Nikolai Patrushev e Vladimir Putin.

A menos de uma semana de assumir a Diretoria-Geral do Tribunal Superior Eleitoral, o general Fernando Azevedo e Silva deu para trás.

Azevedo e Silva era tido pelo TSE como uma espécie de “fiador” das eleições de 2022, diuturnamente ameaçadas pelo seu ex-chefe Jair Bolsonaro. O timing da desistência foi a viagem de uma comitiva de Bolsonaro à Rússia repleta de seus colegas da farda e patente – Augusto Heleno, Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos – e de suspeitas e especulações sobre o que exatamente Bolsonaro et caterva foram combinar com os russos. A razão oficial para a desistência do general Azevedo e Silva, porém, foi a descoberta de um problema no coração.

“Meu coração suspeita que há algo mais do que os meus olhos podem enxergar”, disse Quintus em Tito Andrônico, tragédia de William Shakespeare.

A viagem de Jair Bolsonaro a Moscou foi um curioso caso de encontro de chefes de Estado com todas as pompas e circunstâncias possíveis, mas com nenhum, zero acordo sacramentado. A comitiva de Bolsonaro, que teve cinco ministros de Estado, saiu da Rússia com um único documento subscrito por autoridades contraparte: um “protocolo mútuo de informações classificadas”, assinado pelo chefe do GSI, Augusto Heleno, e pelo secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Nikolai Patrushev.

16 de janeiro de 2022: Augusto Heleno invade a Rússia (Foto: Alan Santos/PR).

Como Heleno, Nikolai Patrushev é general da reserva. Ele é também ex-diretor do Serviço Federal de Segurança russo, sucessor da KGB. O site americano Politico descreve Patrushev como “um falcão do Kremlin conhecido por seu nacionalismo feroz, visão de mundo conspiratória e extensa experiência em espionagem”.

Patrushev, que é muito próximo de Vladimir Putin, esteve envolvido nos desdobramentos – pelo menos nos desdobramentos – de uma tentativa de golpe de Estado em Montenegro, na península balcânica, em 2016.

Citando fontes diplomáticas da Sérvia (até 2006, Sérvia e Montenegro eram um país só), o jornal britânico The Guardian informou naquele ano que Belgrado havia deportado em segredo um grupo de cidadãos russos que teriam coordenado um plano para assassinar o então primeiro-ministro pró-ocidente Milo Djukanović, um entusiasta da integração de Montenegro à Otan, a fim de instalar um governo pró-Rússia em Podgorica, capital montenegrina.

O grupo russo seria “semi-freelancer”, ou seja, suficientemente distante de Moscou para a operação ser plausivelmente negada caso fosse descoberta. Quando a trama foi desbaratada, porém, Patrushev pegou um avião para Belgrado, num aparente esforço para abafar o escândalo. A viagem teria resultado na deportação secreta dos conspiradores russos. As fontes do Guardian disseram que o general pediu desculpas e negou participação do Kremlin. O Kremlin, por seu turno, negou tudo, inclusive que Patrushev tenha chegado a negar envolvimento no caso.

Três dias após a visita de Patrushev a Belgrado, um esconderijo de armas foi encontrado perto da casa do então primeiro-ministro da Sérvia, Aleksandar Vučić, que vinha realizando exercícios militares com a Otan e anos antes havia se recusado a conceder status diplomático a cidadãos russos que trabalhavam em um centro humanitário sérvio-russo na cidade de Niš, a terceira mais importante do país balcânico.

“Autoridades ocidentais – reportou o Guardian – suspeitam que o centro seja um cavalo de Troia, que pode se expandir como um centro de inteligência e operações paramilitares na região. O status diplomático, apontam, teria permitido que equipamentos passassem pela alfândega sérvia sem fiscalização”.

‘Vírus da mídia’

Em meados de 2021, documentos vazados do Kremlin revelaram que uma reunião de 22 de janeiro de 2016 do Conselho de Segurança da Federação Russa, cuja pauta oficial era o “agravamento da situação política interna da Moldávia”, foi, na verdade, para tratar dos planos do governo russo para colocar Donald Trump na Casa Branca, nas eleições de novembro daquele ano nos EUA.

A foto oficial daquela reunião “sobre a Moldávia” no Kremlin mostra Nikolai Patrushev sentado à esquerda. Ele é o terceiro na fileira iniciada, a partir de Putin, por Dimitri Medvedev.

22 de janeiro de 2016: Reunião “sobre a Moldávia” no Kremlin.

Um relatório apresentado a Vladimir Putin e discutido naquela reunião de 22 de janeiro de 2016 recomendava ao presidente russo empregar “toda a força possível” para garantir a vitória de Trump. O documento menciona planos para para inserir um tal “vírus da mídia” na vida pública americana.

