Cena do filme argentino "A História Oficial", de 1985.

Negócios à parte? Não. Sob o desgoverno de Jair Bolsonaro, os mais notórios empresários bolsonaristas do grupo de WhatsApp Ditadura Já estão, digamos, como Deus quer.

A Mormaii, de Marco Aurélio Raymundo – o “Morongo” – cresceu 300% em plena pandemia de covid-19, com ótimos resultados em meio aos resultados mortais do negacionismo oficial. O Grupo Sierra, de André Tissot, espicha junto com o mercado de luxo em um Brasil faminto. Os shoppings administrados pela Multiplan, de José Isaac Peres, não param de registrar recordes de vendas. A Coco Bambu, de Afrânio Barreira, deve fechar 2022 com média de um novo restaurante inaugurado a cada 25 dias, para vender paillard de filé mignon. Os R$ 800 milhões que Luciano Hang recebeu da distribuição de lucros da Havan em 2021 alçaram o “véio” à lista dos 10 brasileiros mais ricos do mundo.

A partir daqui, alerta de múltiplos spoilers.

No multipremiado filme “A História Oficial”, de 1985 e de Luis Puenzo, lá pelas tantas o empresário Roberto Ibañez dá uma pausa em sua agitada rotina portenha de sócio do “Processo de Reorganização Nacional” e vai visitar a família na província. O ano é 1983 e os dias são os últimos da Ditadura. Durante um almoço, Roberto ouve do velho pai anarquista: “o país desmoronou. Só os filhos da puta, os ladrões, os cúmplices e meu filho mais velho prosperaram”.

‘Só a força’

Depois que Guilherme Amado, do site Metrópoles, publicou mensagens do grupo de WhatsApp onde empresários bolsonaristas defendem um golpe de Estado caso Lula seja eleito, Luciano Hang, participante do grupo, classificou a reportagem de “fake news”, protestando que da sua lavra não pintou qualquer mensagem golpista enviada no privado: “não posso responder pelo que os outros dizem”.

Há poucos meses, porém, Luciano Hang defendeu publicamente que, contra “o perigo” e “os bandidos”, “só a força”, e classificou de “mimimi”, em memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, as novas provas de tortura durante a ditadura no Brasil divulgadas pela torturada Miriam Leitão: “com as pessoas de bem nada aconteceu”.

Uma pessoa de bem

No filme “A História Oficial”, o próspero Roberto Ibañez é um marido amoroso com sua esposa estéril, Alicia, pai dedicado à sua filha adotada, Gaby, de cinco anos de idade, e patrão respeitoso com sua empregada, Rosa. Algo à frente do seu tempo, por assim dizer, Roberto surpreende um general ao instruir Rosa, enquanto pacientemente dá xarope à pequena Gaby, sobre a correta altura do fogo para um molho não talhar.

“Só sei fazer churrasco. No campo, os homens só aprendem isso. Não vejo meu pai preparando um molho”, diz o general. “Se eu só fizesse o que o meu pai faz, como o mundo evoluiria?”, contesta, amável, o empresário.

A história da vida privada da família Ibañez muda, porém, quando o fim iminente da Ditadura vira um óbice para os negócios e ao mesmo tempo Alicia finalmente abre os olhos para o que até então não quisera ver: a pequena Gaby, que o bom Roberto trouxera um dia para casa, era a filha sequestrada, nascida na prisão, de um casal de “subversivos” assassinados pela Ditadura – uma entre tantos bebês e crianças sequestrados pela Ditadura na Argentina e distribuídos entre os militares e seus sócios.

No fim do filme, depois que Alicia aparece na sala de estar com uma avó da Praça de Maio, provável avó biológica de Gaby, Roberto se revolta. O casal discute. Quando Roberto descobre que Gaby não está em casa, o marido amoroso inicia uma sessão de tortura da sua esposa. Ele agarra Alicia pelo cabelo e bate sua cabeça contra a parede, enquanto pergunta: “onde está minha filha?”. Enquanto é espancada, Alicia responde aos gritos: “está na casa da sua mãe!”. No estilo da Escola de Mecânica da Armada, Roberto repete a pergunta, “onde está minha filha?”, enquanto esmaga a mão de Alicia na porta do quarto infantil.

Toca o telefone. A tortura para. Roberto atende. É Gaby, que quer cantar para Alicia antes de ir dormir:

“Em um país que não lembro/dou três passinhos e me perco/Não me lembro se dei/Um passinho para lá/Ai, que medo que me dá”.

¿Qué soy, ahora?

Antes de estrear-se nas artes da tortura, Roberto Ibañez chega a dizer assim, fazendo-se de ofendido quando questionado por suas ligações e segredos com a Ditadura, quando apenas queria criar a filha como Deus quer: “¿Qué soy, un torturador, ahora?”.

Os empresários bolsonaristas pró-golpe, com o perdão do pleonasmo, parecem muito ofendidos também com a publicação do que andam digitando no zap. Um deles disse que apenas usou “figuras de linguagem que não representam a conotação sugerida”, rechaçando apoio a “qualquer ato ilegítimo, ilegal ou violento”.

“¿Qué soy, ahora?”.

É o que só falta perguntarem.

Deixe um comentário

Deixe um comentário Cancelar resposta