação da Ucrânia, classificando como “insignificante” os elementos e fatores neonazistas no país.

Informando contra isso, um relatório de setembro do ano passado do Instituto para Estudos Europeus, Russos e Eurasianos da Universidade George Washington, nos EUA, mostrou que pelo menos desde 2018 a Academia Nacional do Exército (NAA), principal instituição de ensino militar da Ucrânia e um importante centro de assistência militar ao país, está sob influência da Centuria, uma ordem autodenominada de “oficiais militares tradicionalistas” ligada ao Batalhão Azov e que tem como objetivos remodelar as forças armadas do país sob linhas ideológicas de extrema-direita e defender a “identidade cultural e étnica” dos povos europeus contra os “políticos e burocratas de Bruxelas”.

O relatório mostra como países da União Europeia como França e Reino Unido ajudaram a treinar extremistas ucranianos via NAA.

As relações perigosas

Além dos membros da União Europeia, outros países alinhados à política externa dos EUA se abstiveram na ONU sobre a resolução de combate à glorificação do nazismo proposta pela Rússia, como Austrália, Nova Zelândia e Canadá.

No ano passado, houve escândalo no Canadá quando começaram a circular vídeos em que paraquedistas da Ucrânia em treinamento por militares canadenses apareciam cantando homenagens a Stepan Bandera.

Também no ano passado, o jornal Ottawa Citizen revelou documentos oficiais que mostram que em dezembro de 2018 o então comandante do Exército canadense, Jean-Marc Lanthier, reuniu-se com membros do Batalhão Azov. A milícia neonazista hoje integrada ao Exército da Ucrânia teve papel destacado no golpe de Estado de 2014 no país. Logo depois do golpe, em 2015, a missão canadense de treinamento militar desembarcou em território ucraniano. Mais de 30 mil militares ucranianos já foram treinados pelo Canadá.

Outro país da Europa Oriental que recebe treinamento militar do Canadá é a Letônia. Em 2019, o ministro da Defesa letão, Artis Pabriks, referiu-se a compatriotas que foram membros da SS nazista como “orgulho do povo e do Estado”. O então contraparte canadense de Pabriks, Harjit Sajjan, recusou-se a comentar a declaração.

Após a invasão da Ucrânia, o governo de Justin Trudeau enviou 460 soldados adicionais para a Letônia. Pouco antes da invasão, o ministério canadense da Defesa anunciou que os 200 militares da missão de treinamento na Ucrânia haviam sido deslocados para um destino não revelado na Europa.

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