Acreditava-se que Trump seria um presidente fraco e, por consequência, haveria um enfraquecimento da posição americana nas mesas de negociações internacionais. Neste sentido, Trump foi descrito naquela reunião como “o candidato mais perspektivny“, ou seja, mais promissor para os interesses estratégicos russos, justamente porque “impulsivo, mentalmente instável e desequilibrado”, capaz, portanto, de causar “desestabilização do sistema sociopolítico dos EUA”.

A julgar pela hospitalidade de Putin a Bolsonaro, nesta semana, está consolidada a nova reapolitik da Federação Russa de trabalhar pela eleição, ou pela reeleição, de governantes instáveis e desequilibrados, fascistas, em outras importantes federações do mundo.

Em tempo: em janeiro de 2017, uma semana antes da posse de Donald Trump e um ano após aquela reunião no Kremlin, aconteceu um encontro secreto entre um emissário de Trump e um emissário de Putin nas Ilhas Seychelles, no Oceano Índico. O encontro foi revelado em abril de 2017 pelo Washington Post.

A identidade do emissário russo, porém, nunca foi revelada.

Quem organizou o encontro foi o xeique Mohamed bin Zayed al-Nahyan, mandachuva dos Emirados Árabes Unidos, destino da viagem internacional anterior de Bolsonaro, em novembro do ano passado. MBZ, como é conhecido, é mandachuva também da DarkMatter, empresa de espionagem digital de Abu Dhabi procurada por um integrante do “gabinete do ódio” do Palácio do Planalto, e da comitiva de Bolsonaro, durante aquela viagem oficial do presidente da República.

Ouvida pelo Come Ananás, a diretora de segurança cibernética da Electronic Frontier Foundation e consultora técnica da Freedom of the Press Foundation, Eva Galperin, disse que “os Emirados Árabes Unidos financiaram a DarkMatter e a usaram para ajudar seus aliados e realizar seus objetivos geopolíticos”.

Novembro de 2021: Bolsonaro e Mohamed bin Zayed al-Nahyan em Abu Dhabi.

Mohamed bin Zayed al-Nahyan chegou a se reunir com Steve Bannon em Nova York, em dezembro de 2016, sem que os Emirados Árabes comunicassem ao então governo Obama a presença de um mandachuva de um Estado estrangeiro em solo americano.

Acerca de tudo isso, este Come Ananás publicou no último 18 de janeiro a reportagem “O Carluxogate, o ‘grupo Trump-Emirados’ e as armas de Bolsonaro para 2022”. O “grupo Trump-Emirados” foi fartamente escrutinado nas investigações sobre a interferência russa das eleições de 2016 nos EUA.

Patrushev, Etchegoyen e Braga Netto

Em dezembro de 2017, Patrushev veio em missão oficial ao Brasil, para ter com Michel Temer, com o então ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, e com o antecessor do general Augusto Heleno no GSI, o também general do Exército Sérgio Etchegoyen.

Michel Temer e Nikolai Patrushev no Palácio do Planalto, em dezembro de 2017 (Foto: Marcos Corrêa/PR).
Dezembro de 2017: Temer conversa com Patrushev. Ao lado do general russo, o general brasileiro Sergio Etchegoyen (Foto: Marcos Corrêa/PR).

Patrushev e Etchegoyen discutiram “cooperação na área de inteligência,” e o general russo manifestou interesse também na experiência brasileira de segurança de grandes eventos, com os Jogos Olímpicos de 2016, realizados no Rio de Janeiro. A Rússia viria a sediar a Copa do Mundo de 2018. As operações de segurança da Olimpíada de 2016 foram comandadas pelo atual ministro da Defesa, general Braga Netto, que também viajou para a Rússia com Bolsonaro.

Em Moscou, Braga Netto se reuniu com seu congênere russo, o ministro da Defesa Sergei Shoigu, e com o ministro da Relações Exteriores de Putin, Sergei Lavrov, num encontro que contou também com o chanceler brasileiro, Carlos França. A pauta oficial foi a de “tratativas de parceria na área de tecnologia militar”.

16 de janeiro de 2022: Braga Netto em Moscou (Foto: Alan Santos/PR).

Lavrov e Shoigu, que não costumam perder tempo com tratativas, deixando isso para assessores, também participaram daquele reunião de 22 de janeiro de 2016 no Kremlin – aquela “sobre a Moldávia”.

No encontro bilateral com Carluxo, com tudo – mas sem acordo, sem nada – pode ser que tenha sido algo assim que a comitiva de Jair Bolsonaro foi combinar com os russos: algo “sobre a Moldávia”.

16 de fevereiro de 2022: as aventuras de Carlos Bolsonaro na terra dos Sovietes (Foto: Alan Santos/PR).

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