Ministro da Defesa, general Paulo Sergio Nogueira de Oliveira (Foto: Lula Marques).

Se William Bonner disse alguma “fake news” na entrevista de Jair Bolsonaro ao Jornal Nacional, na última segunda-feira, 22, foi quando afirmou que Bolsonaro tinha acabado de assumir, bem na sua frente, o compromisso de que respeitaria as eleições de 2022. Bolsonaro, na verdade, disse que as eleições devem e têm que ser respeitadas, “se forem limpas e transparentes”, precisamente aquilo que Bolsonaro e os militares dizem que as eleições no Brasil, com as urnas eletrônicas, não são.

Um porém, portanto, e o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, ministro de Estado da Defesa, é o homem encarregado por Jair Bolsonaro de arranjar esse porém. Mas essa é apenas uma maneira, possivelmente imprecisa, de ler o tumulto que os militares vêm causando no TSE às vésperas das eleições. Há outras duas: uma ainda menos provável; a outra mais de acordo com aonde os fatos permitem comparecer.

A maneira ainda menos plausível de enxergar a conjuntura é que o general Paulo Sérgio, ao causar publicamente balbúrdia político-eleitoral, apenas cumpre ordens do comandante supremo das Forças Armadas, ao mesmo tempo em que, nos bastidores, atua para tentar conter o ímpeto golpista do chefe.

A esta versão diversionista se presta quem toma como premissas o “rigor técnico” e o “espírito colaborativo” autoevocados pela Defesa em sua atuação na “fiscalização” das urnas eletrônicas. Setores da imprensa que vão por esta linha são usados por fontes do governo incumbidas de plantar na mídia um chafariz de “informações” encaixadas, auxiliares à tática que o golpismo bolsofascista usurpou das lutas sociais, a de avançar dois passos, recuar um, para depois avançar mais dois – no caso, no caminho para melar as eleições.

Caso emblemático foi o da matéria “Defesa e TSE agem contra golpismo de Bolsonaro na eleição”, publicada no dia 11 de maio na Folha de São Paulo e cujos título e teor, hoje, mais de três meses depois, soam nada menos que risíveis. O caso mais recente, não menos divertido, é o da reportagem “Após conversa com Moraes, ministro da Defesa faz apelo de paz a Bolsonaro”, publicada na última terça-feira, 23, no UOL, citando fontes do governo.

O anos pré-“Mito! Mito! Mito!”

O terceiro cenário possível, este o mais cheio de nexos lógicos e históricos, seria que a arruaça bolsogolpista ora em curso é, digamos, uma decisão colegiada pelo zênite de um processo no qual Bolsonaro seria menos um comandante supremo e mais um membro, posto que ocupante do cargo político concreto, que o curso dos acontecimentos impôs a alguma junta militar que desde o governo Michel Temer estaria exercendo tutela efetiva sobre a vida política nacional.

De modo que não é possível compreender o Brasil de hoje, novamente às voltas com um golpe, sem perceber que foi parte do golpe de 2016 o início da rápida conquista do espaço político que os altos estamentos militares decidiram ocupar ainda em 2014, após a reeleição de Dilma Rousseff e quando da reta final e conclusão dos trabalhos Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Todo um encadeamento de fatos depõe neste sentido: desde o general Hamilton Mourão, então comandante militar do Sul – depois imposto como vice de Bolsonaro -, conclamando ao “despertar da luta patriótica” e promovendo no quartel uma homenagem póstuma ao torturador Brilhante Ustra, em 2015, até a apresentação, em maio de 2022, do “Projeto de Nação – O Brasil em 2035”, plano de ditadura reloaded urdido pelos generais Luiz Eduardo Rocha Paiva, maior detrator da CNV, e Eduardo Villas Bôas.

O “Projeto de Nação – O Brasil em 2035” prevê vencer um sem número de “óbices” a diretrizes para o Brasil traçadas nos círculos militares, entre eles o “poder midiático e eleitoral do discurso globalista” e “a doutrinação facciosa efetuada por professores”.

