Alvo balístico encontrado na casa de Ronnie Lessa, o apertador de gatilho da execução de Marielle Franco.

Um morador de rua teve os pés e as mãos decepados na madrugada desta segunda-feira, 30, em Araçatuba, interior de São Paulo, por causa da explosão de uma das bombas caseiras espalhadas por criminosos em pelo menos 40 pontos da cidade para serem detonadas à distância, via celular.

As bombas, de metalon preenchido com pólvora, foram espalhadas pela quadrilha que aterrorizou a região central araçatubense com caixas eletrônicos voando pelos ares, rajadas de armas de grosso calibre, várias pessoas baleadas e desfile veicular com reféns sobre o capô.

No último sábado, 28, este Come Ananás mostrou que em meados de julho Eduardo Bolsonaro visitou a região de Araçatuba, onde deu uns pipocos no Clube Boatto de Tiro e Caça, em mais um “compromisso” do périplo que o 03 vem fazendo como embaixador de Jair Bolsonaro nos clubes de tiro que se espalham pelo Brasil na toada dos decretos pró-armas do governo federal e sob o afrouxamento da fiscalização pelo Exército.

Eduardo Bolsonaro, Araçatuba: trata-se de uma coincidência. Ninguém poderia supor que, neste adiantado do século XXI, alguém do núcleo familiar do presidente da República estivesse envolvido com o mais cavernoso crime organizado.

A lembrança da zanzada de Eduardo Bolsonaro pela região de Araçatuba é só para referir que, na mesma matéria do último sábado, Come Ananás destacou um alerta feito no último 15 de junho na Folha de S.Paulo pelo sociólogo Antônio Rangel Bandeira sobre os mais de 30 decretos ou portarias pró-armas assinados por Bolsonaro desde o início do seu governo, como a liberação da posse de até 30 armas de uso restrito e da compra de até 20 quilos de pólvora por ano pelos CACs – Colecionares, Atiradores Desportivos e Caçadores.

“Um dos decretos aumenta a quantidade de pólvora para os CACs de 12 kg para 20 kg, suficientes para a fabricação de 40 bombas!”, exclamou o sociólogo, no artigo na Folha, intitulado “Armas para quem?”.

Quarenta bombas caseiras, como as que são usadas por assaltantes de banco para explodir caixas eletrônicos.

Dados obtidos pelo jornal O Globo via Lei de Cesso à Informação mostram que a quantidade de pólvora comprada por CACs no Brasil em 2020 foi de 24 toneladas, um aumento de 46,5% em relação a 2018 e o do dobro do número de 2017.

A saudável prática do ‘combate veicular’

“Tiro é o esporte que trouxe a 1ª medalha olímpica para o Brasil e é sinônimo de lazer, família. Não permita que pessoas de má-fé ou idiotas úteis demonizem essa saudável prática”, postou Eduardo Bolsonaro no Twitter, quando de sua visita àquele clube de tiro da região de Araçatuba, sobre viver com o dedo no gatilho de fuzis, estocar quilos de pólvora e fazer cursos como um oferecido, para não ir muito longe, pelo próprio clube Boatto: de “combate veicular”.

“Armas de grosso calibre são malvistas entre os verdadeiros esportistas, mas são empunhadas pelo número crescente de milicianos que praticam nos clubes de tiro. Se dez desses milicianos se unirem, terão 600 armas. Poderão adquirir até munição ponto 50, capaz de derrubar helicóptero e perfurar blindado”, lembrou ainda Antônio Rangel Bandeira, na Folha, desmentindo definitivamente o 03.

Meu vizinho é um CAC

Além de 40 bombas, 20 quilos de pólvora é o suficiente para produzir algo da ordem de 40 mil – repetindo, 40 mil – munições para armas de fogo. Na prática, mais pólvora significa, portanto, menos controle e rastreamento de cartuchos. A você, leitor, isto lembra alguma coisa?

“Em um caso como o [assassinato] da Marielle e do Anderson, por exemplo, vai ser encontrada na cena do crime uma munição feita em casa, que pode ter sido feita por qualquer pessoa. É a cápsula, o chumbo e a pólvora. O que fica na vítima do crime é o chumbo. E muitas vezes as armas mais modernas disparam muitas munições por vez. E aí essa cápsula também é ejetada da arma e, muitas vezes, fica na cena do crime, que foi exatamente o que aconteceu no caso Marielle. Se você tem um estojo comprado na fábrica, ela vem com uma marcação específica. E é isso que deixa mais fácil as investigações para a polícia”, disse Ivan Marques, advogado e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, à BBC, no ano passado, sobre o decreto da pólvora de Bolsonaro.

Quando um vizinho de Bolsonaro, o ex-policial Ronnie Lessa, foi preso acusado de ser o apertador de gatilho da execução de Marielle, a polícia achou na casa de Lessa um alvo balístico, digamos, usado.

Na época, o jornal O Globo contou que:

“A silhueta apresenta mais de 50 marcas de tiro. Grandes buracos na área central do alvo indicam que a maior parte dos disparos atingiu ali. No canto superior direito, é possível ler as palavras ‘Machine Gun America’ e ‘Orlando’. Localizada no estado americano da Flórida, a cidade de Orlando abriga um atração chamada Machine Gun America. Trata-se de um clube de tiro com pistolas Glock, fuzis AK 47 e outros tipos de armas de fogo”.

Sim, Ronnie Lessa é um CAC. Ou melhor, era. Seu registro foi cassado por determinação judicial depois que o vizinho de Jair meteu quatro balas na cabeça de Marielle e três nas costas de Anderson.

Quem havia assinado o registro de CAC de Ronnie Lessa foi o tenente-coronel do Exército Alexandre Almeida, ex-chefe do Serviço de Fiscalização de Produtos Controlados do Comando Militar do Leste. Em abril de 2019, o tenente-coronel Alexandre Almeida foi preso por desviar 166 armas para um clube de tiro do Espírito Santo.

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