Isto, aquilo e passando pela ameaça feita pelo mesmo Villas Bôas ao STF em 2018, quando era comandante do Exército, na véspera do julgamento do habeas corpus de Lula (ameaça que calou fundo no peito de Rosa Weber) e pelo que Bolsonaro disse a Villas Bôas, e jamais foi esclarecido, no dia da sua posse na presidência da República: “o que nós já conversamos morrerá entre nós, o senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui’ “.

Passando também pelo fato de que, no governo Temer, pela primeira vez desde a criação do Ministério da Defesa, em 1999, a pasta foi entregue a um militar, o general Joaquim Silva e Luna, que mais tarde viria a integrar o governo Bolsonaro, primeiro como diretor-geral de Itaipu Binacional, depois como presidente da Petrobras. O ministério da Defesa foi criado no governo FHC precisamente para impor comando civil às Forças Armadas.

Também não nos esqueçamos de que Temer, ao arrepio da Constituição de 1988, nomeou para o comando da intervenção federal no Rio de Janeiro um militar então na ativa, o general Walter Braga Netto, que depois foi ministro da Defesa e da Casa Civil do governo Bolsonaro e ora rende Mourão na vice do capitão. Em julho do ano passado, quando estava na Defesa, Braga Netto fez circular em Brasília a ameaça de que só haveria eleições em 2022 se aprovada a PEC do voto impresso. Em agosto, a PEC foi rejeitada pelo Congresso Nacional.

É bom lembrar também que, ainda no governo Temer, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República foi ocupado por um general de conhecida linhagem “linha dura”, Sérgio Etchegoyen, que é filho de um repressor citado no relatório da CNV. Etchegoyen pulou da chefia do Estado-Maior do Exército diretamente para o GSI, onde teve como secretário-executivo o general Valério Stumpf Trindade, que mais tarde, em 2021, cooperou com a feitura do plano de ditadura reloaded de Rocha Paiva e Villas Bôas. No último 5 de maio, foi a vez de Stumpf assumir o Estado-Maior do Exército.

Recordemos ainda que Bolsonaro, sobre quem se diz que tem tino para escolher seus inimigos, ganhou projeção nacional justamente em 2014 com ataques à deputada Maria do Rosário, que só por uma coincidência, naturalmente, teve papel destacado na criação da CNV, quando foi ministra dos Direitos Humanos no governo Dilma.

Deve-se também a alguma conjunção de um espelho com uma enciclopédia o fato de que Bolsonaro disse a Maria do Rosário que “só não te estupro porque você não merece” precisamente na véspera da apresentação do relatório final da CNV, no início de dezembro de 2014; precisamente em um discurso para atacar a CNV feito na tribuna da Câmara dos Deputados.

Naquele ano, poucos dias antes do episódio na Câmara, Bolsonaro estava na cidade de Resende, no sul fluminense, para participar de uma formatura de cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras. Era o dia 29 de novembro de 2014. Diante dos formandos, Bolsonaro fez seu primeiro comício como candidato a presidente da República:

“Alguns vão morrer pelo caminho, mas em 2018, seja o que Deus quiser, eu estou disposto a tentar jogar pra direita este país. Nosso compromisso é dar a vida pela pátria, e vai ser assim até morrer. Agora, o risco que eu vou correr… posso ficar sem nada. Mas eu terei a satisfação de dever cumprido. Esse é o nosso juramento. Esse é o nosso lema: Brasil acima de tudo”.

Neste 25 de agosto, Dia do Soldado porque aniversário do Duque de Caxias, ganha um espadim de Caxias quem adivinhar se houve punição aos oficiais que permitiram a apresentação de uma candidatura presidencial dentro de uma organização militar e aos aspirantes a oficiais que, em êxtase, fardados, saudaram o orador aos gritos de “Líder! Líder! Líder”, naqueles tempos pré-“Mito! Mito! Mito!”, em patente infração ao Regulamento Disciplinar do Exército, que proíbe “autorizar, promover ou tomar parte em qualquer manifestação de caráter político”.

‘A possibilidade de um código malicioso’

Nesta quarta-feira, 24, a imprensa brasileira deu conta de que técnicos do TSE informaram ao novo presidente do tribunal, Alexandre de Moraes, que a possibilidade de testar as urnas eletrônicas com biometria de eleitores reais no dia da eleição é simplesmente “inviável”. A mesma imprensa informa que esta medida “é parte da série de sugestões feitas pelo ministério da Defesa ao TSE”.

É muito mais do que isso. Testar as urnas eletrônicas com biometria de eleitores reais no dia da eleição é uma das três “propostas essenciais”, nas palavras do ministro-general Paulo Sérgio, feitas pelas Forças Armadas ao TSE. No dia 14 de julho, Paulo Sérgio disse numa audiência no Senado que só isto “reduziria a possibilidade de um código malicioso furtar-se ao teste”. Naquele dia, o ministro da Defesa levou ao Senado da República um coronel da ativa do Exército para dizer que “é possível que um código malicioso tenha sido inserido na urna e fique lá latente esperando algum tipo de acionamento”.

A “proposta de aperfeiçoamento” do teste de integridade das urnas eletrônicas é a única das várias sugestões apresentadas pelas Forças Armadas ao TSE que mereceu publicação, com direito a infográfico, no site do Ministério da Defesa:

A “proposta de aperfeiçoamento” considerada inegociável, “essencial” pelas Forças Armadas acaba, porém, de ser considerada “inviável” pelos técnicos do TSE. Tendo em vista o detalhamento feito pela imprensa, o de que a área técnica do tribunal considerou a proposta “impossível em várias frentes”, só mesmo uma fé inabalável no “espírito colaborativo” do general Paulo Sérgio para conceber que os militares, com seus pós-graduados em informática há tempos debruçados sobre as urnas, já não soubessem há tempos que era exatamente isso o que iria acontecer.

Temos, portanto, um impasse, e tudo leva a crer que se trata de um impasse planejado, arquitetado, diuturnamente edificado para fazer as vezes do “porém” prenunciado por Jair Bolsonaro diante de William Bonner na entrevista do Jornal Nacional na última segunda-feira: o de que eleições devem e têm que ser respeitadas, sim, porém, “se forem limpas e transparentes”.

Desde quando?

Numa palavra, trata-se de um impasse premeditado. O objetivo é ter na manga da farda, para todo caso, um pretexto – “a possibilidade de um código malicioso furtar-se ao teste”, como disse o general Paulo Sérgio no Senado – para tentar adiar indefinidamente o primeiro ou o segundo turnos ou, havendo eleições, apontar possibilidade de fraude, bagunçando o coreto, quando e se Lula for declarado presidente eleito.

Há quanto tempo exatamente este impasse vem sendo deliberada e cuidadosamente construído, não se sabe ao certo. A súbita desistência do general Fernando Azevedo e Silva de assumir um cargo-chave no TSE para o período eleitoral, em meados de fevereiro, pode ser informativa.

De modo semelhante, as manifestações com ares de denúncias feitas em eventos internacionais pelos dois mais recentes ex-presidentes do TSE – Luis Roberto Barroso, em abril (“Forças Armadas estão sendo orientadas a atacar as eleições”), e Edson Fachin, em julho (“Brasil pode ter caso mais grave que Capitólio”) – podem ser índices da escalada do ardil das Forças Armadas e da percepção da sua gravidade pelas forças sem fuzil.

Nesta quarta, no mesmo dia em que chamou o acossado Augusto Aras de última hora para uma reunião com os chefes militares, e um dia após se reunir com Alexandre de Moraes, o ministro-general Paulo Sérgio Nogueira demandou ao TSE o agendamento de uma outra reunião com Moraes. A pauta? Mudança no teste de integridade das urnas eletrônicas.

A pouco mais de um mês das eleições, há hoje no Brasil, de fato, um malware latente, esperando ativação.

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